Quem usa um trocadilho bobo e diz que é inevitável está mentindo. Os trocadilhos são evitáveis e, se alguém os emprega, é porque tem a intenção ou não resiste à tentação de fazer isso. Nesse caso, com mistura de intenção com tentação, dá para dizer que o filme “Tróia” é um presente de grego (nada contra os gregos, apenas a expressão ligada ao Cavalo de Tróia).
A produção se perdeu no enredo. A Ilíada conta a história do combate entre gregos e troianos de forma tão mitológica que, por muito tempo, pensou-se que a guerra que fosse apenas uma lenda. E é justamente esse o grande valor da obra, pois expõe sentimentos humanos e sua relação com o sagrado, a moral e o destino. O que menos importa é o cavalo ou quem matou quem, mas que lições se podia tirar de tudo isso.
Não foi essa a linha escolhida pelo diretor Wolfgang Petersen. “Tróia” (o filme) busca falar da guerra do ponto de vista histórico. Porém, as pesquisas arqueológicas ainda não permitiram a consolidação de uma versão factual da guerra e, tirando os deuses, sobraram apenas as batalhas. O conteúdo foi para o espaço, e o sentido de diversas passagens também. Afinal, sem a mitologia da história, por que o calcanhar de Aquiles seria vulnerável (fato não explicado na produção)?
E essa opção “factual” se torna ainda mais condenável após a alteração de vários momentos da história. Para encaixar em duas horas e meia de filme, o roteiro dá a entender que a guerra de 10 anos durou cerca de três semanas. Inclusive, a complexa sucessão de fatos que levou gregos a troianos ao campo de batalha é resumida a cerca de 15 minutos, simplificando tudo e explicando muito pouco.
Para concluir a discussão a respeito do roteiro do filme, não seria má idéia, no final, explicar (podia ser algo simples, com legendas) o que ocorreu após o combate. O quanto foi importante para a manutenção da cultura grega e as eventuais conseqüências para a história da humanidade. Sem isso, pareceu uma guerra que girou em torno de si própria.

Quanto à parte técnica da produção, o ponto mais crítico foi o desempenho de alguns atores, que eliminaram a complexidade das personagens. O forte era forte, o fraco era fraco. Como se fosse simples assim. O caso mais claro foi de Orlando Bloom, muito pouco carismático e convincente como Páris. Brad Pitt até tem seus momentos, mas sua atuação é inconstante.
O que se salva no filme é o visual. Não parece dos mais brilhantes (se vivi durante aquela época, foi em outra encarnação e não lembro nada, hehe), mas é aceitável dentro do que se espera de um filme como esse. As cenas de guerra (ponto em que a produção tenta se segurar) também são aceitáveis, apesar de serem muito longas e se assemelhar com as de outros filmes épicos feitos nos últimos anos.
A trilha sonora é burocrática e pouco imaginativa, mas dá para levar. Tirando um solo de vocal feminino que se assemelha a um grito longo e desesperado, muito parecido com o que se ouviu em “Paixão de Cristo”. Pela falta de originalidade e pela introdução dessa música em um momento esquisito, ponto negativo.
O engraçado é que, apesar de condenar vários aspectos de “Tróia”, como um todo, não acho que o diretor tenha jogado fora a oportunidade de fazer um filme razoável com a história. Poderia ser melhor e mais bem trabalhado, sem dúvida, mas não saí revoltado do cinema.
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Como estudei um pouco da história grega para um trabalho recente, estou com esse tema fresco na memória. Então, segue uma pequena lista de personagens que Tróia (o filme) deixou de lado, mas não deveria. Tem mais “gente”, como Zeus, Prometeu, Afrodite, Hermes etc., mas deixarei os deuses de lado.
Tétis: ninfa do mar. Aparece um pouquinho no filme, mas não é possível ter noção de sua importância. Casou-se com o mortal Peleu e sabia que seu filho Aquiles estava destinado a morrer em Tróia. Por isso, pegou-o ainda bebê, segurou-o pelo calcanhar e mergulhou-o nas águas do rio Estige. Aquiles ficou invulnerável em todo o corpo, exceto o calcanhar por onde sua mãe o segurara (agora está explicado...).
Pentesiléia: rainha das Amazonas, entrou na guerra para apoiar Tróia. Durante duro combate com Aquiles, recebeu um golpe fatal. Nos últimos instantes de vida, os olhares se cruzaram e ambos se apaixonaram. Era tarde para evitar a morte da guerreira, mas foi o suficiente para acabar com o chororô romântico do filme, que ligava Aquiles à escrava Briseida.
Enéias: no filme, ele é apenas um cidadão comum que levou a espada de Tróia. Mas faltou explicar que ele era filho de Afrodite e, após a fuga da Tróia destruída, teria ido à península itálica e fundado a vila que se tornaria Roma. Pode ser lenda, mas o possível fundador de uma cidade como Roma merece o devido respeito.
Ifigênia: filha de Agamenon, foi sacrificada em honra a Ártemis para que os ventos mudassem de direção e permitissem que os gregos atravessassem o Egeu para a guerra. Clitemnestra, mãe de Ifigênia, ficou contrariada e, com a volta do exército grego, matou seu marido.
Parte 1 – A morte
Por eu ser fanático por Fórmula-1, vez ou outra, amigos que não acompanham tanto o esporte perguntam sobre o que eu acho do Senna, se eu continuei vendo as corridas depois de sua morte, se eu fiquei chateado, essas coisas. Talvez por gostar e assistir muito, nunca mitifiquei demais os pilotos. Senna nunca foi herói (no sentido literal da palavra, ele só era um cara que fazia muito bem seu trabalho) para mim, até porque não se falava de projetos sociais ligados a seu nome.
Em 2 de maio de 1994, é claro que a morte do piloto era o assunto do dia na escola (eu estava no 2º Colegial). E, claro, todo mundo, de todas as classes, teve de escrever uma redação em homenagem ao Senna. Como eu ia relativamente bem nas redações e era um dos alunos que mais acompanhava a Fórmula-1, senti que o pessoal esperava que eu escrevesse um baita de um texto legal sobre ele.
Não sei se todo mundo, mas sei que minha professora de português ficou um pouco decepcionada. Fiz um texto frio, até porque, se fosse meloso, estaria fingindo. Na época, estava mais preocupado em analisar a situação do que falar em heróis nacionais. Dez anos depois, vendo esse monte de especiais do Ayrton Senna, continuo mais ou menos na mesma.
Eu até torcia para ele vencer, mas nunca fui sennista (era piquetista). Eu gosto de corrida de carros porque gosto, acho legal, não tem nada a ver com o Rubinho Barrichello lutar ou não (ênfase no OU NÃO) pelo título. Por isso, tenho a tendência a ver a morte do Senna de forma meio distante. Talvez eu esteja errado, mas sempre vi assim.
Por isso, fiquei proporcionalmente mais chocado com a morte de Roland Ratzenberger no dia anterior. A cena foi mais chocante e foi a primeira morte na Fórmula-1 que assisti ao vivo. Se eu disser (e eu não digo) que minha forma de ver o automobilismo mudou naquele fim-de-semana, foi por causa do acidente que vitimou o austríaco. Até escrevi para o site de uns camaradas um texto sobre os dez anos sem Roland Ratzenberger.
Parte 2 – O velório
Nas minhas lembranças, o momento mais forte da morte de Senna ocorreu alguns dias depois. Se não me engano, o corpo dele foi velado na quarta-feira na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo. O colégio em que estudava fica em Moema (para quem não é de São Paulo, a uns 2 km da Assembléia) e todo mundo resolveu ir “se despedir” de Ayrton (na verdade, a maior parte queria é cabular a aula). Eu fui. Não pela aula, mas, já que gostava tanto de automobilismo, não custava aproveitar.
Chegando lá, vimos que a coisa estava feia. A fila era assustadoramente grande e ninguém se sentiu muito animado para ficar lá esperando. Voltamos e decidimos tentar novamente na manhã seguinte, bem cedinho (o velório seria fechado para o público lá pelas 11h, acho). No dia seguinte, só 4 pessoas estavam lá: eu, um amigo, a professora de química e um cara de outra classe.
Dessa vez foi pior. Além de estar muito cheio, a entrada já estava fechada no momento que chegamos. Só VIPs podiam ver o caixão. Só não voltamos porque meu amigo estava com dois “passes” (até hoje não sei o que era aquele papel que ele mostrava) da Assembléia, já que o irmão dele trabalhava lá. A gente tentou entrar, meio de gaiato.
É ridículo como, no Brasil, as coisas são avacalhadas quando envolvem pseudo-autoridades. Éramos dois adolescentes bobos querendo entrar em um local fechado com um papel qualquer e os seguranças nos deixavam passar.
Nem tínhamos muita idéia de onde estávamos, mas seguimos o movimento. Pelo que deu para perceber, eu estava no acesso da imprensa. Havia fotógrafos de tudo quanto é país com mega-objetivas para todo lado.
Até que chegamos mais ou menos perto do caixão. Não nos aproximamos mais porque ficaria muito na cara que havia penetras naquele momento. Foi quando vi que, alguns metros a minha frente, estava o Alain Prost. Nunca fui um grande fã do cara, mas não nutria o ódio que os sennistas tinham pelo baixinho francês. Ele não era muito chegado a dirigir com chuva, mas, fora isso, era um baita piloto. Bateu recorde de vitórias, melhores voltas e foi o que mais se aproximou dos 5 títulos de Juan Manuel Fangio (até o Schumacher detonar todos esses recordes). Prestei mais atenção nele que no caixão. Até porque nem dava para ver muito, de tanta gente em volta.
Aí eu me toquei. Fiquei morrendo de vergonha de estar ali, naquele momento, se aproveitando de alguma facilidade de “otoridade”. Fui embora o mais rápido possível, antes que alguém se desse conta que eu estava ali.
Como éramos idiotas, tentamos seguir o cortejo a pé. Andei feito o diabo. Fui do Parque do Ibirapuera até a Rebouças e, a caminho da Marginal Pinheiros, desisti de chegar no Morumbi. Peguei a Faria Lima, a Cidade Jardim, a Marginal, a Berrini e cheguei à casa do meu amigo, no Brooklin. Já era umas 4 da tarde, mas, só aí, pudemos almoçar. Depois, peguei um ônibus até Moema.
Parte 3 – Schumacher
Hoje, eu sou um daqueles caras que acham o Schumacher melhor que o Senna. O alemão não erra, mas sabe se arriscar quando precisa. Acusam-no de correr contra ninguém, mas o Senna nunca se dispôs a ficar, como Schumacher, quatro anos sem lutar de verdade pelo título, apenas buscando o desenvolvimento da Ferrari. O brasileiro já correu em desvantagem técnica, mas o fez por falta de opção no momento.
O alemão é meio sacana, isso todo mundo sabe. Mas não tira alguns de seus méritos. O Senna também foi sacana quando tirou o Prost do GP do Japão de 1990. Falar que ele simplesmente recuperou o título do ano anterior é desconhecimento histórico incentivado pela mídia. Em 1989, Senna precisava ganhar as três últimas corridas do ano para levar o título. Foi o primeiro no GP da Espanha. Ganhou e não levou no Japão após a sacanagem do Prost. Mas, no GP da Austrália, Senna bateu e, mesmo que recuperasse os 9 pontos tirados pelos comissários no Japão, não seria campeão. Ah, e ele não correu na Austrália desmotivado, pois a McLaren recorreu ao resultado do GP do Japão e Senna ainda sonhava com o título.
Porém, não vou ficar muito tempo discorrendo sobre o porquê de achar o Schummy melhor que o Ayrton. Quem considera o brasileiro melhor tem todo o direito. Só acho um absurdo a reação de alguns sennistas quando ouvem algo assim. Para esses, as pessoas que acham o alemão melhor querem aparecer e são antipatriotas.
Um foi um grande piloto e outro ainda é. A diferença técnica não é grande. Preferir um ao outro é questão de critério pessoal, não é uma verdade absoluta (como dizer que o Senna foi melhor que o Andrea de Cesaris). É meio indelicado falar nisso na semana de 10º aniversário da morte do brasileiro, mas eu prefiro o Schumacher.
De qualquer forma, não acho babaquice aproveitar a data para relembrar os feitos de Senna. Só que continuo sem ver atos heróicos por trás das vitórias.

É assim que eu gosto de me lembrar do Senna, pilotanto a Lotus preta da John Player Special. Nem andava tanto e o motor Renault era muito beberrão. Mas dificilmente alguém voltará a fazer um carro lindo como esse na Fórmula-1