setembro 15, 2003

A biodiversidade das ruas

As ruas de São Paulo são habitadas por tantos veículos que acabou tendo uma biodiversidade automobilística. E eu não me refiro às marcas e modelos de carros, mas às espécies animais (no sentido científico e no sacana) que se desenvolveram nas vias da capital paulista. Acho provável que isso exista em outras cidades. Mas, pela quantidade de carros e ruas, São Paulo é meio como a Floresta Amazônica da biodiversidade automobilística.

Nesse texto, vou falar sobre alguns desses seres estranhos com os quais temos de compartilhar pistas, enfrentar cruzamentos e nos comunicar por meio de buzinas.

1) Motoboy
Um clássico. Ele tem um papel importante para o equilíbrio da natureza, pois entrega um monte de coisas no prazo necessário. No entanto, provocam um grande distúrbio no ambiente viário. Andam em grupos, buzinando ininterruptamente e praticamente proibindo que o motorista sequer pense em mudar de faixa (que ousadia!). Afinal, eles não podem, em hipótese alguma, parar para o motorista, já que se consideram as coisas mais importantes do mundo. Mesmo quando já está fora do horário de trabalho.

2) Retrovisor?
Você está andando tranqüilamente na sua faixa, consciente de que está na velocidade certa para a faixa em que trafega. Do nada, aparece um indivíduo (extremamente babaca) dando luz alta e colando na sua traseira. O objetivo desse ser é claro: você tem de sair de seu lugar para deixar ele passar. O que não dá para entender é que a faixa da esquerda está livre e ele poderia simplesmente mudar de faixa e te deixar comendo poeira. Mas o cara prefere ficar na mesma linha e encher o seu saco, só para que você tenha de dar a passagem para ele. Minha teoria é que tais pessoas usam aqueles limitadores de visão dos cavalos. Assim, só olham para a frente e ignoram completamente o que ocorre na lateral. Também fico pensando se tais indivíduos também não usam as focinheiras de cachorro.

3) Meu pé direito
Há um tipo de motorista bem intencionado, cuidadoso e prudente, mas que atrapalha o ciclo natural da vida viária. É o motorista lerdo. Eles são fecham ninguém, não buzinam sem motivo e não atropelam ou aterrorizam pedestres. No entanto, andam tão devagar, mas tão devagar, que atrapalham a fluência dos veículos. Daí, fica uma fila indiana seguindo o indivíduo, como um cortejo. Essa espécie deve ter alguma característica anatômica que impede que o pé direito exerça uma pressão muito grande sobre o pedal do acelerador.

4) “A Serviço Telefônica”
Na verdade, é uma espécie dividida em diversas subespécies. A descrição é simples: são pequenas picapes (em geral, Fiorino) brancas com um adesivo na porta escrito: “Empresa Tal e Tal, a Serviço da Telefônica”. Se o trânsito de São Paulo não fosse a Amazônia, mas o Jurassic Park, diria que eles são os velociraptors: rápidos, pequenos e fatais. Eles não parecem conhecer o princípio da física que diz que “dois corpos não ocupam o mesmo lugar do espaço ao mesmo tempo”. Eles vão se esgueirando como querem, passando por cima dos riscos de colisões que podem provocar.

5) Taxistas
Impossível escapar desse ser. É um tipo de anfíbio. Quando estão sem passageiro, atacam todo mundo, cortam, reclamam, passam por cima e xingam a sua mãe. Têm um sério problema de visão, pois não distinguem cores e sinais. É um problema sério que biólogos já estão pesquisando. Por exemplo, o limite de velocidade e as indicações de contra-mão das placas nunca são vistos. Os taxistas também não conseguem distinguir o vermelho do verde. Isso explica o fato de sempre ignorarem a luz colorada no semáforo. Agora, como bom anfíbio, o comportamento muda quando estão com passageiro. Nesse momento, os taxistas mostram um medo grande da solidão. Por isso, buscam as ruas mais movimentadas para não se sentirem só no trânsito. Quando fecha o semáforo, procuram as faixas com fila mais longa. A vida do taxista muda de ritmo. Aquela ansiedade acaba, tudo fica mais lento. É como se uma agitada borboleta virasse uma preguiçosa lagarta.

6) Playboy Cherokee
Se voltarmos a comparar o trânsito com o Parque dos Dinossauros, veremos o equivalente automobilístico do Tiranossauro Rex. O playboy Cherokee é carnívoro, gosta de perseguir e aterrorizar os pequenos, correr atrás da manada até devorar um. Acho que sente o cheiro de sangue a quilômetros. Por ser grande, não demonstra medo de colisões ou esbarrões. Afinal, o prejuízo do miúdo será maior e, qualquer problema mais sério, o papai resolve.

7) Ônibus de domingo
Motorista de ônibus já é um inferno. Eles se aproveitam do trambolhão que guiam para passar por cima de todo mundo. Mas há coisa pior: o motorista de ônibus de domingo. O cara deve estar fulo porque está trabalhando ao invés de jogar dominó com os amigos (e falo em jogar dominó porque já cansei de ver motoristas de ônibus jogando dominó no terminal antes de partirem). O veículo está vazio e há menos carros na rua, o que permite um aproveitamento maior da potência do motor. Não precisa de mais nada. O cara vai à toda, fazendo aquele barulho desgraçado que só um motor de ônibus com marcha esticada pode nos proporcionar e colando em pequenos veículos 1.0, com pais levando seus pimpolhos para visitar a avó doente.

8) Night Bus
Ônibus de noite. Mas é noite pra valer, a partir das 22h00. As características são iguais às do ônibus de domingo. A diferença é que essa versão parece ter desenvolvido vista noturna, como aqueles soldados norte-americanos que procuram o Saddam Hussein no Iraque. Aviso: se você tiver de pegar um ônibus à noite ou de domingo, só o faça de barriga vazia. A velocidade extrema dentro de um veículo com centro de gravidade alto como um ônibus provoca grandes balanços. É como ser uma pedra de gelo dentro de uma coqueteleira. Imagina se o seu estômago ainda está tendo trabalho com aquela feijoada do quilo...

9) Caçamba de entulho
São seres estáticos e robustos. Ficam imóveis em locais estratégicos, pontos da rua que, se obstruídos, reduzem pela metade a capacidade de fluxo de veículos. Depois de muito analisar essa espécie (que se multiplica assustadoramente na capital), cheguei à conclusão de que adotam um comportamento à la Gandhi. O fato de ficarem em locais em que é claramente proibido estacionar é uma forma de manifestar uma desobediência civil pacífica. O problema é que, ao invés de perturbarem os colonizadores ingleses como fez o indiano, as caçambas estão é atrapalhando inocentes.

10) Lotação
Nada pior para desestabilizar um ambiente viário que uma lotação. Parece que estão lá só para assustar todo mundo com movimentos inesperados e ameaçadores. Guardadas as devidas proporções, é como uma criancinha que vai correndo para cima das pombas em uma praça, assustando as aves. A diferença é que motorista comum não pode voar quando uma lotação insana chega perto demais com movimentos bruscos. As lotações ignoram as limitações que o espaço físico impõe. Assim, enfiam 25 pessoas dentro de um veículo em que só cabem 8. É um fenômeno. Outra característica dessa espécie é o mau gosto musical. Não há lotação que não fique na estação de rádio mais insuportável do dial paulistano. Só para se ter uma idéia, foi dentro de lotações que ouvi versões em português de “Spending My Time”, do Roxette, e “Wild World”, do Mr. Big.

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setembro 07, 2003

Mondo Bizarro (ou The Wacky World of Sports)

Quem já me conhece sabe que, além de futebol e fórmula-1, sou fanático por esportes em geral. Leio cadernos de esportes inteiros, acompanho a evolução e involução de atletas e equipes, gravo os melhores momentos de Olimpíadas etc. Só não curti muito o Pan-Americano porque: 1) o nível técnico não só é baixo, como muitas vezes é enganador; 2) estava viajando na segunda semana de competições e; 3) porque qualquer evento que põe o Alexandre Pires no encerramento merece um certo desprezo.

Bem, nesse texto vou fazer uma lista (sem ordem, não gosto de elaborar rankings) dos esportes bizarros que eu via ou vejo na TV. É verdade, eu encaro qualquer uma dessas coisas na boa:

Pelota basca
Todo sábado, das duas às quatro (ou seja, antes de começar o jogo do Brasileiro ou do Paulista), eu colocava na TVE (Televisión Española) para ver o dia de competições em algum frontón do País Basco. Quem não conhece o esporte, vai achar que é um paredão incrementado. Depois de um tempo, percebe como é legal ver aquilo.

Iatismo
O duro de ver iatismo na TV é que é difícil de visualizar como está a regata, que barco está na frente de qual etc. Mas assistir à America’s Cup (competição mais que centenária do iatismo) é muito legal. A Tv que gera as imagens coloca uma quantidade de informações tão grande que você saca tudo e até começa a entender um pouco a coisa. Pena que é só uma vez ao ano.

Ciclismo
Tem gente que pensa que ciclismo é só pedalar rápido a bicicleta. Engano! Tem estratégia pra caramba no esporte. É só acompanhar as transmissões da Volta da França para ver como um ciclista é protegido pelos companheiros, busca o melhor momento para atacar ou se defender, essas coisas.

Beisebol
Há uns 10 anos, fui para a Venezuela. Antes de dormir, colocava em um canal e ficava assistindo a fase final da Liga Venezuelana de Beisebol. As partidas são longas (até 3 horas) e falta ação, mas é um esporte legalzinho depois que você entende as regras. Claro que não voltei a acompanhar as façanhas das Águilas de Zulia os dos Navegantes del Magallanes. Mas dá para ver as partidas da liga norte-americana. Pena que os jogos são tão tardes no horário brasileiro.

Hóquei sobre patins
Vez ou outra eu pego alguma partida na RTP (TV portuguesa). O mais legal do jogo é que você quase nunca vê a bolinha. Por isso, acompanhar o jogo requer uma certa dose de imaginação.

Hóquei sobre o gelo
Ao contrário da maioria, não gosto de ver as pancadarias. Prefiro as jogadas mirabolantes e grandes defesas.

Handebol
Nesse caso, só vale quando é jogo de seleções fortes, como Suécia, Espanha, França, Alemanha, Rússia e a ex-Iugoslávia. É emocionante.

Rúgbi
Um dia queria praticar esse esporte só para pegar uma bola e sair correndo como louco para o outro lado, sendo perseguido pelo time adversário. Deve ser ótimo para descarregar as energias e a agressividade. O que enche é que ninguém leva o rúgbi à sério no Brasil, o que torna difícil ver alguma partida na TV.

Futebol
Futebol é bizarro? Dependendo do jogo, é. Já vi várias partidas na ART (TV árabe), narradas no idioma de Maomé. Lembro-me bem da final da Copa Rei Fahd, entre o Al Nassr e o Al Ahly e de partidas de países árabes (Marrocos, Egito, Tunísia e Argélia) na Copa da África. O legal é que você tem uma dificuldade enorme em saber até quanto está o jogo (os algarismos do árabe são diferentes dos nossos) e quais times estão jogando. Ver Beira-Mar x Estrela de Amadora no Campeonato Português, jogos da Serie B italiana, das Saéries A-2 e A-3 do Paulistão e Campeonatos Escocês e Mexicano também são testes de fanatismo. Mas, no fundo, quanto mais bizarro melhor. Prefiro ver isso do que, por exemplo, um Flamengo x Bahia.

*

Sobre o que eu não encaro, destaca-se o futebol americano. Até acompanho, sei as regras, quem são os principais jogadores, essas coisas. Mas ver uma partida inteira é dose! Além disso, não tenho paciência para a Nascar, tênis de mesa e, principalmente, esportes radicais em geral. Também não agüento muito os jogos da NBA. São legais, bonitos, os caras são bons. Porém, quando faltam 3 minutos para acabar cada partida, são tantos pedidos de tempo em seqüência que fico com vontade de trocar de canal.

Posted by at 04:25 AM | Comments (1)