Reza a lenda que os colonizadores ingleses, ao chegarem à Austrália, ficaram espantados em encontrar um estranho animal com uma bolsa na barriga que se locomovia dando largos pulos. O Capitão Cook mandou chamar um nativo e perguntou-lhe, usando gestos, qual era o nome daquele bicho. O aborígene respondeu: - Khan ghu ru, khan gu ru! Anos mais tarde, outros exploradores teriam descoberto o verdadeiro significado daquelas palavras. O índio, ao ver os sinais que lhe faziam os ingleses, teria dado uma resposta digna da Leka do primeiro Big Brother: - Não estou entendendo (ou seja, "khan ghu ru" no dialeto local).
A história, engraçada demais para ser verídica, não passa de uma lenda urbana. De qualquer modo, serve para ilustrar um assunto que sempre me interessou: etimologia, a ciência que estuda a origem das palavras. Por que chamamos o hipopótamo de "hipopótamo"? De onde cargas d'água surgiram vernáculos como "capicua", "ornitorrinco" e "vernáculo"?
Shakespeare, como sempre, foi certeiro ao tergiversar sobre o assunto: "O que há em um nome?/ Pois aquilo que chamamos de rosa/ Por qualquer outro nome/ Exalaria o mesmo doce perfume". Quem já estudou lingüística sabe que palavras não passam de signos lingüísticos previamente convencionados por um sistema de sinais. Ou seja, partem de uma relação semelhante à dos sinais de trânsito, cuja lógica arbitrária faz com que vermelho signifique "pare" e verde, "prossiga" (a não ser que você seja daltônico).
Contudo, cada palavra que utilizamos no dia-a-dia tem a sua história, e reflete as evoluções culturais sofridas pela sociedade em que vivemos atualmente. Há quinze anos, quem imaginaria que palavras como "popozuda", "mouse" e "escanear" existiriam? Do mesmo modo, fico pensando se daqui a quinze anos meus filhos conhecerão o significado de substantivos como "vitrola" ou expressões como "futebol-arte".
P.S. 2: O Mundo Perfeito agora é apenas um retrato virtual na parede.
Escrito por Alexandre Inagaki em agosto 3, 2004 11:23 PM| TrackBackQUERO SABER O QUE SIGINIFCA "COMPROMISSO"
Desabafado por: SILVA em agosto 25, 2004 04:20 PMTenho mais uma história engraçada, do naipe da primeira: quando os espanhóis chegaram a determinada península perguntaram a um indígena que passava ali no momento, obviamente através de sinais, qual era o nome daquele lugar, ao que o indígena respondeu algo próximo de "Yucatan". Descobriu-se mais tarde que a expressão "Yucatan" significava algo como "eu não sou daqui".
Desabafado por: Joao em agosto 14, 2004 10:34 PMnossa!!!
muito bom texto!!!
e muito convitativo!!!
Pessoal,
Também adoro etmologia...
Lendo os comentários, porém, passou-me algo pela cabeça:
'cuidado com a novilíngua'
Abraços
"lindo" é uma palavra que falta a correspondente em italiano, sentia falta disso na Itália.
PS: pensava que a frase se shakespeare era de eco, porque ví no filme "o nome da rosa", estranhei não ter no livro qnd lí e fiquei viajando sobre a adaptação cinematográfica.
adorei o texto. Adorei é outra palavra que falta a correspondente em italiano.. como é que esses romanos se comunicavam?
Alexandre,
esse "mamihlapinatapei" foi incluído no Guinness como a palavra de significado mais difícil de todos os idiomas do mundo. Mas uns tradutores ingleses divulgaram recentemente um ranking deles. E "saudade" ficou como 5ª palavra mais difícil de traduzir.
Pense o seguinte: eu adoraria que o português tivesse palavras para determinadas situações, como os amores do grego (gostei dessas diferenciações) ou o "razbliuto". Mas a ausência dessas palavras diretas e precisas valoriza a capacidade que cada lusófono tem para explicar e edmonstrar esses sentimentos. Isso porque temos uma língua latina que já carrega uma carga emocional enorme.
Desabafado por: Ubiratan em agosto 5, 2004 01:35 AMO texto, fascinante diga-se, para além da etimologia fez-me lembrar o quão complexas podem ser certas questões aparentemente tão simples e óbvias. Haa doce ignorância que tanto simplificas a vida e suas opções, permitindo-nos continuar a caminhar de consciência tranquila :)
Desabafado por: o b v i o u s em agosto 4, 2004 11:05 PMAlexandre vc me inspirou, vou fazer um post. Adoro a etmologia das palavras, alguém disse aí que vicia, deve viciar mesmo. Lygia F. Telles é obcecada por isso. Autran Dourado também. Drummond. A etimologia é a história secreta das palavras. O que secretário tem a ver com segredo? Tudo. O que obcecado tem a ver com cegueira? Tudo. E vendo esses liames, essas causas, essas trajetórias, o escritor ganha consistência...é vc me inspirou, vou escrever...
Beijo/abraço (lembra-se?)
Fazia tempo que cá não vinha, bestagem minha!!
Eu também sou um fascinado por etimologia. Impressionante descobrir nas palavras a História -como, por exemplo, o prosaico "biscoito", que, na antiga roma, era nada mais do que um pão velho, assado outra vez com especiarias doces por cima. E, por cozido duas vezes, "bis coctus". Excelente texto, com saudades do Spam Zine. Abraço!
Desabafado por: tiagón em agosto 4, 2004 05:31 PMPalavras também se perdem.. não só no Mundo Perfeito, mas nosso Sabbag também insinua fechar o boteco, ao que parece.
Desabafado por: Pancada em agosto 4, 2004 04:06 PMCuidado! Etimologia vicia.
Desabafado por: Bear em agosto 4, 2004 12:48 AMNossa... o Mundo Perfeito foi uma das melhores sacadas que já vi na Internet, sobretudo pelos improváveis geradores de texto. Vai fazer falta!
Desabafado por: Jaci em agosto 4, 2004 12:31 AME eu, embora tenha adorado o seu post., queri dizer que estou triste.
Mas sinto e desejo que a Dani saberá lidar com a mudança.
Um beijo pra vc, Suzi e para ela.
Meg
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