É até meio estranho, mas eu gosto de ópera. Tenho uns CDs em casa e vez ou outra me pego ouvindo Aida ou Carmen na íntegra. Pena que eu entenda tão pouco desse gênero musical. O básico eu sei, mas sinto que falta muita coisa ainda.
Bem, de qualquer forma, não pude perder a oportunidade de ir ao Teatro Municipal ver a montagem de Lohengrin. Primeiro, porque foi no Teatro Municipal, uma casa de espetáculos de verdade, com arquitetura, acústica e, principalmente, localização decente. Nada de obrigar o pessoal a ir até o início da Marginal Pinheiros, no meio do nada, para ver um espetáculo. Outro motivo foi porque estava a um preço razoável (R$ 30). Por fim, era uma ópera alemã, com as quais eu não tenho tanta intimidade (nem em CD). Seria interessante para conhecer.
Não farei muitas considerações a respeito do espetáculo porque não tenho muita experiência em ver óperas ao vivo. Posso dizer que essa me pareceu bem montada (mesmo com o pescoço do cisne quebrando na última cena) e que a presença de legendas ajudou bastante. A outra montagem que vi (Carmen, em 1999, acho) era muito mais simples e não tinha legenda. Entender a história foi muito mais difícil.
Além disso, dentro de seu contexto original e com letra, a “Marcha Nupcial” (musiquinha padrão de casamento) fica muito mais legal. Tem outra vida e, claro, complexidade musical. A versão de casamento, quase sempre contando apenas com teclado ou órgão, é muito mais “chapada”. Sem contar que o momento da música não é na cerimônia de casamento. Como o próprio nome diz, a “Marcha Nupcial” é usada na noite de núpcias.
O que realmente é muito bom é assistir a qualquer coisa no Municipal. O prédio é bonito, a sensação de sair no intervalo e ir a um terraço com vista para o Vale do Anhangabaú é rara em uma cidade enfeiada como São Paulo e a localização é ótima. Dá para chegar do trabalho sem muita pressa, o que não ocorre com Vias Funchais, Alfas-Reais e Credicards Halls da vida.
Pena que são montadas tão poucas óperas em São Paulo. Enquanto isso, a Bela e a Fera, com muito patrocínio e apelo popular, ficou dois anos em cartaz. É um musical bem feito (fui porque ganhei um ingresso), mas não é a mesma coisa.
Eu sou um daqueles que, quando entra na locadora, vasculha as cada vez menores prateleiras de VHSs em busca de algum filme. Pois é, ainda não tenho um aparelho de DVD. É coisa de gente retrograda, mas fico eternamente esperando o preço do aparelho laser baixar. Enquanto isso, tenho de me contentar com o bom e velho vídeo-cassete.
O motivo de tamanha falta de iniciativa é que eu uso muito o vídeo-cassete para gravar programas da TV (sobretudo jogos de futebol e documentários do Canal de História), ao invés de assistir filmes, shows ou qualquer outra coisa. Assim, um aparelho de DVD seria utilizado apenas umas duas ou três vezes por mês. Tenho dúvidas se vale a pena o investimento.
Por isso, fico esperando o tal do DVD gravável baixar de preço. Se estivesse a uns R$ 600, eu já tinha levado há muito tempo. Daí, fazia a festa! No entanto, o preço do aparelho está demorando muito para ser reduzido. Enquanto isso, o VHS se torna cada vez mais obsoleto e algumas locadoras (sobretudo as que ficam perto da minha casa) já praticamente abandonaram o sistema.
Alugar um VHS é quase que uma atitude de coragem. Você entra na locadora, vai naquele cantinho dos excluídos das benesses da tecnologia de ponta, tem metade das opções dos “bacanas” que já curtem seu DVD e ainda têm de torcer para o atendente da loja não fazer aquela cara de “você ainda tem VHS, seu pobre?”.
Para piorar, parece que o surgimento do DVD fez as pessoas relembrarem que guardar vídeos em casa é legal. Muitos filmes, documentários e shows são lançados em DVD. Com uma freqüência maior do que na época do VHS. E eu fico louco para poder comprar. Quase já fiz isso algumas vezes. Sinto que minha fidelidade ao VHS está fraquejando...
Quem foi que teve a “genial” idéia de comparar “Os Esquecidos” (The Forgotten) com “O Sexto Sentido” (The Sixth Sense)? Um filme tem muito pouco em comum com o outro. A temática é diferente. A estética é diferente. A forma de apresentar a história é diferente. Gostaria de falar mais sobre isso, mas fico com medo de tirar a graça do filme para quem ainda não o viu.
O pior é que os jornais ficaram fazendo essa comparação e, na hora de ver “Os Esquecidos”, você espera coisas que viu no “Sexto Sentido”. Quando termina o filme, acaba se sentindo meio enganado, pois sua expectativa não é atendida. Então, que fique claro que um não tem nada a ver com o outro.
“Os Esquecidos” não é um filme bom. Tem seus problemas, mas também não chega a constranger o espectador de tanta ruindade. Sei lá, dá para ver. Ainda mais para quem foi fã de uma determinada série que passou na TV (se eu falar qual também pode tirar um pouco da graça). Aliás, quem viu essa série vai achar o filme menos surpreendente do que já é.

Essa foto apareceu em tudo quanto é site assim que foi confirmada a reeleição de George W. Bush à presidência dos Estados Unidos. É uma foto bem tirada, que passa a vibração dos eleitores republicanos e que, por ser da Associated Press, pôde rodar o mundo livremente. Pois é, essa foto me dá muita raiva. Mais do que qualquer uma que mostre o dito cujo festejando.
Não sei porque, mas fico sempre com a sensação de que essas pessoas estão tirando sarro de mim e de todos que ficaram torcendo, mesmo que sem poder fazer nada, pela vitória de John Kerry. Odiar essa foto virou uma causa pessoal, mesmo tendo consciência que não faz sentido achar que um bando de texanos (antes que digam que estou generalizando e chamando de texano ou caubói todo republicano, a foto foi realmente feita no Texas) está tirando uma da minha cara.
De qualquer forma, fico imaginando o que faz essa gente toda – e não são poucos, foram 59.459.765 norte-americanos – votar no sujeito que parece o Alfred Newman. E ainda vibrar com isso tanto quanto os torcedores do Boston Red Sox, tradicional time de beisebol que saiu de 86 anos de fila há duas semanas.
Quem seguiu a campanha de perto diz que o tom moralista e religioso-cristão da campanha do Bush Jr. foi um dos principais motivos da vitória. E realmente acredito nisso, pois um amigo disse que conhecidos no Wisconsin votaram no tal candidato porque ele é contra o aborto. Mas, oras, votar em um presidente porque ele promete adotar ou conservar a moral religiosa nas leis é, de certa forma, seguir a linha de raciocínio de governos teocráticos que os próprios norte-americanos tanto combatem. Claro que a liberdade dos estadunidenses é muito maior que a de alguém da Arábia Saudita ou do Afeganistão na época do Talebã. Mas os casos do Oriente Médio seriam apenas uma radicalização do que os norte-americanos moralistas fizeram. O princípio de achar que as leis devam tomar um viés religioso para controlar a vida das pessoas é o mesmo. Mesmo com uma democracia muito menos consolidada, o eleitor brasileiro já mostrou evolução em relação a isso. Tanto que muita gente que considera que um presidente deva ter nível universitário votou em Lula, apenas porque achou que era necessário dar uma chance ao petista.
Antes que venham com foices para cima de mim, estou deixando claro que me refiro aos norte-americanos que votaram no Bush motivados pelo discurso religioso barato. Até porque qualquer aprofundamento na discussão religiosa vai levar à conclusão que um homem que promove duas guerras covardes e gratuitas não pode ser levado a sério. Há pessoas que votaram no sujeito porque, sei lá, querem imposto baixo. Um motivo que pode até ser egoísta, mas é mais legítimo.
De qualquer forma, muita gente logo generaliza e diz que os norte-americanos são idiotas e não tomam vergonha na cara antes de votar no Bush Fº. Bobagem, porque 55.949.407 eleitores escolheram John Kerry. Não que o democrata seja um santo ou um candidato de esquerda com consciência ultra-social. Mas o ato de votar contra Bush carrega um inegável tom de manifesto contra certas políticas. E isso deve ser respeitado.

Olhando no mapa dos Estados Unidos colorido de acordo com o candidato vencedor (vermelho para republicanos, azul para democratas, levando-se em conta que está desatualizado e o Novo México e o Iowa devem ser vistos em vermelho), vê-se que o tradicionalista Meio-Oeste e o sudeste (sul na época das 13 colônias que deram origem ao país) ficaram com Bush, formando uma enorme mancha vermelha. Enquanto isso, apenas na Costa Leste e o Nordeste (região mais urbanizada dos Estados Unidos) é possível ver Estados em azul.
Logo, conclui-se que em estados mais abertos e “legais”, como Califórnia, Massachusetts e Nova York, o pessoal votou melhor. Certo? Quase. Na verdade, não dá para dizer que esses estados – exceto Massachusetts, inteirinho pró-Kerry – tenham se mostrado democratas. Pelo contrário, foram em boa parte republicanos. Ao analisar o mapa de votos por condado (abaixo), vê-se que quase todo o interior da Califórnia (estado com fama de ultraprogressista) foi pró-Bush. Até em San Diego o candidato do elefante venceu. Kerry só ficou com os delegados desse estado porque a região litorânea, sim, foi democrata. E o peso de Los Angeles, San Francisco e Oakland é forte no total.

Analisando os Estados territorialmente extensos em que os democratas venceram, vê-se que isso se deveu às grandes cidades, porque o interior, mesmo em regiões mais próximas a áreas cosmopolitas, continua a favor do Bush. O tal que diz que é a favor da vida porque é contra o aborto, mas sai matando iraquianos, afegãos, ingleses e norte-americanos por aí. E que, mesmo morando há 4 anos em Washington, conseguiu apenas 9% dos votos no Distrito de Columbia (contra 90% de Kerry).
É mais correto dizer que o país está dividido, o que é bem diferente de chamar mais de 250 milhões de pessoas de ignorantes sem parar para pensar. As regiões metropolitanas mostram um ar progressista maior, enquanto que o imenso e importantíssimo interior busca um caminho ainda mais conservador.
Espero que, dessa vez, Bush perceba que é fundamental que os Estados Unidos reduzam esse racha interno e tome medidas mais conciliatórias. Meu medo é que, com a legitimidade de uma reeleição sem as falcatruas da eleição, não tenha inteligência ou interesse em fazê-lo. E, pior, tenha mais tempo ainda para enraizar sua trupe no sistema político governamental norte-americano. Algo que votar contra o candidato que Bush Jr. apoiar em 2008 pode não ser suficiente para mudar.
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O processo eleitoral dos norte-americanos é bizarro. Algumas coisas (como o Colégio Eleitoral formado por delegados de cada estado) têm origem histórica. Mas o fato de ter uma cédula diferente por estado, algumas com métodos arcaicos, não dá para engolir. Acho que o Brasil, por ter um passado recente de ditaduras e conceitos democráticos ainda em consolidação, criou um processo eleitoral muito sólido e seguro. Afinal, o país não pode se dar ao luxo de ter um pleito com dúvidas a respeito da legitimidade do processo. Sorte nossa.
Nos Estados Unidos, é senso comum que, independentemente do que ocorrer, a continuidade da democracia nunca estará em jogo. Com um sistema de apenas dois partidos a prática, empates são raros (ou supostamente são). E eles não devem ter se preocupado em controlar a segurança do processo, o que resultou nesse sistema esquizofrênico. E que se mostrou manipulável em 2000.
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Para quem acha que a imprensa norte-americana é toda alienada e que tudo se resume à versões da rede de TV da Fox (porta-voz extra-oficial dos republicanos), veja The New York Times e The Onion. Dois jornais que mostram que, apesar de tudo, ainda há muito mais independência na imprensa norte-americana que na brasileira.
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Seria melhor se os norte-americanos tivessem votado nesse candidato.