outubro 01, 2003

A biodiversidade das ruas, parte 2

Aconteceu bastante coisa nos últimos tempos. Fiquei uma semana nas Oropa a trabalho (não foi tão divertido quanto soa. Afinal, city tour de duas horas em Barcelona é sacrilégio). Além disso, o Gardenal (e o Keep Talking como conseqüência) trocaram de servidor e passaram (se ainda não passam) por um período de turbulência. Por tudo isso, essa página ficou abandonada por esses 15 dias. Mas estamos de volta cumprindo com a promessa e continuando com a análise das espécies que coexistem no sistema viário paulistano.

11) Carro-edificação
Há utilitários gigantescos, que bloqueiam mais de uma pista muitas vezes e sempre ocupam duas vagas nos estacionamentos. Para piorar, esse ser viário causa todo esse transtorno espacial para transportar apenas uma pessoa (bastante endinheirada). Se todos esses trambolhos fossem substituídos por Celtas, Corsas, Palios ou Kas, haveria muito mais espaço nas ruas de São Paulo. Por isso, tenho uma proposta: ao invés do IPVA, os proprietários de tais máquinas deveriam pagar IPTU. A partir do momento que esses utilitários se mostram tão espaçosos, deixam de ser uma questão de veículo automotor, mas sim, de taxação territorial urbana. É óbvio! Eles gastam o recurso mais precioso em uma metrópole com cerca de 15 milhões de habitantes: o espaço. Se não pagarem o IPTU, passa a ser espaço improdutivo e, conseqüentemente, vira alvo dos programas de abrigo dos sem-teto.

12) Unicórnios, dragões e gnomos
Vez ou outra cruzamos com espécies fictícias. Eles não existem, nem nunca existiram, mas muita gente acredita que estão por aí. Não é o unicórnio, nem o dragão, muito menos o orc. É o Landau, o Polara e o Alfa Romeo anos 70 (aquele prateado). Podem acreditar, esses carros nunca existiram. Ou vocês acham que uma banheira, um carro da Chrysler e um da Alfa Romeo foram realmente fabricados no Brasil? Eu nunca conheci ninguém que tinha um desses veículos. E se você conheceu alguém que alegou ser proprietário de um desses carros, pode ver que tem coisa estranha na história. Na verdade, os homens têm vergonha de dizer que acreditam em seres esotéricos como gnomos e duendes. Por isso, dizem que acreditam em Landaus e Polaras e que até tinham um em casa há uns anos.

13) Cabritos
O trânsito é um ambiente extremamente masculinizado. Muitas situações são decididas como se fossem uma prova de macheza. Assim, quando você pretende mudar de faixa, um idiota dá aquela acelerada só para que você não fique na frente dele. Afinal, se você o fechar, ele se sentirá diminuído, menos macho. O curioso é que alguns que pretendem mudar de faixa também querem demonstrar virilidade e entram com tudo. Lembro-me imediatamente daqueles cabritos que dão cabeçadas um no outro para ver quem é o mais macho do rebanho.

14) Acasalando
Há uns carros pra lá de bregas com luzes de néon no fundo, dando um efeito meio nave espacial para o carro. Como é uma espécie nova, os estudiosos ainda não definiram bem o motivo de tal comportamento. Mas já sabem que é bisonho. As hipóteses mais fortes é que tal efeito visual faz parte de algum ritual de acasalamento, como os pavões com aquelas caudas imensas. Só fico imaginando que indivíduos do sexo feminino da espécie humana se atrairia por um carro com luzes de néon.

15) Velhinhos
Não vou descer muito a lenha nos indivíduos de idade avantajada porque todo mundo com mais de 18 anos tem direito a dirigir um carro. A bem da verdade, alguns não deveriam ter esse direito, como algumas das espécies analisadas nesse texto e no anterior, mas a lei é falha nesse ponto. De qualquer forma, os velhinhos atrapalham muito com aquela “velocidade” e a infinita hesitação antes de cada alteração de rumo. Mas eles não têm culpa dos efeitos da idade. Ser cretino no trânsito como a maioria dos taxistas ou dos motoboys é opção. Ser um velhinho, não. E um dia eu serei um.

16) Para onde eu vou?
Em um dia da semana, a avenida está bastante movimentada. Carros inquietos mudam de faixa, buscam uma brecha para cortar alguém, um bando de motoboys ataca e dois taxistas buzinam. No meio de tudo isso, um indivíduo está apavorado, com medo de ser devorado por aqueles monstros. É o carro da auto-escola. Primeiro que todo instrutor de direção deve ser um cara muito masoquista para entrar em um carro conduzido por um adolescente que não sabe conduzir e acha que carro é meio de atrair garotas. Mas, pior que isso, é ficar na expectativa de que aquele aprendiz se apavorará a qualquer momento e tomará um rumo inesperado, direto na lataria de seu carro.

17) Por um fio (trocadilho infame com o filme, mas não pude evitar)
Há um brinquedo no parque de diversões que simula o trânsito paulistano. Por aqui chamamos de bate-bate (não sei se não tem outro nome fora dos limites dessa cidade). Bem, é um carrinho cercado de proteção de borracha e movido à eletricidade, provida por fios no teto. A ligação é feita por hastes. A inspiração que o brinquedo teve no trânsito de São Paulo é tão grande que os veículos são cópias de um similar paulistano: o trólebus. Não que um trólebus saia batendo em todo mundo, mas é um bicho deveras incômodo e também tem aquelas hastes infernais. Ele anda devagar com medo de desconectar-se do fio. Faz curvas como um elefante preguiçoso com medo de desconectar-se do fio. E nem sempre adianta, porque vez ou outra o bicho se desconecta do fio. Daí, o motorista desce e tenta refazer a ligação. E o trânsito, não fica interrompido? Ah, isso é só um detalhe.

18) Leis da física?
Já falei do ônibus domingueiro e do ônibus noturno. Mas tem outro tipo de ônibus que merece a atenção. É o ônibus de turismo. É um ser extremamente nonsense que circula por nossas ruas. Ele pretende provar a cada momento que um elefante passa pela cabeça de uma agulha. Acompanhe o raciocínio: os principais hotéis de São Paulo ainda ficam nos Jardins, perto da avenida Paulista. Logicamente, esses ônibus devem circular por essa região para pegar seus passageiros. No entanto, as ruas em volta da Paulista estão tão superlotadas quanto cela em delegacia de bairro de periferia. Para piorar, as vias são estreitas, há carros estacionados na Zona Azul e as ladeiras são bastante generosas. Tudo para dificultar a circulação de uma coisa daquelas. Mas os ônibus insistem. Demoram 5 anos para fazer cada curva. Ocupam todas as pistas daquelas ruas. E a gente pensa que lei da física o cara quer violar para chegar a seu destino. Só não dá para cobrar IPTU (como no item 11) porque esse é um imposto municipal e um turista não pode pagá-lo.

19) Guardinha do CET
Guardinha do CET é o nome científico, mas o povo conhece vulgarmente por marronzinho ou amarelinho devido às cores de suas indumentárias. Bem, o guardinha do CET é o fiscal do Ibama nessa selva. Ele identifica os animais, ops, motoristas desordeiros, e os cataloga. Infelizmente, não atira dardos com tranqüilizantes.

20) National Geographic
Muitos repórteres (geralmente de rádio) ficam de helicóptero vendo tudo de cima e narrando o que ocorre. Dentro dessa análise zoológica, esse pessoal faz o papel dos repórteres fotográficos do National Geographic. Vão para o meio da selva, se colocam em pontos estratégicos e mostram para nós, humanos, o que ocorre em tão hostil ambiente. É só ver como a linguagem é parecida: “o fluxo das aves migratórias é mais intenso no inverno” ou “a leoa ataca impiedosamente o grupo de zebras até encontrar sua vítima” não são muito diferentes de “como toda véspera de feriado, a avenida dos Bandeirantes enfrenta trânsito intenso” ou “um caminhão em alta velocidade perdeu o controle e colidiu com outros 4 carros, causando um engavetamento na marginal Tietê”.

Bem, termino por aqui. Mas ainda há muitas outras espécies que mereciam ser analisadas, como os caminhões de entrega de refrigerante, os catadores de papelão, os caminhões-cegonha, o microcosmo dos estacionamentos de shoppings... Xi, acho que terei de fazer uma parte 3 em breve.

Posted by at outubro 1, 2003 11:12 PM
Comments

Meu pai tinha um Alfa-Romeo. Marrom, não prateado.

Eu sobre as luzes neon, se formos nos basear pelo que acontece aqui, acho que é algum tipo de acessório pra aumentar a performance do carro, assim como os adesivos com escritos japoneses e os aerofólios pra fazer efeito solo em carro com tração dianteira (inteligentíssimos, por sinal). Digo isso porque os únicos carros que portam tais acessórios são os usados nos rachas à noite pelas comunidades hispânica e oriental, assim como visto nos filmes do cinema. Então, muito provavelmente deve melhorar a performance.

Posted by: Vanza at outubro 2, 2003 04:13 PM

Já andei em um Landau que tinha o cambio no painel!
*outro ser imaginário automotivo era (ou ainda é) o LTD...

Posted by: jubash at outubro 3, 2003 08:25 AM

Bira,

a análise a la National Geographic é mto boa. Afinal, o trânsito não é mais um estado (estar em trânsito) mas sim uma verdadeira instituição, como a igreja e a imprensa.
Pensa em quantas coisas não são feitas pensando exclusivamente nos engarrafamentos. Se começar pelo mais dispendioso, vamos encontrar toneladas de publicidade, seguidas de obras viárias estrondosas... Sem contar que toda a tecnologia que equipa um carro se torna inútil qdo o mesmo tem a infeliz opção de acessar a 23 de Maio às 17h30.
É aí que fico feliz qdo penso no meu Mille, q faz 12km/L

Posted by: Bruno at outubro 6, 2003 08:02 AM

Bem, estava esperando vc mencionar os nipônicos do trânsito paulistano... uma espécie que mereceria um destaque especial nessa conversa sobre "biodiversidade". E olha que já encontrei, pelos lado da Vila Prudente, um velho nipônico de chapéu guiando uma Brasília... um ser muito exótico, sem dúvidas. Quanto ao bate-bate, no interior do Rio ele se chama "pistorama".

Posted by: Klótzs at outubro 8, 2003 06:26 AM

Bem lembrado pelo Klótz, Bira. Os nipônicos... Ah, os nipônicos!
Merecem um capítulo à parte, sem dúvidas.
A maioria esmagadora tem tanto talento à direção quanto um paquiderme. Haja visto exemplos como Takuma Sato, Ukyo Katayama e por aí vai...

É Bira, vc tentou defender seus ascendentes mas não teve jeito...

Abraço,
Bruno

Posted by: Bruno at outubro 8, 2003 02:06 PM

Bira:

Sobre este assunto, lembrei-me de uma história que me contaram sobre o Herman José que já se passou à algum tempo.
Ele tem uma colecção enorme de carros (e não é nada modesta, só mesmo "bombas"), uma vez foi apanhado numa portagem num descapotável com uns daqueles óculos de aviador da 2ª guerra mundial... só mesmo ele para gozar com toda a gente!!!!

Posted by: Teresa at outubro 10, 2003 12:15 PM

Meu pai não só tinha um Alfa-Romeo, como tinha tb um Maverick beje-metálico. E se isso não for suficiente, pra acompanhar, ele tb tinha uma CB200. Ha!

Posted by: Putzo at outubro 12, 2003 11:06 AM

Bira, a análise ficou excelente. E pode ter certeza que o tema rende não só uma parte 3 - o retorno, como partes 4, 5, 6, 7 e por aí afora. É o tipo de coisa que dá mais continuação que Sexta-Feira 13. Ah! Lembre-se de uma espécie em ampla circulação por aí: os carros com adesivos religiosos. Não importa qual a doutrina, eles são campeões de barbeiragem. Alguns até já se desculpam, como aqueles que ostentam o "em caso de arrebatamento, este veículo ficará desgovernado". Dá a impressão de que o arrebatemento está sempre acontecendo.
Beijo,
Clara P.

Posted by: Clara at outubro 18, 2003 05:02 PM
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