As ruas de São Paulo são habitadas por tantos veículos que acabou tendo uma biodiversidade automobilística. E eu não me refiro às marcas e modelos de carros, mas às espécies animais (no sentido científico e no sacana) que se desenvolveram nas vias da capital paulista. Acho provável que isso exista em outras cidades. Mas, pela quantidade de carros e ruas, São Paulo é meio como a Floresta Amazônica da biodiversidade automobilística.
Nesse texto, vou falar sobre alguns desses seres estranhos com os quais temos de compartilhar pistas, enfrentar cruzamentos e nos comunicar por meio de buzinas.
1) Motoboy
Um clássico. Ele tem um papel importante para o equilíbrio da natureza, pois entrega um monte de coisas no prazo necessário. No entanto, provocam um grande distúrbio no ambiente viário. Andam em grupos, buzinando ininterruptamente e praticamente proibindo que o motorista sequer pense em mudar de faixa (que ousadia!). Afinal, eles não podem, em hipótese alguma, parar para o motorista, já que se consideram as coisas mais importantes do mundo. Mesmo quando já está fora do horário de trabalho.
2) Retrovisor?
Você está andando tranqüilamente na sua faixa, consciente de que está na velocidade certa para a faixa em que trafega. Do nada, aparece um indivíduo (extremamente babaca) dando luz alta e colando na sua traseira. O objetivo desse ser é claro: você tem de sair de seu lugar para deixar ele passar. O que não dá para entender é que a faixa da esquerda está livre e ele poderia simplesmente mudar de faixa e te deixar comendo poeira. Mas o cara prefere ficar na mesma linha e encher o seu saco, só para que você tenha de dar a passagem para ele. Minha teoria é que tais pessoas usam aqueles limitadores de visão dos cavalos. Assim, só olham para a frente e ignoram completamente o que ocorre na lateral. Também fico pensando se tais indivíduos também não usam as focinheiras de cachorro.
3) Meu pé direito
Há um tipo de motorista bem intencionado, cuidadoso e prudente, mas que atrapalha o ciclo natural da vida viária. É o motorista lerdo. Eles são fecham ninguém, não buzinam sem motivo e não atropelam ou aterrorizam pedestres. No entanto, andam tão devagar, mas tão devagar, que atrapalham a fluência dos veículos. Daí, fica uma fila indiana seguindo o indivíduo, como um cortejo. Essa espécie deve ter alguma característica anatômica que impede que o pé direito exerça uma pressão muito grande sobre o pedal do acelerador.
4) “A Serviço Telefônica”
Na verdade, é uma espécie dividida em diversas subespécies. A descrição é simples: são pequenas picapes (em geral, Fiorino) brancas com um adesivo na porta escrito: “Empresa Tal e Tal, a Serviço da Telefônica”. Se o trânsito de São Paulo não fosse a Amazônia, mas o Jurassic Park, diria que eles são os velociraptors: rápidos, pequenos e fatais. Eles não parecem conhecer o princípio da física que diz que “dois corpos não ocupam o mesmo lugar do espaço ao mesmo tempo”. Eles vão se esgueirando como querem, passando por cima dos riscos de colisões que podem provocar.
5) Taxistas
Impossível escapar desse ser. É um tipo de anfíbio. Quando estão sem passageiro, atacam todo mundo, cortam, reclamam, passam por cima e xingam a sua mãe. Têm um sério problema de visão, pois não distinguem cores e sinais. É um problema sério que biólogos já estão pesquisando. Por exemplo, o limite de velocidade e as indicações de contra-mão das placas nunca são vistos. Os taxistas também não conseguem distinguir o vermelho do verde. Isso explica o fato de sempre ignorarem a luz colorada no semáforo. Agora, como bom anfíbio, o comportamento muda quando estão com passageiro. Nesse momento, os taxistas mostram um medo grande da solidão. Por isso, buscam as ruas mais movimentadas para não se sentirem só no trânsito. Quando fecha o semáforo, procuram as faixas com fila mais longa. A vida do taxista muda de ritmo. Aquela ansiedade acaba, tudo fica mais lento. É como se uma agitada borboleta virasse uma preguiçosa lagarta.
6) Playboy Cherokee
Se voltarmos a comparar o trânsito com o Parque dos Dinossauros, veremos o equivalente automobilístico do Tiranossauro Rex. O playboy Cherokee é carnívoro, gosta de perseguir e aterrorizar os pequenos, correr atrás da manada até devorar um. Acho que sente o cheiro de sangue a quilômetros. Por ser grande, não demonstra medo de colisões ou esbarrões. Afinal, o prejuízo do miúdo será maior e, qualquer problema mais sério, o papai resolve.
7) Ônibus de domingo
Motorista de ônibus já é um inferno. Eles se aproveitam do trambolhão que guiam para passar por cima de todo mundo. Mas há coisa pior: o motorista de ônibus de domingo. O cara deve estar fulo porque está trabalhando ao invés de jogar dominó com os amigos (e falo em jogar dominó porque já cansei de ver motoristas de ônibus jogando dominó no terminal antes de partirem). O veículo está vazio e há menos carros na rua, o que permite um aproveitamento maior da potência do motor. Não precisa de mais nada. O cara vai à toda, fazendo aquele barulho desgraçado que só um motor de ônibus com marcha esticada pode nos proporcionar e colando em pequenos veículos 1.0, com pais levando seus pimpolhos para visitar a avó doente.
8) Night Bus
Ônibus de noite. Mas é noite pra valer, a partir das 22h00. As características são iguais às do ônibus de domingo. A diferença é que essa versão parece ter desenvolvido vista noturna, como aqueles soldados norte-americanos que procuram o Saddam Hussein no Iraque. Aviso: se você tiver de pegar um ônibus à noite ou de domingo, só o faça de barriga vazia. A velocidade extrema dentro de um veículo com centro de gravidade alto como um ônibus provoca grandes balanços. É como ser uma pedra de gelo dentro de uma coqueteleira. Imagina se o seu estômago ainda está tendo trabalho com aquela feijoada do quilo...
9) Caçamba de entulho
São seres estáticos e robustos. Ficam imóveis em locais estratégicos, pontos da rua que, se obstruídos, reduzem pela metade a capacidade de fluxo de veículos. Depois de muito analisar essa espécie (que se multiplica assustadoramente na capital), cheguei à conclusão de que adotam um comportamento à la Gandhi. O fato de ficarem em locais em que é claramente proibido estacionar é uma forma de manifestar uma desobediência civil pacífica. O problema é que, ao invés de perturbarem os colonizadores ingleses como fez o indiano, as caçambas estão é atrapalhando inocentes.
10) Lotação
Nada pior para desestabilizar um ambiente viário que uma lotação. Parece que estão lá só para assustar todo mundo com movimentos inesperados e ameaçadores. Guardadas as devidas proporções, é como uma criancinha que vai correndo para cima das pombas em uma praça, assustando as aves. A diferença é que motorista comum não pode voar quando uma lotação insana chega perto demais com movimentos bruscos. As lotações ignoram as limitações que o espaço físico impõe. Assim, enfiam 25 pessoas dentro de um veículo em que só cabem 8. É um fenômeno. Outra característica dessa espécie é o mau gosto musical. Não há lotação que não fique na estação de rádio mais insuportável do dial paulistano. Só para se ter uma idéia, foi dentro de lotações que ouvi versões em português de “Spending My Time”, do Roxette, e “Wild World”, do Mr. Big.
Bira,
aquelas senhoras de meia idade, mto bem intencionadas mas sem um pingo de noção, mereceriam um comentário tbm. Elas são um fator bastante complicador dos trânsitos dos bairros menores.
Obs: Modéstia à parte, eu acho que comparar o comportamento de certos motoristas de ônibus a uma "dança de libélulas no cio" é a melhor forma de explicar. (vide "www.2perdidos.blig.com.br")
Abraço,
Bruno
Calma Bruno. Ainda tem a segunda parte.
Posted by: Ubiratan at setembro 15, 2003 11:55 AMFalando em senhoras... eu lembro um dia fazendo um passeio de bicicleta pelo parque do Ibirapuera, já na hora de voltar pra casa, ali naquela rotatória que circunda o obelisco. Eu esperando pra atravessar e aparece uma velhinha num Chevette (quer mais visão do inferno no trânsito que isso?).
Não há sinal nenhum de carro no horizonte (domingo de manhã, sempre tem esse tipo de milagre). Ela pára e olha e então decide seguir em frente. Aperta a embreagem, engata a primeira. Aí é que a situação complica: ela pisa no acelerador até o fundo, fazendo aquele barulho ensurdecedor, e vai soltando a embreagem milimetricamente. O Chevette demora uns dois minutos (com a rotação lá no vermelho) até começar a ensaiar um movimento, quando ela finalmente decide soltar um pouco o acelerador pra "evitar o tranco".
Eu já tava prestes a ter um ataque vendo a velhinha maltratar o carro daquele jeito...
Posted by: Vanza at setembro 15, 2003 02:29 PMBom... Primeira vez que venho aqui, e fiquei com vontade de dizer que gostei sinceramente do site. Ele me dá um pouco de inveja. Vontade de escrever tão bem quanto o autor. Mas, mesmo assim, gostei demais.
Não irei colocar o link do meu blog. Não o farei porque tenho vergonha. Vergonha da minha pobre retórica.
Keep Talking do Pink Floyd é muito boa. Diga-se de passagem. Tudo do Pink Floyd é bom. Mas os discos feitos após o Dark Side of The Moon são excelentes.
Posted by: Rafael at outubro 1, 2003 07:29 PM