Dia de folga na cobertura da feira. Pego o carro e ando por uma estrada com destino a uma cidade nas redondezas. O tempo não era aquela maravilha, mas a estrada larga e sem tráfego tornava o caminho um pouco mais agradável. Vejo uma placa indicando o caminho para a tal cidadezinha. Dessa entrada até a cidade vão alguns quilômetros. O caminho todo é cercado por árvores altas e copa vertical, formando paredes. E, assim, essa estradinha vira quase que um corredor. O visual é até interessante, mas você se sente um pouco como aqueles cavalos com limitador de visão.
Bem, chego na cidadezinha. É bonitinha, com tudo certinho e ajeitadinho. Os carros são de padrão razoavelmente elevado (há os típicos de uma classe média estável, mas se encontram carrões digno de popstars). As casas tentam imitar uma vila européia, mas, no fundo, parece um subúrbio enorme à la casa do Kevin Arnold, com aqueles telhados bastante inclinados, revestimentos externos de tábuas (ou algo que imite tábuas). Tudo muito pré-fabricado, entende? Há algumas pessoas na rua, muitas senhoras com cara de donas-de-casa ou aposentadas que ficam passeando com o cachorro ou levam os filhos para cá e para lá como forma de ocupar o dia.
Até que se chega à rua de comércio, a Market Street (foto abaixo). Ela tem um quarteirão de extensão, mas as lojas são "o fino". Entre a calçada e a via, mais arvorezinhas, posicionadas simetricamente.

No final dessa rua está a avenida principal. Não é a mais importante pelo movimento, já que ela é tão larga quanto as outras. Mas é porque ela margeia um lago, formando uma espécie de orla, e, como em toda cidade com limites aquáticos, a vida sócio-cultural gira em torno da avenida marginal. Lá, há um calçadão em que você anda com muito cuidado para não ser atropelados por patinadores. Casais de velhinhos (e não são poucos na tal cidade) andam com uma paciência zen-budista até sentar em algum banquinho para ficar olhando para o lago (ou para a margem oposta, alcançável a olho nu).
Nessa avenida beira-lago há restaurantes, bares e comércio mais simples, além de serviços como bancos. Porém, a pergunta que fica na cabeça é se a reduzida população da cidade comporta tudo aquilo. Ainda mais depois de ver o que parece ser o principal lazer local: um cinema "mega-motion 4D 6th generation". Pelo que vi, são poucas salas, umas 4. Algumas apresentam filmes antigos e/ou clássicos e outras ficam com a superprodução da época.
Acho que já deu para perceber que estou falando de Celebration, a tal cidade onde o Sílvio Santos estaria passando os derradeiros anos de sua vida. Estive lá em 2000, em uma brecha na cobertura que fiz da "entusiasmante" feira "World of Concrete", realizada em Orlando. Celebration fica perto de Orlando, mas não dá para ir até lá sem carro, já que fica a uns 20 km (segundo meu chutômetro) a caminho de Tampa. Aliás, é importante lembrar que boa parte de minhas considerações foram afetadas pela memória (afinal, não tirei foto de nada).
Alguém pode achar que a cidade é surreal. Dependendo do olhar, até é. Mas, no fundo, pareceu real demais. É muito falsa e artificial, mas, ao contrário de Brasília, pretende parecer real. E acaba exagerando tanto quanto um brasileiro forçando um sotaque português. Por ser um urbanóide que admira a forma como a cultura e a história moldam uma cidade, não gostei nem de Celebration, nem de nossa capital federal. E uma não é melhor que a outra, por mais real em demasia ou surreal que sejam. Cidade falsa por cidade falsa, fico com Ubiratown, uma das trocentas cidades que eu criei e destrui jogando Sim City. Pelo menos nessa eu mando, hehe.
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Para quem não sabe, Celebration é uma cidade criada pela Disney. É tudo tão bonitinho e simétrico que Truman Show foi gravado lá. No filme, o local era um cenário de um programa de TV. E acho que a cidade também é. Aliás, a cidade é tão artificial que não tem brasão, nem bandeira. Tem logotipo.

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Sou apenas o repórter de uma revista especializada. Mas recebo tanto press-release nonsense que imagino o sofrimento de editores da grande imprensa. Entre as pérolas que chegaram em meu Outlook estão boletins de biotecnologia, um novo CD do Raul Seixas e um informativo que mostra que comer peixe faz bem.
Posted by at julho 17, 2003 03:23 AMnão paro de recber propagandas com o seguinte subject: "quer aumentar seu penis". eu apago sem ler, mas já to começando a achar que é pessoal...
Posted by: artur at julho 17, 2003 12:02 PMBira,
essa sua tese dos limites aquáticos não se encaixa mto em SP. No máximo vc pode dizer q a vida congestionada e feia se concentra nas avenidas marginais.
Posted by: Bruno at julho 18, 2003 11:08 AMBruno, São Paulo não tem limite aquático. Afinal, os rios paulistanos não impediram o crescimento da cidade para além deles. Isso vale mais para mar e lago grande.
Posted by: Ubiratan at julho 18, 2003 12:11 PMOi Bira, lembra que a gente fez um trabalho de faculdade sobre Celebration la pelos idos de 98. Acho que era na aula do Silvio. Quem diria que a cidade alcancaria tal status.
Celebration eh arrumadinha, mas nada fora do padrao. Eu, que no momento estou trabalhando aqui na Bay Area, jah acostumei com o efeito Lego dos suburbios... Tudo adquire mais vida quando voce ve um parque de trailers com a nata do white trash fazendo churrasco na calcada. Vamos iniciar uma campanha pela avacalhacao da mancha urbana de orlando!
Posted by: furnari at julho 18, 2003 02:35 PM