A mocinha está perdida. Anda sem direção por ruas escuras e pouco convidativas do bairro mais hostil da cidade. Coitada, ela nem percebe em que fria está se metendo porque está desorientada pelas dúvidas que cercam sua vida. Não sabe se fica com o Rafael ou com o Marcelo e se faz a faculdade de Direito como “sugerem” seus pais ou se segue o sonho de montar uma pousada em uma capital nordestina.
Daí, ela encontra uma figura assustadora. É só um transeunte qualquer, mas, dadas as condições do momento, até um poodle causaria pânico. Ela foge. O indivíduo a segue e pede para ela acalmar-se. Ele a alcança.
- Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhh!!!!!!!!!
A mocinha começa a suar aflitivamente. Já vai abrindo a bolsa para entregar a carteira quando ouve sair frases amistosas da boca do anônimo, algo do tipo “você não deveria andar por aqui, sozinha, a essa hora. É muito perigoso”.
Depois de um dedinho de prosa que não leva nem dois minutos, a mocinha diz que está desorientada com dúvidas a respeito de sua vida. Ela não explica nada. Não fala do Rafael, muito menos do Marcelo. Da faculdade de Direito, então... Só fala que está com dilemas insolúveis ocupando-lhe a cabeça.
Mas isso não esmorece a boa vontade do mendigo, que, imediatamente, lhe dá um conselho aparentemente profundo. Algo do tipo “siga seu coração que o destino se encarregará de lhe trazer a felicidade”. Esse conselho vindo do desconhecido é decisivo para a mocinha decidir pelas melhores opções.
Toda novela global tem um momento com uma cena assim. Os filmes hollywoodianos também não deixam a desejar nesse quesito. Qualquer dúvida, é só ver como a cena descrita acima é válida para qualquer história. Caso o enredo que se passe no campo, basta trocar o bairro perigoso por uma mata fechada e o mendigo por um peão mal-encarado tocando uma boiada, um caixeiro-viajante bem-humorado e cheio de causos para contar ou um caminhoneiro barbudo.
Daí eu me pergunto: por que diabos esses anônimos sempre estão com um conselho sábio para dar? Porque eles não dão uma resposta estúpida ou falam uma loucura qualquer. A maioria de desconhecidos que vieram puxar papo comigo na rua era para falar coisas sem sentido, como um bêbado que percebeu que eu era oriental e ficou repetindo que adorava saquê (coisa perceptível a metros de distância).
Bem, abaixo vão algumas sugestões de frases mais realistas que tais indivíduos (considerando que eles estejam agindo de boa-fé) poderiam falar para a tal mocinha. Usei um padrão médio de linguagem, pois seria o empregado pela Globo em uma novela e, confesso, não estou muito a fim de pensar nas gírias usadas na periferia.
1) Como você quer que eu te ajude? Não tenho a mínima idéia de quem você é.
2) Deixe de ser mimada! Você tem dois namorados e grana para montar um negócio. Eu nem sei onde vou dormir essa noite.
3) Eu fico dando um duro danado vendendo bala nos cruzamentos e ainda tenho de dar conselho para garotinha de classe média?
4) Quer um conselho? Fica com o garoto mais rico e com a profissão que paga melhor. Esse papo de realização pessoal é besteira.
5) Você quer escolher namorado e profissão? Mulher que se preze tem de ser escolhida pelo marido e ficar em casa cuidando dos filhos.
6) Você me parece muito perturbada, minha filha. Faz o seguinte: a igreja que eu freqüento fica naquela esquina ali. Vá lá no domingo e fala com o pastor Evaldo. Ele é um cara muito sábio, inteligente e até já conversou diretamente com Jesus. Ele pode tirar o demônio do seu corpo.
7) Olha, vou ser legal porque fui com sua cara. Mas a única coisa que posso fazer para te ajudar é mostrando como se sai desse bairro. O ponto de ônibus fica a dois quarteirões para cima. Pegue a linha 3352J-Shopping Iguatemi e você está perto da sua casa.
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Declaração de Rafael Bielsa, futuro ministro das relações Exteriores argentinas, sobre a política de alinhamento automático de seu país com os Estados Unidos durante o governo Menem, chamada de “relações carnais”:
“Essas relações não serão retomadas. Nunca gostei do termo 'relações carnais', principalmente quando se referem a um país superpoderoso e outro periférico. Nesse caso, sabemos qual é o 'papel sexual' do país periférico.”
Depois ele se explicou melhor para a coisa não ficar feia, mas só essa declaração já valeu a eleição do Kirchner, hehehe.
PS.: achei essa matéria no Clarín, mas, segundo o próprio jornal argentino, ela saiu no Estadão
Ficção X Realidade
Bira, o Rafael da história da mocinha é o mesmo Rafael (Bielsa), da Argentina???
Posted by: Loturco at maio 26, 2003 01:59 PM