
Essa foto apareceu em tudo quanto é site assim que foi confirmada a reeleição de George W. Bush à presidência dos Estados Unidos. É uma foto bem tirada, que passa a vibração dos eleitores republicanos e que, por ser da Associated Press, pôde rodar o mundo livremente. Pois é, essa foto me dá muita raiva. Mais do que qualquer uma que mostre o dito cujo festejando.
Não sei porque, mas fico sempre com a sensação de que essas pessoas estão tirando sarro de mim e de todos que ficaram torcendo, mesmo que sem poder fazer nada, pela vitória de John Kerry. Odiar essa foto virou uma causa pessoal, mesmo tendo consciência que não faz sentido achar que um bando de texanos (antes que digam que estou generalizando e chamando de texano ou caubói todo republicano, a foto foi realmente feita no Texas) está tirando uma da minha cara.
De qualquer forma, fico imaginando o que faz essa gente toda – e não são poucos, foram 59.459.765 norte-americanos – votar no sujeito que parece o Alfred Newman. E ainda vibrar com isso tanto quanto os torcedores do Boston Red Sox, tradicional time de beisebol que saiu de 86 anos de fila há duas semanas.
Quem seguiu a campanha de perto diz que o tom moralista e religioso-cristão da campanha do Bush Jr. foi um dos principais motivos da vitória. E realmente acredito nisso, pois um amigo disse que conhecidos no Wisconsin votaram no tal candidato porque ele é contra o aborto. Mas, oras, votar em um presidente porque ele promete adotar ou conservar a moral religiosa nas leis é, de certa forma, seguir a linha de raciocínio de governos teocráticos que os próprios norte-americanos tanto combatem. Claro que a liberdade dos estadunidenses é muito maior que a de alguém da Arábia Saudita ou do Afeganistão na época do Talebã. Mas os casos do Oriente Médio seriam apenas uma radicalização do que os norte-americanos moralistas fizeram. O princípio de achar que as leis devam tomar um viés religioso para controlar a vida das pessoas é o mesmo. Mesmo com uma democracia muito menos consolidada, o eleitor brasileiro já mostrou evolução em relação a isso. Tanto que muita gente que considera que um presidente deva ter nível universitário votou em Lula, apenas porque achou que era necessário dar uma chance ao petista.
Antes que venham com foices para cima de mim, estou deixando claro que me refiro aos norte-americanos que votaram no Bush motivados pelo discurso religioso barato. Até porque qualquer aprofundamento na discussão religiosa vai levar à conclusão que um homem que promove duas guerras covardes e gratuitas não pode ser levado a sério. Há pessoas que votaram no sujeito porque, sei lá, querem imposto baixo. Um motivo que pode até ser egoísta, mas é mais legítimo.
De qualquer forma, muita gente logo generaliza e diz que os norte-americanos são idiotas e não tomam vergonha na cara antes de votar no Bush Fº. Bobagem, porque 55.949.407 eleitores escolheram John Kerry. Não que o democrata seja um santo ou um candidato de esquerda com consciência ultra-social. Mas o ato de votar contra Bush carrega um inegável tom de manifesto contra certas políticas. E isso deve ser respeitado.

Olhando no mapa dos Estados Unidos colorido de acordo com o candidato vencedor (vermelho para republicanos, azul para democratas, levando-se em conta que está desatualizado e o Novo México e o Iowa devem ser vistos em vermelho), vê-se que o tradicionalista Meio-Oeste e o sudeste (sul na época das 13 colônias que deram origem ao país) ficaram com Bush, formando uma enorme mancha vermelha. Enquanto isso, apenas na Costa Leste e o Nordeste (região mais urbanizada dos Estados Unidos) é possível ver Estados em azul.
Logo, conclui-se que em estados mais abertos e “legais”, como Califórnia, Massachusetts e Nova York, o pessoal votou melhor. Certo? Quase. Na verdade, não dá para dizer que esses estados – exceto Massachusetts, inteirinho pró-Kerry – tenham se mostrado democratas. Pelo contrário, foram em boa parte republicanos. Ao analisar o mapa de votos por condado (abaixo), vê-se que quase todo o interior da Califórnia (estado com fama de ultraprogressista) foi pró-Bush. Até em San Diego o candidato do elefante venceu. Kerry só ficou com os delegados desse estado porque a região litorânea, sim, foi democrata. E o peso de Los Angeles, San Francisco e Oakland é forte no total.

Analisando os Estados territorialmente extensos em que os democratas venceram, vê-se que isso se deveu às grandes cidades, porque o interior, mesmo em regiões mais próximas a áreas cosmopolitas, continua a favor do Bush. O tal que diz que é a favor da vida porque é contra o aborto, mas sai matando iraquianos, afegãos, ingleses e norte-americanos por aí. E que, mesmo morando há 4 anos em Washington, conseguiu apenas 9% dos votos no Distrito de Columbia (contra 90% de Kerry).
É mais correto dizer que o país está dividido, o que é bem diferente de chamar mais de 250 milhões de pessoas de ignorantes sem parar para pensar. As regiões metropolitanas mostram um ar progressista maior, enquanto que o imenso e importantíssimo interior busca um caminho ainda mais conservador.
Espero que, dessa vez, Bush perceba que é fundamental que os Estados Unidos reduzam esse racha interno e tome medidas mais conciliatórias. Meu medo é que, com a legitimidade de uma reeleição sem as falcatruas da eleição, não tenha inteligência ou interesse em fazê-lo. E, pior, tenha mais tempo ainda para enraizar sua trupe no sistema político governamental norte-americano. Algo que votar contra o candidato que Bush Jr. apoiar em 2008 pode não ser suficiente para mudar.
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O processo eleitoral dos norte-americanos é bizarro. Algumas coisas (como o Colégio Eleitoral formado por delegados de cada estado) têm origem histórica. Mas o fato de ter uma cédula diferente por estado, algumas com métodos arcaicos, não dá para engolir. Acho que o Brasil, por ter um passado recente de ditaduras e conceitos democráticos ainda em consolidação, criou um processo eleitoral muito sólido e seguro. Afinal, o país não pode se dar ao luxo de ter um pleito com dúvidas a respeito da legitimidade do processo. Sorte nossa.
Nos Estados Unidos, é senso comum que, independentemente do que ocorrer, a continuidade da democracia nunca estará em jogo. Com um sistema de apenas dois partidos a prática, empates são raros (ou supostamente são). E eles não devem ter se preocupado em controlar a segurança do processo, o que resultou nesse sistema esquizofrênico. E que se mostrou manipulável em 2000.
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Para quem acha que a imprensa norte-americana é toda alienada e que tudo se resume à versões da rede de TV da Fox (porta-voz extra-oficial dos republicanos), veja The New York Times e The Onion. Dois jornais que mostram que, apesar de tudo, ainda há muito mais independência na imprensa norte-americana que na brasileira.
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Seria melhor se os norte-americanos tivessem votado nesse candidato.
Posted by Furnari at novembro 6, 2004 01:46 AMAntes, eu até me simpatizava com os Americanos e com tudo o que eles faziam, mas, não só o Bush e seu povo conseguiram-me fazer pensar o contrário.
Acho que ele foi eleito porque seu cabo eleitoral (Bin Laden) pediu votos pra Kerry no fim da campanha, uma tática para favorecer Bush, de modo que o democrata não tivesse tempo de recuperá-los.
E esse sisteminha eleitoral deles hien, fala sério, o nosso também não é lá aquelas coisas, mas não é cúmulo do ridículo.
Liara: o Bin Laden não pediu voto pra ninguém... aliás, se pediu, foi pro Bush, já que o Bush criou a oportunidade de conseguir mais gente pra Al Qaeda. :-)
Bira:
Bem que eu queria que alguém publicasse um mapa, completo, por "county" (montar a partir dos mapas da CNN seria um saco). É realmente ridículo: fora das grandes cidades, é tudo vermelho. Em estados onde as grandes cidades são grandes (Califórnia, Nova York, Illinois) deu democratas; onde as grandes cidades não são lá tão grandes, o interior ganhou e deu Bush. (Fato interessante: procurar Austin no meio do Texas é a coisa mais fácil que existe. :-) )
Mas tem muito mais coisa interessante nessa história. Os estados escravagistas do sul costumavam sempre votar nos democratas. A "virada" aconteceu, se não me engano, nas décadas de 50/60, provavelmente com o movimento para acabar com a divisão racial nos EUA.
Sobre as urnas, elas não são diferentes por estado, e sim por condado ("county"). Assim, cada condado pode ter sua maneira preferida de votar pra presidente ou seja lá o que for. É uma zona sem limites.
Mas o que pouca gente fala é que não foi uma eleição só pra presidente: várias outras coisas foram votadas. Alguns estados elegeram governadores e senadores. E vários estados colocaram leis locais para votação (em vários lugares aqui, principalmente na Califórnia, os cidadão votam em diversas leis).
Interessante é que vários estados colocaram leis do tipo "tornar ilegal casamento gay" ou "incentivo para pesquisa de células-tronco" na lista, o que certamente incentivou a direita cristão conservadora a ir às urnas mais do que o resto. Deu no que deu.
Acho que a reeleição de Bush é a pior coisa que poderia haver. Os que votaram em Bush partilham do mesmo pensamento conservador e moralista do presidente.
Com Kerry seria diferente? Sinceramente,não sei. Mas penso que seria melhor. O mundo não pode aceitar Bush continue fazendo o que faz. Combater governos ditadoriais, mas se comporta como aqueles que eles derrubaram.
Agora não dá pra chorar. É aguentar o Bushinho mais 4 anos e torcer que ele não destrua o mundo
AHA!! Achei!!!
http://www.usatoday.com/news/politicselections/vote2004/countymap.htm
Prêmio pra quem achar Austin (TX)!!!
Posted by: Vanza at novembro 8, 2004 07:36 PMUbiratan, vc continua tropeçando na hifenização... até comentei isso tempos atrás...
Hífen depois de 'ultra' somente antes de vogal, h, r e s. Você acertou e errou no seu texto. Pay more attention!
Klótzs.
Posted by: Olavo J. Klótzs at novembro 9, 2004 10:29 AMValeu Vanza! Até acrescentei o mapa que você indicou!
Posted by: Ubiratan at novembro 9, 2004 08:57 PMA eleição americana é muito justa, pois não eh como a daqui onde uma pessoa que não entende
nada sobre política manda seu voto direto ao presidente, lá eles sabem o valor de seu voto, por isso ele vai para um delegado, que o mandará para quem o seu precioso voto merece.
ahhhhhhhhhhhhhh a bush é uma merda, os Estados Unidos é o coco do cavalo do bandido, e os americanos são as pessoas mais chatas, mais mitidas e mais enjoadas que eu conheci...
Eu quero que todos os americanos se fodam e meu peito cresça!!!! hauhauhauahuahuaha