Já que o espírito de 2004, pelo menos aqui em São Paulo, é homenagear os 450 anos da cidade, farei a minha parte e falar, no primeiro texto desse blog no Ano Novo, sobre um bairro meio exótico com o qual tenho bastante contato nos últimos 5 anos.
Bem, eu trabalho no Bom Retiro. E não é nem na movimentada região da rua José Paulino, cheia de sacoleiros e lojas de roupas mais baratas que em shopping. É nos fundões do bairro, quase na Marginal Tietê, onde alguns já consideram Barra Funda. Aqui ficam as confecções das lojas localizadas morro acima. E só.
No começo, é muito estranho trabalhar nesse bairro, longe do tradicional circuito Paulista-Itaim-Vila Olímpia-Pinheiros-Centro. Depois de um tempo, continua estranho. Mas, pelo menos, é peculiar. Por isso, vou fazer uma pequena série do Bom Retiro. Nesse texto, são 10 motivos para gostar dessa vizinhança criada por italianos, colonizada por judeus e tomada por bolivianos e coreanos. No próximo, vão 10 motivos para odiar o bairro.
1) Não é a Vila Olímpia
Qual a graça de trabalhar na Vila Olímpia? É fora de mão (até eu, um defensor ardoroso da Zona Sul e habitante de Moema, acho lá ruim), tem uns prédios grandes e espremidos em ruas apertadas e um trânsito dos infernos, já que o número de pessoas que passam pelo bairro é muito maior do que a capacidade para a qual aquelas ruas foram projetadas. Dependendo do humor do tráfego, um motorista é capaz de ficar mais de uma hora só para andar meia dúzia de quarteirões. Imagine a cena: você vai conversar com amigos e fala “eu trabalho na Vila Olímpia”. E daí? Você consegue escrever dois textos em um blog para falar o quanto a Vila Olímpia é peculiar? Sobre o Bom Retiro dá para falar.
2) Times bolivianos
É uma coisa meio triste que vai ficar no texto das coisas ruins do bairro. De qualquer forma, há muitos bolivianos no Bom Retiro (o triste é a forma como eles são tratados, não a presença deles). O que nos leva a uma observação legal e bizarra. É o único bairro de São Paulo no qual, sem exagero, eu já vi mais gente na rua com as camisas do Jorge Wilsterman de Cochabamba, do Oriente Petrolero de Santa Cruz de la Sierra ou do San José de Oruro do que do Santos.
3) Clima de interior
O “baixo Bom Retiro” é como uma cidadezinha do interior. Os comerciantes moram no bairro, bem como seus funcionários. Quando o comércio fecha, o cara continua zanzando pelas ruas. Todo mundo conhece todo mundo (ou quase isso). Fica meio que uma comunidade. E, como toda cidade do interior, você está praticamente isolado das mega-redes de qualquer coisa, como Carrefour, McDonald’s, Bob’s e Saraiva. No máximo, existe uma Casa do Pão de Queijo, um Sam’s Club e um Wal Mart, mas esse último já está fora dos limites do bairro. Ou seja, é quase tudo 100% Bom Retiro. E com peculiaridades. Tem um restaurante por quilo chamado “Eu Também”. Ahn? Eu também o quê? Insanidade por insanidade, apelidamos o estabelecimento de “Me Too”.
4) Estrangeirada
O Bom Retiro fica em uma parte degradada e esquecida do Centro de São Paulo e é abrigo de vários estrangeiros (além dos já citados bolivianos, italianos, coreanos e judeus, há búlgaro, grego, árabe e, dizem, indiano). Ou seja, se São Paulo tivesse 3% do charme de Nova York ou Londres, esse seria o bairro boêmio, mais artístico e cool da cidade. Mas como São Paulo é desse jeito...
5) Compras
Nunca comprei um botão sequer nas lojas de roupas do Bom Retiro, mas a mulherada do trabalho adora, vez ou outra, subir para o “alto Bom Retiro” para comprar uma coisa. E depois fica mostrando cada pechincha que encontrou para as colegas. Dizem que, algum tempo depois, aqueles modelitos estarão nos shoppings. Para mim, esse negócio é indiferente, mas tem gente que gosta, né? Eu prefiro ir à loja da fábrica da Catupiry (adivinha onde fica) e comprar uns queijos mais baratos que no supermercado.
6) Corinthians
O Corinthians foi fundado na esquina das ruas Júlio Conceição e dos Italianos. As primeiras partidas do clube foram realizadas em um campo na rua José Paulino (que tinha outro nome no início do século XX). Tudo pertinho do meu trabalho. E é sempre bom passar perto de território sagrado. O Corinthians já saiu daqui há tempos. Agora, quem fincou sua sede no Bom Retiro foi a Gaviões da Fiel, que vai para o próximo texto, se é que vocês entenderam o recado.
7) Estacionamento
Dá para estacionar o carro na rua sem tanto perigo quanto em outros bairros. É óbvio que já houve casos de furtos de rádios, mas, em geral, é seguro. E se você, ainda assim, quiser colocar em um estacionamento, a mensalidade é muito mais barata que na Paulista, por exemplo.
8) É central
Alguns dizem que o Bom Retiro é Centro, outros afirmam que já é Zona Norte. De qualquer forma, há fácil acesso para as avenidas Tiradentes, Amaral Gurgel (aquela que passa embaixo do Minhocão) e Rio Branco, além da Marginal Tietê. Para quem se dispõe a subir uma pequena ladeira e caminhar 25 minutos, há uma estação de metrô à espera.
9) Arquitetura
Pode parecer incrível, mas muita casinha operária (da época em que a estação da Luz era uma das entradas da cidade) continua existindo. É verdade que quase todas já estão degradadas ou encobertas por letreiros mal-feitos. Mas, de novo, se São Paulo tivesse 3% do charme de Nova York e Londres, seria um bairro bastante diferente.
10) Gastronomia
A gastronomia do bairro é fraca, mas guarda particularidades. Há um tiozinho com um carrinho que vende o abacaxi mais gostoso de São Paulo. Existe também uma esfiharia que serve um kibe tão gostoso quanto venenoso, vários restaurantes judaicos, nordestinos, o pão cascudo (quem é daqui sabe do que falo), a matriz da famosa pizzaria Monte Verde, dois restaurantes gregos e muitos outros coreanos. Inclusive, certa vez, a gente foi a um restaurante coreano e todo o cardápio estava em coreano. O dono do estabelecimento, com um sotaque terrivelmente forte, perguntou se havia alguém no grupo que pudesse traduzir o cardápio, já que ele não sabia português. O mais oriental do grupo era eu, para dar uma idéia da coisa. Tivemos de ir para outro lugar, hahaha. Agora, abriu um boteco com especialidades peruanas (a gente chama todo sul-americano daqui de boliviano, mas alguns desses bolivianos nasceram no Peru). Muito fruto do mar e peixe, mas, um dia, vou arriscar.

Essa é uma das ilustrações que representa o Bom Retiro no livro “São Paulo por Paulo Caruso”, de Paulo Caruso (dãã)
Bira,
devo agradecer aos meus 11 meses de Bom Retiro diário por entender perfeita e nostalgicamente cada um dos (poucos - sempre há mais para se falar do Bom Retiro) 10 tópicos.
Abraço,
Bruno
Não consigo encontrar poesia numa cidade que maltrata tanto os seus cidadãos... Vocês, jornalistas, conseguem, mas eu não. Já vi e li muito (e agora com o aniversário de SP decerto haverá uma "overdose" disso) sobre isso, mas sempre me pareceu uma cidade estranha, não a São Paulo em que vivo... São Paulo em todo o seu conjunto (bairros) é suja, tosca, vil, insegura, inóspita. Só é agradável na pena dos jornalistas (que vivem em outro mundo) e de quem nunca VIVEU aqui. (ontem fui assaltado).
OJK
Posted by: O. J. Klótzs at janeiro 5, 2004 08:35 AMUma dica: No Bom Retiro está a melhor bureka de São Paulo ,e talvez do Brasil. É na Casa Búlgara, quase esquina da Rua Da Graça ( em frente a um posto de gasolina indo pra Três Rios) Vc não sabe o que é uma bureka? Vá, prove e depois me conte.Ah, o sorvete de lá também é fenomenal.
Posted by: sabrina at abril 3, 2004 04:03 PMOntem (24/04/2004) fui ao Bom Retiro passear e gostei muito. Não fiz compras ( a não ser um bolo numa mercearia de produtos judaicos), mas andei por aquelas ruas cheias de nossa história ,
hoje cheia de coreanos e descendentes (na lanchonete onde tomei um café era, juntamente com os funcionários, a única ocidental), bolivianos e ainda alguns judeus a caminho da sinagoga....
Pretendo voltar assim, para olhar, um bairro tão peculiar, quase um gueto sem precisar ser...
Bira!!!
Puxa sem palavras...rs
Lí primeiro "Eu Odeio o Bom Retiro ...
Beijos mil
Mônica
Posted by: monica at maio 14, 2004 01:49 PMNao conheco o Bom Retiro mais estou pesando em comprar um apt la. Pelo o que eu li, eu ainda estou afim de comprar o apt no Bom Retiro.
Rosi
EUA
Eu amo o Bom Retiro, ele acolheu os meus avós, os meus pais, e depois a minha geração... Os judeus portugueses peseguidos foram acolhidos pelo Bom e ótimo Retiro.
Shalom!
Galera moro em campinas e estou pensando em visitar o Bom Retiro comprar umas roupas bacanas, alguém pode me disser se isso vale a pena realmente.
Posted by: Fernando at setembro 19, 2004 09:06 PM