Há exatos dois anos, eu fui a Portugal de lua-de-mel. Em uma das noites que passamos em Lisboa, eu e a Juliana saímos com uma amiga minha lá da terrinha, o irmão dela e a namorada do irmão. A conversa tinha como assunto a nada original comparação de expressões lingüísticas encontradas nos dois países.
Até que a namorada do irmão (para constar, se chama Sara) se empolga e pergunta, como quem precisa acabar com uma dúvida que a consumia há tempos: “há uma expressão brasileira que tenho certeza que ouvi na novela e ninguém acredita. Como era? Ah, sim. ‘Putz grila’. Existe isso no Brasil?”
Minha amiga (de nome Teresa) e o irmão (Luís) ridicularizaram a rapariga. Afinal, nem no Brasil um termo bizarro como “putz grila” poderia fazer sentido. A representação brasileira dentro do veículo – estávamos a caminho do Parque das Nações – riu. Confirmamos que “putz grila” existia, mas era uma interjeição esquecida e em desuso, típica de nossa infância. Calculo que seja dos anos 80, mas, como não deixei nenhum “putz grila” com data para posterior levantamento histórico, não teria como saber.
De uns tempos para cá, a minha mulher observou que eu voltei a falar uns “putz” vez ou outra. Depois desse alerta, comecei a observar melhor e percebi um fenômeno: o “putz” voltou! Muitas pessoas da minha geração (lá pelos vinte e alguma coisa) revisitaram o “putz”. Outro dia, no ICQ, um amigo (já que estou dando o nome de todo mundo hoje, foi o Giuliano) até usou o termo com nome e sobrenome: o já citado “putz grila”.
Poderia até tentar criar umas teorias idiotas, como afirmar que a releitura do “putz” faz parte do processo de recuperação de elementos dos anos 80 pelo qual a Geração-X brasileira tem passado. Se eu fosse convincente na teoria, até vendia o texto para a Revista da Folha, ganhava uns trocados e ajudava a disseminar ainda mais as pautas comportamentais babacas.
Mas não o farei. Não sei porque o “putz” voltou e não tentarei descobrir. Só acho isso tudo muito engraçado.
*
Só um esclarecimento. Não gosto nada das palavras “revisitar” e “releitura”, usei-as justamente para ironizar. Sei lá, cada jornalista tem uma lista de expressões com as quais não vai com a cara. Também odeio “otimizar”, “potencializar”, “diferencial” e “agregar valor”, por exemplo. Não sou absolutamente contra o uso delas, mas sempre buscarei uma alternativa antes de usá-las.
Posted by Furnari at março 18, 2004 12:42 AMPutzgrila! Macacos me mordam, daqui a pouco eu vou usar até "é uma brasa"!
Posted by: Giuliano at março 18, 2004 01:19 AMOs anos 80 tão bombando novamente, Bira! Acho que vou deixar meu cabelo a la glam rock, só pra entrar melhor no clima.
Posted by: Bruno at março 18, 2004 11:09 AMOlá Bira!
Fiquei surpreendida ao ver o meu nome imortalizada nesta página!!! Agora milhões de Brasileiros podem gozar com a minha ignorância acerca de expressões brasileiras (mas também Putz grila?! tenham dó!!!)
É verdade Bira, não sei se já comentei mas o Luís e a Sara vão casar em Julho e adivinha quem vai ser madrinha...
Teresa
Posted by: Teresa at março 18, 2004 12:34 PMPois é, nuca tinha sido citado por nenhum jornalista.
Agora já sou famoso, é "Bueda Fixe" (à Portuguesa).
Um abraço
Eu sou a Sara, a original! Aquela que nunca duvidou da existência do "Putz grila". Concordo que expressões da nossa infância venham, de novo, à tona. Aina hoje estava a comentar, com os meus alunos, que era "fixe" haver um campeonato de "binas" (bicicletas)...
Felicidades
o putz grila é um fenômeno que só acontece em lua nova, com trânsito por saturno e estada em Plutão, isso uma vez a cada dez anos. Há registro de putz grila nos sermões do padre Antônio Viera, isso lá em guaraná com rolha. E parece que a expressão não é puramente brasileira, já que foi trazida para o Brasil por um duque da Normandia, que foi comido por índios Xavantes, que passaram a disseminar a palavra, que caiu em uso popular - mas, como eu já disse, só de 10 em 10 anos...
Posted by: artur at março 30, 2004 11:41 AMUbiratan
Gosto da dua forma diversificada de escrever. O ódio ao carnaval e o "putz grila" transportou-me a um passado remoto, da calça brim-coringa, da gola olímpica e do slack.
Gracie, prego!!
Márcia
"Putz Grila" era dito pelo pessoal anos 1980 na época em que eram crianças e não poderiam encher a boca com um bom "Puta Merda"! Lembro bem disso e de como, no princípio, o termo deixou meus pais de cabelo em pé... Essa "novidade" vinha junto do "P. da Vida", "Nem a Pau", "Carácoles" e "Filho da Polícia". Essas expressões caem meio no desuso porque quem as usava originalmente cresce e passa a usar seus respectivos outrora proibidos, ou seja, "Puto da Vida", "Nem Fudendo", "Caralho" e "Filho da Puta". Lembro ainda do inofensivo "Pior Que É", que não tinha palavrão equivalente, mas deixava os pais "P. da Vida" ao demonstrar suas fraquezas e ignorâncias a crianças antenadas...
Deixando os termos camuflados de lado, como jornalista eu também tenho a minha listinha de expressões ridiculamente tomadas do inglês. "Desapontado" (do "Disappointed"), em vez de "Decepcionado", é a minha preferida, quer dizer, está em primeiro lugar na lista de termos criados sem cabimento. Depois dele vem "Legenda" (do "Legend"), em vez de "Lenda", em expressões como "legenda (sic) do rock" ("rock legend"). Mas quer ver eu ficar "P. da Vida"? É alguém dizer que "vai estar ligando" mais tarde para "estar averiguando" algumas informações...
Posted by: Rafaela Machado at abril 18, 2004 03:47 AMPessoal... por acaso "Putz Grila" não foi invenção do Henfil em "O Pasquim" durante a repressão???
Posted by: Timoneiro at outubro 25, 2004 12:33 PMMacacos me mordam mano braulio! Quase me esqueci do Putz Grila. Bons tempos eram esses. Quando voce era jovem e seu coraçao era um livro aberto...voce dizia viva e deixe viver....
http://homepage.mac.com/arcenis/blog/slackerunited.html
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