dezembro 26, 2003

Trilogias

Programão de Natal: ir ao cinema pegar fila, pagar caro, pegar mais fila para ficar sentado em uma cadeira desconfortável atrás de um cabeçudo para ver 3h20 de “O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei”. Depois, ainda ficar indignado porque o Shopping Market Place cobra o estacionamento em feriado como esse fosse um dia normal (ou seja, paguei R$ 12 para ter direito a uma vaga em uma garagem vazia). Ainda assim, valeu a pena.

E a melhor forma que eu achei para dar minha opinião a respeito desse filme é comparando com outra trilogia que encheu os cinemas esse ano. “Matrix” foi uma trilogia meio forçada. Depois de ver a obra dos Wachowsky (é assim?) completa, ficou uma forte sensação de que eles se prepararam para fazer apenas um filme. E como essa produção deu certo, partiram para as duas continuações.

Não há uma integridade da história. O “Matrix” original é bom e convincente na proposta de mundo inserida na história (houve algumas coisas que não engoli, mas considero uma certa chatice minha). Daí, resolveram fazer o segundo (“Matrix Reloaded”). Para potencializar o efeito da filosofia, encheram o filme de explicações metafóricas e complexas. Foi legal, pois surgiram inúmeras interrogações na cabeça dos espectadores e a sensação de que o terceiro seria um baita filme, cheio de revelações e surpresas.

Porém, “Matrix Revolutions” é uma droga. Ficou claro que a complexidade do segundo filme era, na realidade, confusão. Aparentemente, os próprios roteiristas se perderam no meio de tantas frases tergiversadas e evasivas e não souberam como resolver a armadilha que eles armaram para si próprio. Tudo foi resolvido de forma simplista, sem amarração dos argumentos, pelo menos não de forma satisfatória.

No final das contas, “Matrix” (o filme) é bom, mas “Matrix” (a trilogia) não. Quer dizer, ainda é melhor que muitas coisas horríveis que fizeram em forma de três produções cinematográficas, como “Pânico” e “American Pie”. Mas deixou um gosto de decepção na boca.

O “Senhor dos Anéis”, não. É uma trilogia íntegra. É óbvio que isso se deve muito ao fato de ser a adaptação de um mega-livro, mas isso não desmerece o trabalho do neo-zelandês Peter Jackson na direção. Ele poderia, ao fazer mais de 11 horas de filme editado, se perder em algum lugar, resolver tomar algumas “licenças poéticas” (também conhecidas como adaptações de mal gosto) ou desviar sua trajetória na narrativa e assassinar a obra do Tolkien.

Como resultado, temos três produções de qualidade e padrões semelhantes, que vão crescendo de uma para outra (ou contrário de “Matrix”, vítima de uma indisfarçável curva descendente). Assim, até arrisco-me a dizer que “O Retorno do Rei” é o melhor dos três “O Senhor dos Anéis”. Como não digeri totalmente o filme, ainda posso mudar um pouco minha opinião. Mas é por aí.

matrix 2.gif senhor dos aneis.jpg

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Se você quiser mais detalhes de como é a última parte do “Senhor dos Anéis”, clique aqui.

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Fiquei tão de bode no “Matrix Revolutions” que estava claramente torcendo para o Agente Smith. É a melhor personagem do filme, o mais carismático. Talvez o único. Ah, e fiquei de saco cheio do blá-blá-blá do Oráculo.

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Outros exemplos de trilogias com integridade na história é o “Guerra nas Estrelas” e “De Volta para o Futuro”. Que já tinham as continuações planejadas antes da realização da primeira parte.

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Vendo “O Senhor dos Anéis”, me deu uma vontade de ir à Nova Zelândia...

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O site Garotas que Dizem Ni promoveu um concurso entre os leitores. Ganhava quem escrevesse o melhor ranking (com 10 itens) a respeito da infância. Entre os cerca de 50 candidatos, fiquei em segundo. Foi quase!

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O contador de page views desse blog me disse que alguém o acessou ao procurar por “padaria Cardoso de Almeida”. Será que tem mais gente sentindo falta da Perfil?

Posted by at 12:03 PM | Comments (1)

dezembro 22, 2003

Nova embalagem

Como vocês perceberam, essa página está com nova embalagem, rótulo e logotipo. O slogan é o mesmo, já que o departamento de marquetingue da Keep Talking Inc. está contente com ele.

Antes que alguém já pense nas minhas habilidades em html, saiba que eu não fui o responsável por essa mudança. Aliás, até tomei um susto quando vi que estava tudo diferente. Mas valeu, Bruno!

Agora, texto novo que é bom, nada. Mas prometo colocar algo antes do Natal. É claro que não será sobre o Natal, seria muito óbvio. Ou talvez seja. Já não sei mais.

Posted by at 07:25 PM | Comments (0)

dezembro 08, 2003

Frases de efeito

Não gosto muito de frases de efeito. Muitas delas soam legais e geniais em um primeiro momento, mas não passam de jogos de palavras que não querem dizer rigorosamente nada. Além disso, nem sempre são de fontes confiáveis. Afinal é fácil eu escrever qualquer coisa aqui e mandar por e-mail dizendo que é do Luís Fernando Veríssimo ou do Nostradamus. Muita gente pode acreditar e espalhar as asneiras mundo afora.

Bem, mas não vou dizer que sou 100% contra essas frases. Outro dia, um amigo me mandou uma série de frases sobre jornalismo (com o tempo eu vou colocando aqui). Algumas são bestas, outras ininteligíveis. Mas há coisa boa lá. Vou colocar duas das que mais gostei. A primeira porque é a mais pura verdade. A segunda é preconceituosa, mas, ao menos, é engraçada. Ah, não creditei as citações porque não tenho como verificar a fonte e não vou acusar ninguém de falar nada.

1) "Quando um jornalista quer se suicidar, sobe em seu próprio ego e se atira lá de cima."

2) "Um repórter de rock é um jornalista que não sabe escrever entrevistando gente que não sabe falar para pessoas que não sabem ler."

Posted by at 11:20 PM | Comments (5)

dezembro 02, 2003

PUC

Hoje eu peguei meu diploma na faculdade. Assim, tornei-me oficialmente um jornalista (falta o MTb, mas isso é burocracia boba) e acabei com qualquer ligação que ainda tinha com a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Quer dizer, minha carteira é da PUC, presente de uma tia, mas é só isso.

Foi estranha a sensação de ir lá sabendo que seria o fim. É verdade que eu ia à universidade uma vez por semestre (na realidade, tive minha festa de formatura em 99 e terminei meu curso em 2000, só não pegava o diploma por preguiça) e nem mantinha mais tanto contato com a instituição. De qualquer forma, agora acabou de vez. A PUC é passado.

Para piorar minha sensação, já acabaram as aulas. Os corredores e salas estavam praticamente vazios. Não pude evitar: minha mente começou a se lembrar do período que passei por lá, procurando aqueles elementos na PUC de hoje. E como homenagem à instituição, aí vão 3 rankings sobre as principais coisas que me passaram pela cabeça.

Ranking 1 – os causos
5) Pedro de Lara
No 4º ano, meu mega-grupo de telejornalismo resolveu fazer um noticiário de temática brega (nós fomos os precursores do TV Fama, que vergonha). A idéia era zoar com a situação, mas alguns até levaram a coisa a sério. Bem, eu fiquei responsável por convencer o Pedro de Lara a ir aos estúdios da PUC participar do programa. Liguei para a casa dele: “Alô”. “Alô, com quem estou falando?”. Meu interlocutor pensa um pouco e responde, empolgado: “você está falando com ele mesmo!” Já deu para perceber que era o próprio ao telefone. Disse-me que daria a entrevista se alguém no grupo fosse ao programa dele no rádio. Desse mico eu escapei (valeu, Léo), mas ainda tive de ir na casa do cara buscá-lo. No caminho todos olhavam e apontavam, principalmente dentro da PUC. Ele dominou a entrevista, disse o que quis e foi simpático. Foi embora com tanta pressa que acabou esquecendo no chão um CD com músicas gravadas por ele. A pérola está comigo até hoje, mas nunca tive coragem de ouvi-la.

4) Classe neonazista
No 3º ano, tivemos a “brilhante” idéia de fazer um jornal-laboratório só mostrando pessoas radicais e uma das pautas era entrevistar um neonazista. O problema é que ninguém se lembrou de colocar um aviso do tipo “não concordamos com o que esse louco está falando”. Pronto! Um líder dos judeus processou a garota que fez a matéria e publicou um artigo na Folha denunciando a “distribuição de manifestos neonazistas por parte dos alunos do 3º ano de jornalismo da PUC”. Os nordestinos foram atrás e também a processaram. Além disso, fomos xingados por rádio durante uma hora em um sábado à tarde. Tivemos de ir à delegacia em solidariedade à nossa colega e eu até dei uma entrevista à Rádio Bandeirantes AM para falar que tudo era um mal-entendido. No final, fazemos uma edição extra do nosso jornal só para nos defender (e, claro, inocentar a menina). O editorial era assinado por todos, com os alunos judeus da classe encabeçando a lista.

3) Estatal
No primeiro ano, minha turma de amigos era relativamente grande (7 pessoas). O pior é que nos negávamos a nos separar para fazer os trabalhos. Assim, parecia uma empresa estatal, cheia de mão-de-obra subaproveitada na hora de dividir as funções. Tudo isso acabou virando um fanzine que guardo até hoje.

2) “Professor maconheiro”
Não passou de um mal-entendido, mas foi engraçado. O professor de Teologia (todo puquiano tem de fazer aula de Teologia no primeiro ano) perguntou quem na classe havia visitado São Tomé das Letras, cidade mística no Sul de Minas. Só eu levantei a mão (para quê?). Ele perguntou se eu havia sentido alguma energia no ar, alguma coisa diferente. Respondi que a única coisa diferente no ar da cidade era a fumaça de cigarro de maconha. Não foi de maldade, escapou. Mesmo assim, ele resolveu pegar no meu pé até o final do curso. Já cruzei com ele nas últimas bienais do livro e ele até me cumprimentou. Acho que esqueceu.

1) Fita Crepe
Foi o veículo em que mais gostei de “trabalhar”. Até já falei dele aqui, por isso não me estenderei. Era um jornalzinho que só fazia matérias nonsense (aliás, antes que alguém tente ver significado em “Fita Crepe”, escolhemos como nome algo que não significasse rigorosamente nada. As outras opções eram “Fralda” e “Cadeira”). Um dia ainda coloco nesse blog tudo o que fizemos. Isso se eu não ficar rico antes, chamar o pessoal (Juli, Bruno, Vivi, Léo e Mariana) para publicarmos de verdade. (Nota mental: levar isso a sério)

Ranking 2 – isso é a PUC
5) Diretores (ao menos 90% deles)
O diretor da Faculdade de Comunicação e Filosofia da PUC (vulgo Comfil) veio nos apresentar o prédio recém-construído no Corredor da Cardoso. É uma aberração (ver item 3 desse ranking). E ele tentava explicar o motivo de o prédio ter rampas (estreitas para uma cadeira de rodas, que fique claro) ao invés de escadas. “As rampas facilitam a circulação, o esforço de subir e descer é menor. Com isso, as pessoas conseguem conversar com mais facilidade e nada melhor para uma faculdade de comunicação do que pessoas que se comunicam bastante.” Preciso dizer mais?

4) Burocracia
Para pegar um documento ou fazer qualquer outra coisa, ficávamos horas na fila da secretaria da Comfil. Pegávamos o papel e andávamos até o Prédio Novo (dá uma canseira) para apresentar para algum departamento da universidade. Depois, voltávamos à secretaria e esperávamos alguns dias pela resposta. Não lembro bem, mas vivíamos situações como essa todo dia. E isso permanece até hoje.

3) “Prédio Novo” e “Corredor da Cardoso”
Duas aberrações de corar o mais tosco dos arquitetos. Comecemos com as origens. O convento que virou a PUC é bonito, tem um estilo antigo e está relativamente bem cuidado. Virou o “Prédio Velho” depois da construção de um edifício ao lado, com mais salas, o chamado “Prédio Novo”. Esse não faz muito jus ao nome pois já tem uns 30 anos. O problema é que esse Prédio Novo, de longe, tem cara de estacionamento de shopping center, é horroroso, mal acabado e tapa a visão do belo prédio velho. Para piorar, o tal Prédio Novo já foi interditado com problemas estruturais. O “Corredor da Cardoso” era uma passagem que ligava a rua Cardoso de Almeida com o Prédio Velho, na rua Monte Alegre. Era lá que ficavam as salas dos cursos da Comfil. Tudo no corredor da Cardoso era muito tosco, tanto que apelidamos os prédios de “PUC Palace”, uma homenagem ao Palace II do Rio de Janeiro. Convivemos ainda por 2 anos com uma obra nesse local, que já era apertado por si só. Era mais um prédio no meio do corredor, com uma rampa (aquela do item 5) que avançava sobre a telha da casa onde ficava o xerox e o CA. Só vendo para entender.

2) Matérias indefinidas
“Teoria da Comunicação”, “Sistemas de Comunicação no Brasil”, “Gêneros e Estilo no Texto Jornalístico” e “Teoria do Jornalismo” até dá para sacar o que significa. Mas o que dizer de “Teoria Geral dos Sistemas”, “Análise dos Sistemas Áudio-Visuais”, “Estética e Cultura de Massa”, “Comunicação e Expressão Verbal”, “Expressão Oral e Escrita” e o bizarro “Preparação e Revisão de Originais, Provas e Videotextos”? Não era à toa que identificávamos as aulas por siglas (Asav ou Cev) ou pelo professor (se possível, com algum apelido).

1) PUC Viva
Informativo puquiano afixado toda semana nas paredes da instituição. Parece bobagem, mas era uma coisa tão feia que se tornou um símbolo da PUC. O mais engraçado é que desde que entrei lá, em 1996, o negócio tem praticamente a mesma cara. A PUC não é PUC sem um PUC Viva na parede.

Ranking 3 – o que nunca mais verei na PUC
5) Padaria Perfil
Descrevi o Corredor da Cardoso como uma passagem entre a rua Cardoso de Almeida e a Monte Alegre. Pois bem, um dia, decidiram fechar o portão na Cardoso. Nosso acesso à padaria Perfil, logo ao lado, ficou difícil. Foi o início da decadência do local. O mais triste é que era nossa melhor opção para o café da manhã. O lanche era gostoso e dava para conversar com mais tranqüilidade. Ao lado, havia uma banca de jornal cujo dono era a cara do Nostradamus. Batíamos ponto na padoca todo dia, às 9h30. Agora, é um imóvel fechado à espera de alguém que queira abrir um negócio. Ver a Perfil fechada é um dos maiores sinais de que meu tempo de PUC acabou.

4) Estudantes de publicidade
Odiávamos aqueles caras. Não tenho nada contra publicitários, mas a proximidade criou a rivalidade. De um lado, os “jornalistas” largados e metidos. Do outro, os “publicitários” playboys e metidos. Essa rixa chegou a níveis absurdos quando teve eleição para a diretoria da faculdade. Foi uma briga ridícula, com o “candidato da publicidade” contra o “candidato do jornalismo”. O pessoal foi à loucura, teve até debate. Nós vencemos e elegemos o diretor citado no item 5 do ranking 2. É claro que ainda há estudantes de publicidade na PUC. Mas não aqueles que nós azucrinamos (e por quem fomos azucrinados) por 4 anos.

3) Pessoal do CA
Havia uns estudantes que, quando eu entrei na PUC, em 96, eram os veteranos que comandavam o CA. Nós nunca víamos aqueles caras em aula alguma, só faziam discursos nas salas e tentavam organizar eventos como “abraçar a PUC” (pois é, fizemos isso em protesto contra alguma coisa. Mesmo na época eu não sabia o que o ato de “abraçar a PUC” tinha a ver com a história). Aliás, até hoje não sei de que curso eram aquelas pessoas. O pior é que me formei e eles continuavam lá. Imagino que, 7 anos depois de eu entrar, eles já tenham se formado.

2) Bandejão
O bandejão da PUC era incrível de tão tosco. Certa vez, eu e o pessoal fomos almoçar lá. Minha feijoada era involuntariamente esverdeada, o que não me impediu de devorá-la impiedosamente. Um amigo pegou um filé de peixe que, de tão ruim, foi merecedor de um funeral (é verdade, nós cravamos uma cruz nele e tudo). Hoje, o local foi reformado. Tem uma pizza muito boa, salgadinhos com cara de bem-feitos, cartões com código de barras no lugar da comanda e até um cybercafé. Está bem melhor, mas fiquei com uma saudade do antigo bandejão quando passei por lá hoje.

1) Minha amada
Pois é, eu conheci minha esposa na PUC. E ela, como eu, já se formou. Assim, é claro que andar no Corredor da Cardoso, no laboratório de foto ou em qualquer outro lugar entre as ruas Monte Alegre e Cardoso de Almeida (na altura da Bartira e da João Ramalho) perdeu muito de sua graça. E se ela não está lá, talvez eu também não tenha motivo para continuar.

Posted by at 09:35 PM | Comments (14)