Chris Anderson costuma ser digno do meu respeito e admiração - não bastasse editar a Wired, a revista que eu quero ser quando crescer, Anderson apareceu com o genial 'A Cauda Longa', uma excelente análise do mercado de nicho, e escreveu o ótimo artigo 'Free! Why $0.00 is the future of business', um teaser de seu próximo livro. Neste artigo, Chris Anderson mostra que, às vezes, o melhor caminho para alavancar um negócio pode ser dar coisas de graça.
Dar brindes e amostras, por exemplo, não é apenas um ato de bondade de um fabricante, mas a plena confiança em que o consumidor vai gostar do produto e vai comprar. Dar músicas inteiras, principalmente nos casos em que o artista não ia conseguir lucrar muito com a venda, é ótimo para divulgar um trabalho - e garantir, por exemplo, um show lotado de fãs. Dar um artigo ou livro pode transformar o autor referência bibliográfica, trazendo reconhecimento e abrindo outras possibilidades - convites para conferências, palestras, pessoas interessadas nos seus outros trabalhos, que podem até ser vendidos. É mais do que gentileza. É outra forma de fazer negócios. Há ainda que perceber o duplo sentido da palavra "Free", que pode ser 'grátis' ou 'livre'. Pensemos o presente como 'livre', então: ele se espalha, viraliza, as pessoas comentam, pegam uns dos outros em redes, fazem propaganda, fazem com que seu trabalho seja conhecido na China, com que seu produto atinja lugares que você jamais imaginou. Controlar, pra quê? Ganha mais quem consegue usar o descontrole a seu favor, transformando essa característica do 'livre' em seu aliado.
(claro, cada caso é um caso. mas há casos. você sabe.)
Essa é a conversa do dia, mas a prática é antiga, antiga! Vamos tentar rastrear o fenômeno? Sei que em 1968, a MAD começou a distribuir compactos encartados na revista. Sei porque 'It's a gas' é uma daquelas músicas toscas que adoro, e você pode ouvi-la aqui. Aposto que nos anos 50 existiam discos promocionais com artistas diferentes de uma mesma gravadora. Aposto que as primeiras vendas por catálogo dos primeiros anos do século XX tinham alguma espécie de promoção (aposto, não: eu TENHO um catálogo da Sears de 1907!). A própria Wired... lembra da edição de fins de 2004, que vinha com um cd recheado de artistas do porte dos Beastie Boys, David Byrne, Le Tigre, The Rapture, Cornelius, Dj Dolores e até Gilberto Gil, que participou do projeto como músico e dando uma entrevista que mostrava - como Ministro da Cultura que o Brasil estava por dentro das questões relativas a cultura digital? Guardo a revista até hoje. As faixas estavam liberadas também pra remix, olha que beleza! Pela primeira vez, ouvi falar do Creative Commons, e se você pensa que vou entrar nesse assunto aqui, está enganado: o que lembro mesmo foi da maneira como Gil conduzia um assunto tão interessante no Brasil, a Wired deu o maior destaque e aqui mesmo a coisa demorou a engrenar. Mas eu lembro. Aquela edição da Wired foi um marco.
O que quero é ativar sua memória afetiva relacionada a esses presentes inesperados que vieram junto com o produto 'principal'. Aquela banda pela qual você se apaixonou porque ganhou um disco encartado num jornal (a NME era mestra em fazer isso!!! E como era difícil achar aqui!). Eu sei que você lembra disso.
Ou daquele conto que veio encartado naquela revista em 1994 e, anos antes de você saber da existência de um homem chamado Marshall McLuhan, você sabia de ciborgues e de um homem chamado William Gibson - e se você leu Johnny Mnemonic a tempo de se apaixonar pelo conto e achar o filme meia-bomba, você não achou a menor graça na trilogia 'Matrix', que conseguiu desonrar tanto a cibercultura como as filosofias orientais.
Ou ainda - chegamos exatamente onde eu queria, toda essa conversa de 'nova economia' só pra te fazer lembrar disso! Ha, ha! - a mesma revista já operava com essa política e, em 1994, te deu aquela fita que, quase 15 anos depois, serve de amostragem do teu gosto musical ainda hoje. Foi em 1994 que você viu o clipe espetacular de 'Sabotage', dos Beastie Boys.
Que você pirou no primeiro grande sucesso do Blur, muito antes da rixa com o Oasis atravessar o Atlântico. Que você, que já gostava de Pixies, botou a Kim Deal no seu top 10 baixistas, mesmo ela fazendo umas linhas meio bebelol e nem se comparando ao Les Claypool ou ao Billy Gould, seus top 10 baixistas na época.
Se em 1994 a fitinha da General não saía do teu walkman e você agradece a free culture - seja no sentido de cultura livre ou no sentido de 'cultura do grátis' - até hoje por isso, por expandir seus horizontes musicais, bem-vindo ao clube.

Que foi? A arte é minha também.
Aproveite que você está em pleno ano de 2008 e refaça esta seleção musical. A playlist tá aí em cima. Faça-se esse favor.
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E você? Onde foi que a cultura do grátis acertou em cheio contigo?
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Eu também quero ser a General, não a patente militar, mas a revista, quando crescer.