Várias pessoas já falaram do Yahoo!Posts, mas acho que ninguém tocou num ponto muito importante: não é apenas uma questão de 'o portal seleciona os melhores textos de uma penca de blogs e publica os melhores'. Até porque, veja bem, eu tou lá também e ainda não fui publicada (re, re, re). Mas acho que esse tipo de iniciativa ajuda a melhorar a qualidade do que é escrito por aí.
Tou errada? Mas, partindo do princípio que o teu texto vai ganhar chamada na home do Yahoo com a mesma importância de texto de site de notícias, você vai ficar publicando "querido diário, hoje eu assisti 'A Encarnação do Demônio', novo filme do Zé do Caixão, e estou até agora de cara com o filmaço" ou vai se puxar para escrever textos com alguma relevância de conteúdo, sabendo que assim terá seu texto indicado e cair novamente na home do portal?
Se você for inteligente, você vai na segunda opção.
Se você for Lia Amancio...
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A ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO
(contém um ou outro spoiler, mas não compromete. juro)
O texto que segue é tão imparcial como o de alguém que, embora respeite a história do artista e do personagem, já tenha visto alguns filmes e encarado como 'ok, tive minha cota de filme cult', não exatamente adora Zé do Caixão. E, no entanto, passei o filme inteiro com um estranho sorriso de satisfação, e saí do Arteplex com a sensação de que não preciso entrar numa sala de cinema tão cedo. Pra você ver...
Josefel Zanatas passou décadas de sua vida procurando a mulher perfeita para gerar o filho perfeito. Depois de 40 anos encarcerado, Zanatas sai pelas ruas de São Paulo disposto a levar a cabo sua procura, iniciada nos anos 60 - mas o mundo está praticamieeennnnte mudado: a polícia consegue ser mais truculenta e sem noção do que ele; as pessoas estão claramente mais perdidas e paranóicas com estranhos do que há 40 anos atrás. Você, eu não sei - mas eu senti pena do coveiro tentando se adaptar ao cruel e bizarro ano de 2008 (2007, vá lá, o filme foi produzido ano passado). Felizmente, ele consegue. Mas é preocupante ver um homem que um dia já foi tão impiedoso, chorando de medo de pesadelos e alucinações do passado.
"EU IMAGINEI QUE FOSSE VOLTAR PARA O RAMO FUNERÁRIO, MAS NÃO DESTE JEITO"
O que, para o espectador, é ótimo: as cenas de flashback e as referências aos filmes anteriores são na medida certa para não serem a principal tônica deste filme e, ainda assim, situar quem está chegando agora. Além do mais, se 2007 é cruel com Zé do Caixão, 2007 permite a Mojica não poupar recursos para filmar todas as bizarrices que queria e mais um pouco: só mesmo nos dias de hoje para você costurar a boca de alguém ou suspender pessoas com ganchos de açougue sem precisar ao menos abusar de maquiagem e caracterização.
"UMA CARTOLA, UMA CAPA, E UMAS P*** UNHAS DESSE TAMANHO. ANOTA AÍ: UNHAS DESSE TAMANHO!"
Aliás, 'A Encarnação do Demônio' é primoroso neste sentido: um filme de baixo orçamento (o crédito do edital da Ancine entrega) que em nenhum momento é tosco. Porque hoje a gente vê os filmes de 40 anos atrás e acha toscos, verdade, mas é a época, gente. Sim, haja sangue neste filme, splatter de primeira linha, mas nada soa falso, exagerado, inverossímil. Hoje, José Mojica Marins é tão querido e respeitado como lenda viva que todo mundo que participou de seu filme o fez sabendo que faria algo importante. Quem melhor para vestir os escravos de Zé do Caixão, hoje em dia, do que Alexandre Herchcovich? Quem melhor para criar a ambientação sonora de uma São Paulo caótica do que André Abujamra? Zé Celso está - e eu tenho birra com certas 'gentes de teatro' - perfeito, o cenário 'intra-uterino' é perfeito, a fotografia no parque de diversões é perfeita, Milhem Cortaz está excelente, Jece Valadão (em seu último filme) está ótimo, a direção de arte arrebenta (palavra de produtora de arte! Alguém sacou as moedas nos olhos das tias, o que significa dentro da simbologia das personagens? Hã? Hã?), o roteiro de Dennison Ramalho é bem amarrado e, sim, surpreende.
Surpreende mas não te assusta, não te assusta mas te faz sentir - não medo, mas desconforto por aquele senhor de setenta e poucos anos não se encaixar na sociedade, não se encaixar nas crenças tão diversificadas deste país, não se encaixar com as autoridades, não se encaixar no céu, no inferno e nem no purgatório; por esse mesmo senhor, tratado como um outsider em seu próprio mundo, achar conforto, devoção e lealdade na noite, entre os freaks, e pensar que isso é a vida real (a metáfora do culto ao personagem terá sido intencional?); por esse mesmo senhor, o único que ainda teatraliza sua interpretação, mesmo entre Luis Melo e Zé Celso Martinez Corrêa (que parecem suaves como Meg Ryan), ter o dobro da idade dessa galera e ainda ser capaz de barbarizar - seja com as torturas impostas pelo personagem, seja também na vida real, com o filme elegantemente (juro!) nojento. E por mais gratuitamente sádico que Zé do Caixão seja, por mais surreal que seja sua missão, quando Mojica diz que a saga chegou ao fim, você fica triste porque simpatizou com o tiozinho das unhas enormes, que só queria fazer um filho perfeito para dar continuidade à linhagem.
Se ele conseguiu?
Se Woody Allen ou Renato Aragão... bem, veja o filme. Se não pra ver aquele senhor tocando o terror, barbarizando geral e pegando as mulheres mais gostosas de São Paulo, pra ter uma aula de como se faz cinema de verdade (ouviu, né, Christopher Nolan? Sentiu quem é o verdadeiro Dark Knight? Toma!).
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