janeiro 29, 2004

Comédias da classe média-alta carioca

Por que, no cinema nacional, há tanta comédia que retrata as confusões e reflexões amorosas de jovens independentes da classe média-alta carioca representados por atores e atrizes globais? Pensando rápido, me lembrei de “Pequeno Dicionário Amoroso”, “Avassaladoras” e o ainda em cartaz “Sexo, Amor & Traição”. “Os Normais” está mais ou menos dentro desse perfil, mas não completamente. Ainda assim, tenho certeza que teve muita produção que eu esqueci e não estou com paciência de pesquisar agora.

Fica óbvio que são tentativas de repetir a “Comédia da Vida Privada”. Mulheres teorizando sobre homens, homens teorizando sobre mulheres, casais se atrapalhando na hora da conquista e diálogos cheios de jogos de palavras. Porém, as produções cinematográficas são muito mais fracas e repetitivas, além de menos surpreendentes, que a série criada pelo Luís Fernando Veríssimo.

O pior é que, no cinema nacional, esse tipo de comédia se tornou uma referência. Como se o Brasil (e o humor brasileiro) se limitasse ao Rio de Janeiro e a jovens bonitinhos e de vida emocional não tão resolvida tentando encontrar sua cara-metade. Ainda temos outros modelos, como o “Auto da Compadecida” e “Lisbela e o Prisioneiro”, mas as “comédias da classe média-alta carioca” já parecem exercer um certo domínio. Inclusive nas bilheterias (claro, concorrer com galãs e mocinhas globais é covardia).

Que fique claro que o problema não é o Rio de Janeiro em si. É verdade que irrita o domínio cultural dos cariocas sobre o resto do país – como irrita o domínio econômico paulista e o de comediantes cearenses – e um filme como “O Homem que Copiava” (que se passa em Porto Alegre) merece crédito, mesmo mantendo os globais de praxe no elenco.

O que incomoda é a repetição de história. Não agüento mais saber que boa parte das comédias brasileiras tem a cena de duas mulheres fazendo jogging no Leblon, conversando sobre os homens. E um homem dando dicas de conquista para o amigo em algum boteco com mesa de bilhar. Será que é só na vida amorosa que se encontra situações engraçadas? Será que não se tira piada alguma das relações de trabalho, do convívio entre pais e filhos ou de qualquer outra coisa?

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No cinema norte-americano há zilhões de comédias românticas iguaizinhas. Mas a indústria cinematográfica da terra do Dale Hersh é muito mais prolífica que a nossa e há zilhões de filmes de qualquer gênero por lá. O Brasil, pela pequena quantidade de filmes produzidos, deveria evitar repetições de fórmulas.

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E não venham me falar que o cinema nacional precisa de dinheiro e, por isso, parte para fórmulas mais comerciais. Achar que não se pode inovar e atrair público é se render à própria falta de criatividade.

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Na última semana morreu a holandesa Fanny Blankers-Koen. Ninguém aqui no Brasil falou muito sobre isso, mas qualquer mulher que pratica atletismo de forma profissional deve muito a ela. Aliás, se as pessoas tivessem uma mente menos fechada, ela seria um ícone do movimento feminista em todo o mundo (acho que é em alguns lugares, a bem da verdade). Ela não rasgou sutiã, tampouco falou de sexo abertamente. Ela simplesmente mostrou que as mulheres eram tão capazes quanto os homens.

blankers koen.jpg

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janeiro 18, 2004

Cultura de massa, Força e Alexander Beyer

Não vou ficar aqui discorrendo muito sobre a validade ou não da cultura de massa. Acabaria me lembrando de alguns dos momentos mais monótonos de meu curso na faculdade e não estou a fim de fazer isso agora. De qualquer forma, a massificação de algumas coisas acaba poluindo a mente de todos. Abaixo seguem 3 exemplos pessoais rápidos.

1) “Faz parte”
Eu nunca usei esse termo de forma patológica, mas soltava um “faz parte” vez ou outra como forma de me conformar com algo chato. Mas, depois do “genial” Kleber Bam-Bam, não posso mais falar “faz parte”. Se faço isso, pensarão que estou citando o primeiro vencedor do Big Brother Brasil e isso é inadmissível para qualquer cidadão que se leva a sério.

2) “Tô nem aí”
É o mesmo caso anterior. Não se pode mais dizer “to nem aí” como forma de desdém que já vem aquela música horrível e grudenta na cabeça. Argh!!!

3) “Arranjo em Cinza e Preto nº 1”
Quem lê esse blog já sabe que eu fui para Paris em novembro. Bem, eu estava no Museu de Orsay e vi o quadro “Arranjo em Cinza e Preto nº1”, do norte-americano James Whistler. Se você não visualizou a cena, talvez seja pelo fato de a obra ser conhecida pela maioria como “A Mãe de Whistler” ou “A Mãe do Artista”. E onde está a cultura de massa aí? Simples, eu observava o quadro com atenção para captar o que tivesse de ser captado, mas só me lembrava do filme do Mr. Bean, quando o personagem do Rowan Atkinson destruía essa obra.

whistler.jpg


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A Força Sindical montou um time de futebol há 2 anos, o Força. Esse time participou da Copa São Paulo de Juniores e fez uma boa campanha, chegando às quartas de final. Nesse meio tempo, o presidente da entidade, o Paulinho (possível candidato à prefeitura de São Paulo) ficou fazendo barulho, pagando bicho para os jogadores e provocando, dizendo que o Corinthians não tinha dinheiro para isso, mas ele tinha. O alvinegro enfiou 4x0 e tirou o clube sindical do torneio.

De qualquer forma, uma coisa não sai da minha cabeça: com que dinheiro a Força Sindical ou seu presidente mantém esse time? Não digo que o dinheiro é ilegal, até porque eu teria de provar. Mas acho que a Força Sindical, no mínimo, deveria usar seus recursos em favor dos trabalhadores que dela fazem parte, não montando time de futebol e pagando bicho para equipe sub-21. Se o dinheiro é do Paulinho, o salário dele deve ser muuuuito bom para pagar bonificações de um time de futebol inteiro.

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Esse fim de semana eu vi o “Adeus, Lenin”. Ótimo filme, mas falo dele outro dia. Só queria mostrar a semelhança entre Alexander Beyer, ator que interpretou Rainer, cunhado do personagem principal, com Perry Farrell, vocalista do Jane’s Addiction. Não achei fotos de ambos em ângulos semelhantes para permitir a comparação. Abaixo vai o melhor que consegui.

alexander beyer.jpg perry farrell.jpg

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janeiro 12, 2004

Promessas para o ano

Ninguém deveria fazer promessa de Ano Novo. Pelo menos não do jeito que se costuma fazer. Afinal, as pessoas, quase sempre, usam o reveillon como incentivo para atitudes que elas deveriam ter sempre, como comer algo mais saudável, parar de fumar, manter mais contato com os amigos, fazer dieta, se dedicar mais aos estudos, fazer mais exercício, não se deixar dominar pelo trabalho, não assistir à televisão aberta de domingo, essas coisas.

Vejamos, se a pessoa precisa do uma mudança de calendário para decidir fazer isso é porque, no fundo, ou não precisa tanto, ou não quer. E, por isso mesmo, quase nenhuma promessa de Ano Novo dura até dezembro. Fazer mais exercício (o que, para mim, significa caminhar e jogar mais futebol), comer coisas mais saudáveis e trabalhar menos já estão subentendidos sempre e, se a pessoa não faz (como no meu caso), é porque não tem vergonha na cara ou força de vontade suficiente, nada a ver com Ano Novo ou não.

Por isso, acho que as promessas deveriam ser diferentes. Coisas que mostrem uma mudança conceitual. Nada de melhorar minha vida. Mas pequenas coisas que não fazem diferença, mas mostram uma mudança de atitude (mesmo que algumas sejam para pior). Por exemplo:

1) Fazer a barba com mais freqüência
Não vai fazer a mínima diferença, mas não custa nada.

2) Não mandar tantos e-mails para todo seu catálogo de endereços
Pô, tem um monte de gente que recebe esses e-mails (em geral, piadas ou correntes) e não têm nada a ver com o assunto.

3) Mudar o papel de parede do Windows
No meu caso, uso uma foto de satélite do pôr do sol na Europa. Linda, linda. Mas quero colocar uma dos Simpsons de novo. Só que sempre me esqueço. Agora, em 2004, não escapa.

4) Não chegar com sono nas reuniões
Na verdade, o sono das reuniões não tem a ver com você, mas com as reuniões. Mas é importante fazer a sua parte.

5) Parar de insistir com a rádio que só toca porcaria e ouvir mais CD
Rádios rock-pop (principalmente a 89 e a Mix) só tocam porcarias. A Kiss ainda é exceção, mas caiu bastante nos últimos tempos. Por que dar audiência para elas na esperança ingênua de pegar uma música boa? O melhor é pegar um CD e ouvir de novo. Mesmo que você já tenha enjoado (eu já enjoei das músicas da rádio também), até porque faz valer mais os R$ 30 gastos no disco.

6) Evitar contar as mesmas histórias várias vezes para as mesmas pessoas
Nem sempre dá para evitar, mas dá para tentar, né mesmo?

7) Ter consciência que seu time é uma droga e não esquentar a cabeça com futebol (essa é para palmeirenses, corintianos e todos os cariocas)
O Palmeiras continua com aquele time que só foi bem porque era na Série B. O Corinthians acha que Régis Pitbull e Marcelo Ramos vão resolver. O Flu quer reeditar a dupla Romário-Edmundo, agora na categoria masters. O Fla quer inovar trazendo africanos. E o Vasco manteve o Eurico. Ainda bem que é ano olímpico.

8) Lembrar que o celular não é um tamagoshi, você não precisa verificar a cada 15 minutos se ele está bem (não vale, óbvio, para quem usa o aparelho no trabalho)
Deixem o celular quietinho! Se acontecer alguma coisa, ele se manifesta. Para que testar as musiquinhas, olhar a cada 5 minutos se alguém deixou um recado, tratá-lo com mais carinho que um bicho de estimação?

9) Não ver o Big Brother
E não discutir, não levar a sério, não votar no site da Globo.com, não fazer nada ligado ao programa. Quem sabe se, com baixa audiência, nós não temos um 2005 mais feliz.

10) Ignorar o Galvão Bueno nas Olimpíadas
Jogo da seleção tem monopólio da Globo e fica mais difícil evitar, a não ser que liguemos o rádio. Mas, nas Olimpíadas, um monte de canal promete transmitir. Então, não custa prestigiar um pouco o pessoal da ESPN Brasil ou da Sportv (nesse último caso, quando o Galvão não aparece, claro).

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No final de 2003, a Kiss FM (rádio de rock dos anos 60, 70 e 80) organizou mais uma versão do top 500 de “classic rock”. Os ouvintes votavam pelo site. Cheirou a picaretagem. Ou alguém votaria em “Miles Away” do Winger (uma das tantas da propaganda do cigarro Hollywood), entre as melhores de todos os tempos? Por isso, uma 11ª promessa: não levar mais a sério eleições e rankings.

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janeiro 07, 2004

Eu odeio o Bom Retiro

Seguindo a saga do Bom Retiro, vamos às 10 coisas que eu odeio nesse bairro. Muitas delas são contraditórias em relação à lista de 10 coisas adoráveis dessa vizinhança. Mas é porque às vezes uma coisa legal enche o saco ou uma coisa chata começa a ser divertida. Sem contar que o Bom Retiro por si só já é completamente nonsense.

1) Calor
O Bom Retiro é o bairro mais quente de São Paulo. Uma teoria diz que o aquecimento global começa em algum ponto entre a rua Três Rios e a Anhaia, o que faz sentido. Aqui não tem prédio alto, não tem árvore, não tem nada que faça um mínimo de sombra. Para piorar, bate muito pouco vento. É o microclima do inferno. No verão, a sensação é de que o sol está agredindo fisicamente as pessoas. Depois, chove (como em toda São Paulo) até a última molécula de água suspensa no ar. E a rua Três Rios faz jus ao nome.

2) Bolivianos maltratados
Todas aquelas roupinhas fashion que a mulherada adora comprar na rua José Paulino foram feitas com muito sangue boliviano. Nossos hermanos trabalham em regime de semi-escravidão nas confecções. É só ver a quantidade de gente que sai de dentro de casinhas no fim do expediente. Imigrantes ilegais, esses bolivianos não podem fazer nada sob o risco de voltar para sua pátria, o que nos faz lembrar que tem lugar muito mais pobre que o Brasil. Muitos já se apressam em arranjar um filho nascido aqui para legalizarem suas condições. Mas eles sofrem o diabo. Tanto que estão sempre fechados e calados. Na noite em que a Bolívia ganhou do Brasil nas Eliminatórias da última Copa, um boliviano saiu vibrando pela rua. Foi assassinado. E ninguém está se importando com eles.

3) Trânsito
Não tem tanto veículo no Bom Retiro, mas é irritante andar de carro. Sempre há um caminhão manobrando – e interrompendo a rua – para entregar alguma coisa em um estabelecimento comercial. É crônico. Às vezes, eu levo 10 minutos da minha casa até a entrada do bairro, e outros 10 apenas para chegar à editora.

4) Gastronomia
Como já dito no texto anterior, há uma grande quantidade de restaurantes diferentes e curiosos no bairro. Mas, se você quer simplesmente comer um arroz, feijão, fritas e salada, vai sofrer. Os restaurantes por quilo são de doer e os demais são caros e/ou ruins. Quando temos mais tempo para comer, vamos ao Shopping D ou ao “alto Bom Retiro” (no calor, é necessário ir de carro, pois não é tão perto).

5) Gaviões da Fiel
A maior torcida organizada do Brasil (e uma das principais escolas de samba da cidade) tem sede aqui no Bom Retiro. Em geral, isso não incomoda, pois os gaviões andam por aí sem causar problemas. Mas tudo muda quando a escola de samba ganha o desfile do carnaval paulistano. Uma quantidade enorme de corintianos invade as ruas, fazendo arruaça, barulho e, vez ou outra, vandalizando o que encontra pelo caminho. Trabalhar na quarta-feira de cinzas se torna um sacrifício maior do que já é.

6) Ônibus
O bairro é central e passa uma ou outra avenida importante perto, mas ônibus, que é bom, quase nada. Eu nem posso reclamar tanto, já que tenho um direto para minha casa. Porém, se quiser ir para qualquer lugar um pouco diferente, tenho de caminhar até o terminal Princesa Isabel.

7) Serviços
Papelaria, livraria, loja de CD, loja de celular, opção de lazer. Se você estiver no Bom Retiro e vir uma dessas coisas, pode crer que é miragem. No bairro, é só loja de roupa, loja de tecidos, loja de máquinas de costura, loja de peças para máquinas de costura e loja de produtos kosher.

8) Obstáculos da calçada
Ambulantes, sacoleiras guardadores de carro, vendedores de folhas de zona azul... As calçadas do “alto Bom Retiro” são intransitáveis. No “baixo Bom Retiro”, os problemas são os buracos e obras que nos obrigam a andar pela rua algumas vezes.

9) Bagdá
Da mesma forma que já disse que o Bom Retiro tem algumas edificações originalmente bonitinhas, há muita coisa horrível, com paredes sujas, remendos, instalações improvisadas e letreiros escandalosos. Se juntarmos a isso o calor e a aridez do bairro, é um cenário que se assemelha muito à imagem que fazemos de Bagdá. Mas, ao invés de mesquitas, há sinagogas.

10) Escuridão
Andar pelo Bom Retiro à noite é como viver por momentos a sensação de um cego. É tudo muito escuro, a ponto de você não ver quase nada. O medo de assaltos cresce muito, principalmente nos primeiros dias. Depois, você se acostuma e percebe que o maior perigo do bairro é a máfia coreana, mas ela avisa quem está perseguindo, né?

Posted by at 07:21 PM | Comments (8)

janeiro 01, 2004

Eu adoro o Bom Retiro

Já que o espírito de 2004, pelo menos aqui em São Paulo, é homenagear os 450 anos da cidade, farei a minha parte e falar, no primeiro texto desse blog no Ano Novo, sobre um bairro meio exótico com o qual tenho bastante contato nos últimos 5 anos.

Bem, eu trabalho no Bom Retiro. E não é nem na movimentada região da rua José Paulino, cheia de sacoleiros e lojas de roupas mais baratas que em shopping. É nos fundões do bairro, quase na Marginal Tietê, onde alguns já consideram Barra Funda. Aqui ficam as confecções das lojas localizadas morro acima. E só.

No começo, é muito estranho trabalhar nesse bairro, longe do tradicional circuito Paulista-Itaim-Vila Olímpia-Pinheiros-Centro. Depois de um tempo, continua estranho. Mas, pelo menos, é peculiar. Por isso, vou fazer uma pequena série do Bom Retiro. Nesse texto, são 10 motivos para gostar dessa vizinhança criada por italianos, colonizada por judeus e tomada por bolivianos e coreanos. No próximo, vão 10 motivos para odiar o bairro.

1) Não é a Vila Olímpia
Qual a graça de trabalhar na Vila Olímpia? É fora de mão (até eu, um defensor ardoroso da Zona Sul e habitante de Moema, acho lá ruim), tem uns prédios grandes e espremidos em ruas apertadas e um trânsito dos infernos, já que o número de pessoas que passam pelo bairro é muito maior do que a capacidade para a qual aquelas ruas foram projetadas. Dependendo do humor do tráfego, um motorista é capaz de ficar mais de uma hora só para andar meia dúzia de quarteirões. Imagine a cena: você vai conversar com amigos e fala “eu trabalho na Vila Olímpia”. E daí? Você consegue escrever dois textos em um blog para falar o quanto a Vila Olímpia é peculiar? Sobre o Bom Retiro dá para falar.

2) Times bolivianos
É uma coisa meio triste que vai ficar no texto das coisas ruins do bairro. De qualquer forma, há muitos bolivianos no Bom Retiro (o triste é a forma como eles são tratados, não a presença deles). O que nos leva a uma observação legal e bizarra. É o único bairro de São Paulo no qual, sem exagero, eu já vi mais gente na rua com as camisas do Jorge Wilsterman de Cochabamba, do Oriente Petrolero de Santa Cruz de la Sierra ou do San José de Oruro do que do Santos.

3) Clima de interior
O “baixo Bom Retiro” é como uma cidadezinha do interior. Os comerciantes moram no bairro, bem como seus funcionários. Quando o comércio fecha, o cara continua zanzando pelas ruas. Todo mundo conhece todo mundo (ou quase isso). Fica meio que uma comunidade. E, como toda cidade do interior, você está praticamente isolado das mega-redes de qualquer coisa, como Carrefour, McDonald’s, Bob’s e Saraiva. No máximo, existe uma Casa do Pão de Queijo, um Sam’s Club e um Wal Mart, mas esse último já está fora dos limites do bairro. Ou seja, é quase tudo 100% Bom Retiro. E com peculiaridades. Tem um restaurante por quilo chamado “Eu Também”. Ahn? Eu também o quê? Insanidade por insanidade, apelidamos o estabelecimento de “Me Too”.

4) Estrangeirada
O Bom Retiro fica em uma parte degradada e esquecida do Centro de São Paulo e é abrigo de vários estrangeiros (além dos já citados bolivianos, italianos, coreanos e judeus, há búlgaro, grego, árabe e, dizem, indiano). Ou seja, se São Paulo tivesse 3% do charme de Nova York ou Londres, esse seria o bairro boêmio, mais artístico e cool da cidade. Mas como São Paulo é desse jeito...

5) Compras
Nunca comprei um botão sequer nas lojas de roupas do Bom Retiro, mas a mulherada do trabalho adora, vez ou outra, subir para o “alto Bom Retiro” para comprar uma coisa. E depois fica mostrando cada pechincha que encontrou para as colegas. Dizem que, algum tempo depois, aqueles modelitos estarão nos shoppings. Para mim, esse negócio é indiferente, mas tem gente que gosta, né? Eu prefiro ir à loja da fábrica da Catupiry (adivinha onde fica) e comprar uns queijos mais baratos que no supermercado.

6) Corinthians
O Corinthians foi fundado na esquina das ruas Júlio Conceição e dos Italianos. As primeiras partidas do clube foram realizadas em um campo na rua José Paulino (que tinha outro nome no início do século XX). Tudo pertinho do meu trabalho. E é sempre bom passar perto de território sagrado. O Corinthians já saiu daqui há tempos. Agora, quem fincou sua sede no Bom Retiro foi a Gaviões da Fiel, que vai para o próximo texto, se é que vocês entenderam o recado.

7) Estacionamento
Dá para estacionar o carro na rua sem tanto perigo quanto em outros bairros. É óbvio que já houve casos de furtos de rádios, mas, em geral, é seguro. E se você, ainda assim, quiser colocar em um estacionamento, a mensalidade é muito mais barata que na Paulista, por exemplo.

8) É central
Alguns dizem que o Bom Retiro é Centro, outros afirmam que já é Zona Norte. De qualquer forma, há fácil acesso para as avenidas Tiradentes, Amaral Gurgel (aquela que passa embaixo do Minhocão) e Rio Branco, além da Marginal Tietê. Para quem se dispõe a subir uma pequena ladeira e caminhar 25 minutos, há uma estação de metrô à espera.

9) Arquitetura
Pode parecer incrível, mas muita casinha operária (da época em que a estação da Luz era uma das entradas da cidade) continua existindo. É verdade que quase todas já estão degradadas ou encobertas por letreiros mal-feitos. Mas, de novo, se São Paulo tivesse 3% do charme de Nova York e Londres, seria um bairro bastante diferente.

10) Gastronomia
A gastronomia do bairro é fraca, mas guarda particularidades. Há um tiozinho com um carrinho que vende o abacaxi mais gostoso de São Paulo. Existe também uma esfiharia que serve um kibe tão gostoso quanto venenoso, vários restaurantes judaicos, nordestinos, o pão cascudo (quem é daqui sabe do que falo), a matriz da famosa pizzaria Monte Verde, dois restaurantes gregos e muitos outros coreanos. Inclusive, certa vez, a gente foi a um restaurante coreano e todo o cardápio estava em coreano. O dono do estabelecimento, com um sotaque terrivelmente forte, perguntou se havia alguém no grupo que pudesse traduzir o cardápio, já que ele não sabia português. O mais oriental do grupo era eu, para dar uma idéia da coisa. Tivemos de ir para outro lugar, hahaha. Agora, abriu um boteco com especialidades peruanas (a gente chama todo sul-americano daqui de boliviano, mas alguns desses bolivianos nasceram no Peru). Muito fruto do mar e peixe, mas, um dia, vou arriscar.

Bom Retiro.jpg
Essa é uma das ilustrações que representa o Bom Retiro no livro “São Paulo por Paulo Caruso”, de Paulo Caruso (dãã)

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