É muito interessante ouvir o noticiário econômico. Com a falta de concorrência ideológica, o pensamento liberal (ou neoliberal, sei lá) se transformou em verdade absoluta. Basta ler algum caderno de economia e pululam termos e análises que tratam certas questões como pétreas. E isso me deixa desconfortável, para não dizer revoltado. Será que é tudo tão simples (ou simplista) assim?
Entendo muito pouco do assunto, mas vamos lá. Abaixo vai uma pequena lista de coisas que me irritam:
1) O mercado
Jornalista econômico fala do mercado como se fosse uma coisa etérea e da qual não podemos discordar. Temos de deixá-lo no seu cantinho, fazendo o que bem entende. Na boa, mas o tal “mercado” é um bando de investidores que quer ganhar dinheiro. São de carne e osso. Pô, eu acho que devemos discordar da vontade deles se for o caso, cáspita! Podem ter certeza que na média, nós precisamos muito mais que eles. Tenho consciência que nem todos esses investidores são graúdos (há os pequenos), mas como "mercado" falo de corretoras, bancos de investimento e dos grandões (os pequenos não têm tanto controle sobre onde põem o dinheiro, deixam na mão de um especialista).
2) Comportamento do mercado
Ainda nessa questão desses carinhas (são “pessoas humanas”, não nos esqueçamos) que ganham seu sustento nas Bolsas. Além de ricos, são mimados e infantis. Qualquer boato e os caras ficam todos melindrados, tiram dinheiro de cá e põem lá. Santo Deus! Tem boato que nem minha cachorra acreditaria, mas esses caras acreditam. Aposto que, se eu entrar na Bovespa e berrar que o Palocci declarou se inspirar na visão de macroeconomia da Britney Spears, a bolsa cai e o dólar sobe.
3) Especulação cambial
O governo vai remunerar alguns papéis em dólares. Dias antes, o “mercado” entra em ação. Força a barra para o dólar subir alguns pontos percentuais. Assim, o “mercado” ganha mais dinheiro no pagamento dessa dívida. E todo mundo encara isso como algo normal! Meu, os carinhas influenciam a economia de um país todo, desestabilizam a moeda só para ganhar mais, sendo que a diferença não faria falta para eles no final do mês. Isso não pode ser correto.
4) Os “fundamentos” da economia
Adoram falar isso. E sempre que ouço o termo me lembro de meu professor de natação falando em fundamentos, braçadas, pernadas, respiração, virada, essas coisas. Agora, de que adianta os fundamentos estarem bons isoladamente se o que interessa (crescer economicamente) não funciona. É como alguém ter técnica apurada na pernada e na braçada, mas afundar sempre que entra na água.
5) Responsabilidade social
Cheguei à conclusão que a propriedade de tudo o que pode provocar reflexos na sociedade deve ser controlado. Não precisa ser um controle estatal, pode ser algo mais singelo, como princípios de responsabilidade social. Explicando: o cara tem um terreno na Amazônia. Em tese, o terreno é dele e ele faz o que quer. Mas não, se ele desmatar a região vai provocar reflexos no ecossistema. É o mesmo com dinheiro. Se o cara tem dinheiro demais, está, de alguma forma, reduzindo a possibilidade de quem não tem conseguir algum. Essas pessoas não precisam renunciar aos seus bens ou algo assim. Bastaria investirem em produção (e empregos) ou em filantropia. Mas ninguém discute isso. Por que direito econômico está sempre acima de qualquer outro direito?
6) A economia cresce, a inflação sobe junto
Enfiaram isso na cabeça das pessoas e tem gente que acredita como verdade absoluta. Com a quantidade de pessoas fora de qualquer possibilidade de consumo nesse país, crescimento econômico pode não significar enriquecimento do mercado consumidor, mas aumento do mercado consumidor. Será que a inflação tem de ir junto? Será que não basta manter os preços e permitir que essa gente recém-promovida a cidadã possa comprar algo?
7) O valor do dólar
Essa me tira do sério. Até outro dia, o dólar estava a R$ 1,32 e todo mundo dizia que o valor real seria entre R$ 1,60 e 1,80. Bem, daí a moeda norte-americana extrapolou e foi a R$ 2,10. Ficou supervalorizada? Não, o pessoal se acostumou com esse patamar e passou a considerá-lo normal. Nova crise e o dólar vai a R$ 4,00. Os exportadores gostam, mas está absurdo, se lembrarmos que o “valor real” até pouco tempo antes era R$ 1,70. Daí, o dólar cai para R$ 2,80 e tem gente que começa a achar que o real está muito valorizado. Por quê? Porque começaram a achar R$ 3,40 um bom valor. Desisto!
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Tem mais coisa, mas acabei me esquecendo enquanto escrevia. Depois eu volto com a parte 2.
Posted by at julho 29, 2003 01:21 AMAe Bira,
a julgar pela repercussão desse teu post, os economistas vão continuar a falar sempre as mesmas coisas. Ninguém se importa ou, ao menos, presta alguma atenção no que se passa no cenário.
Ah, sim.. gostei da definição de "ricos e mimados" dos agentes do mercado. Sempre pensei nisso.
Abraço.
Posted by: Bruno at agosto 4, 2003 09:58 AM