Interessante. Isso é em Portugal: uma marca de chás prontos promove uns encontros de jazz ao ar livre. Excelente associação: chá, bem-estar, jazz, ar livre. Como sempre, tive idéias. Mas, diferentemente de outrora, nestes últimos meses tenho arrancado força do útero para ficar acordada em horários alternativos só para executar essas idéias.
* * *
O mal-estar na pós-modernidade
Tenho trinta anos, trabalho, pago minhas contas. Boa parte dos meus amigos o são porque temos afinidades - trabalhamos em áreas correlatas, temos mais ou menos os mesmos interesses. Mais cedo ou mais tarde, "como está teu trabalho?" acaba virando assunto, e invariavelmente o que era apenas amizade vira networking - é um procurando trabalho, o outro precisa de ajuda em um projeto, "oi, posso te pedir um favor?", e o trabalho vira pretexto para almoçar com os amigos. Nossa, chega de networking. Amizade, isso sim, devia ser pretexto pra almoçar com os amigos, tomar umas cervejas, tomar um café. Como fugir do networking em tempos de... networking? Eu quero meus amigos - apenas amigos - de volta!
* * *
O culto à urgência
"Computador", na França, teve seu nome mudado para "Ordinateur" - não por alguma espécie de purismo lingüístico dos franceses, mas porque 'con' e 'pute' não são exatamente palavras delicadas de se dizer. O melhor termo que eles encontraram, donc, foi o do ordenador, máquina que serve para botar ordem, organizar. Eu achava que computador servia para isso, mas consigo achar muitos outros usos - um deles é aumentar o gap entre as classes (mesmo que as classes sejam ligeiramente parecidas, como a minha e a da minha network dos meus amigos). Um exemplo? Sou considerada um et porque não estou on-line no meio da rua. Porque meu celular apenas fala - no máximo, toca música, tira fotos e faz pequenos filmes, mas esse não é o mesmo que fala. Porque, bem, não posso arcar com os custos de um aparelho (e um plano de operadora) para me deixar on-line o tempo inteiro. Então, em vez de entrar numa technoia sem limites, me adapto à minha própria realidade: meu caderno de desenho é meu pastor, e se há uma caneta no recinto, nada me faltará (muitas vezes, passo para o ordenador e dou um segundo tratamento à arte ou ao texto, é verdade). Meu caderno é meu dispositivo móvel, e ai de quem falar da derrubada de árvores versus a intangibilidade dos arquivos digitais: cadernos se reciclam. Baterias de lítio... também, mas aí é mais complexo.
* * *
A Ordem do Discurso
O lado bom da pós-modernidade, se me permitem, é a síndrome do Grande Irmão. Minha mãe pode me ler, meu pai pode me ler, o namorado (que, quando existe, fuça tudo mesmo!) pode me ler, o chefe pode me ler, para não falar de quando você precisa muito fazer um comentário ácido e sarcástico sobre alguma coisa/pessoa que viu no dia anterior... e pode se indispor se teu comentário for achado por aí. Você pode ser até processado - e retirar a página do ar não adianta muito, com o cache do google ali, pra te lembrar até o fim dos tempos que você escreveu, sim, sobre aquilo.
Pois quando bate aquela vontade de dissecar toda a minha acidez sem fim no Twitter ou no blog... os amigos, né? Nada, nada, nada - nada no mundo, mesmo - substitui os amigos (e não apenas pra isso). Sobra pra Simone, pra Tatiana, pro Marcelo...
...ou pro meu sempre infalível caderno de papel.

(Foucault não fala sobre os dispositivos de controle do discurso, que uma destas formas de controle é selecionar quem fala? Pois eu seleciono quem ouve. Porque cortar do orkut, do twitter ou impedir alguém de ler os feeds pode não ser muito bom para o networking a amizade - mas o exercício da discrição, esse sim, é o controle absoluto. selecionar quem pode saber de tudo, de quase tudo ou de nada faz bem. ô...)
(bicho, eu já ia escrever discours. mulher fina é outra coisa...)