Não costumo me dar ao trabalho de levar rádio ou CD player em uma viagem. Não tenho paciência de verificar a pilha toda hora, guardar em local protegido dentro da mala, carregar na rua para ficar com fonezinho... Prefiro que as caixas de som das lojas de CD e as estações de rádio do motorista da van ou do táxi ditem a trilha sonora da viagem. É mais realista. Fico com uma sensação psicológica (e provavelmente ilusória) de que estou mais próximo da cidade que visito.
Bem, nesse caso, a experiência não foi das mais felizes. A banda sonora da viagem em terras ar-rentinas e tchilenas foi bem ruinzinha. No Chile, o sofrimento foi grande porque os caras adoram uma música romântica, estilo novela mexicana em rimas e notas. E como o ritmo é lento, dá para entender perfeitamente cada verso lambuzado de açúcar.
Eu passei umas vezes em frente a uma feirinha de artesanato em Santiago e ouvia uma música melosa, com uma voz familiar. Era sempre o mesmo artista. Após passar lá umas 3 vezes, minha mulher observou: “nossa é o Alexandre Pires em espanhol!” O pior é que era mesmo.
Bem, mas o pior foi no caminho para o Valle Nevado (parece esnobe falar em estação de esqui, mas nem é tão caro assim para quem já está lá). O motorista da van decidiu colocar na (segundo o DJ) “Rádio Chile Romance, la radio del rrrrrrrrrromaaaaaaaaance”. O caminho era bonito, com um ziguezague interminável pelos Andes. Mas eu só pensava em como ia tirar aquelas músicas da cabeça.
Até que meus planos foram por água abaixo. Começou a tocar a versão en español de “P da Vida”, aquela música do Dominó. É assustadoramente igual. E foi um trabalho hercúleo tirar aquilo da cabeça. Na volta, o motorista decidiu colocar uma fita com músicas melosas em italiano. Mas eu entendo razoavelmente bem italiano, o que não ajudou na lavagem cerebral que eu planejava para o momento em que descesse do veículo.
Na Ar-rentina a coisa melhorou. Eles põem um tango bem alto para chamar turista brasileiro e reduzem o sofrimento dos pedestres. Além disso, tinha um cara que tocava Deep Purple, Eric Clapton e Pink Floyd na rua para pedir dinheiro. Ajudou bastante.
Mas a Ar-rentina também foi cenário de experiências desagradáveis. Em um Burger King havia uma festa infantil. Para animar a meninada de 6 anos, um ser desalmado colocou axé music (do nível de Boquinha da Garrafa) e Ragatanga. E as menininhas ficaram dançando. Coitadas...
Dias depois, parei para comer um "pancho" (cachorro-quente). Estava bom, mas a mulher da barraca colocou em um programa de rádio que só toca porcarias brasileras. E fiquei uns 3 dias com uma música meio funk que fala “Dá beijinho nas meninas, dá, dá, dá” passeando pelo meu cérebro.
Por isso, quando ouvi Psycho Killer, do Talking Heads, em um restaurante, senti que ainda havia salvação para meus ouvidos. Não é minha música preferida, mas, naquele momento, foi.
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Quando você fica fora do país e desencana de acompanhar as notícias, vê como muita coisa acontece em um período de 10 dias. Daí, vira uma certa neura de se atualizar. Como só sou neurótico por futebol e fórmula-1, fiquei mais tranqüilo. Não teve corrida nenhuma nesse período e, de Argentina e Chile, dá para acompanhar os resultados do Brasileirão (ESPN Internacional) e da Copa Sul-Americana (Fox Sports). Mas soube que o Schincariol, o Alcântara Machado e o Sérgio Vieira de Melo morreram. Quantidade grande de mortes para 11 dias fora.
Bem, o Palmeiras virou líder da Segundona e perdemos um de nossos principais diplomatas, mas, no fundo, tudo está igual. Percebi isso quando estava rodando os canais na TV (já aqui no Brasil) e vi a Kelly Key falando (provavelmente alguma bobagem). Pensei: “puxa ela ainda existe?” Mas é claro que ela existe. Só fiquei fora por 10 dias, ora!
O pior é que costuma ser assim. As porcarias proliferam. Quando estourou o “Bonde do Tigrão” eu estava viajando a trabalho. Voltei e tocava isso em cada esquina. Choque total. Espero que, da próxima vez que eu for para o estrangeiro, ocorram menos tragédias como a liderança do Palmeiras e a morte de gente importante. E que entidades como a Kelly Key e o LS Jack sumam sem que outras apareçam.
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Xi, falei mal do LS Jack. Será que eles vão me pegar em um aeroporto?
Posted by at agosto 23, 2003 02:50 AMPara sua informação, a música "Dá, dá, dá" é de Gleydson Rodrigues, o "Orador da Modernidade". Você pode visitar o site do sujeito em http://www.gleydsonrodrigues.com.br. Trata-se naturalmente de figura muito carismática e músico de grande qualidade. Arrã.
A propósito, o texto do Balípodo ainda está no forno, logo ele verá a luz do dia. Abração.
Posted by: Leye at agosto 25, 2003 07:10 PMeu sou fã do ls jack e da kelly estou pegando algumas músicas em uns sites