agosto 03, 2004

Palavras, palavras, palavras

Reza a lenda que os colonizadores ingleses, ao chegarem à Austrália, ficaram espantados em encontrar um estranho animal com uma bolsa na barriga que se locomovia dando largos pulos. O Capitão Cook mandou chamar um nativo e perguntou-lhe, usando gestos, qual era o nome daquele bicho. O aborígene respondeu: - Khan ghu ru, khan gu ru! Anos mais tarde, outros exploradores teriam descoberto o verdadeiro significado daquelas palavras. O índio, ao ver os sinais que lhe faziam os ingleses, teria dado uma resposta digna da Leka do primeiro Big Brother: - Não estou entendendo (ou seja, "khan ghu ru" no dialeto local).

A história, engraçada demais para ser verídica, não passa de uma lenda urbana. De qualquer modo, serve para ilustrar um assunto que sempre me interessou: etimologia, a ciência que estuda a origem das palavras. Por que chamamos o hipopótamo de "hipopótamo"? De onde cargas d'água surgiram vernáculos como "capicua", "ornitorrinco" e "vernáculo"?

Shakespeare, como sempre, foi certeiro ao tergiversar sobre o assunto: "O que há em um nome?/ Pois aquilo que chamamos de rosa/ Por qualquer outro nome/ Exalaria o mesmo doce perfume". Quem já estudou lingüística sabe que palavras não passam de signos lingüísticos previamente convencionados por um sistema de sinais. Ou seja, partem de uma relação semelhante à dos sinais de trânsito, cuja lógica arbitrária faz com que vermelho signifique "pare" e verde, "prossiga" (a não ser que você seja daltônico).

Contudo, cada palavra que utilizamos no dia-a-dia tem a sua história, e reflete as evoluções culturais sofridas pela sociedade em que vivemos atualmente. Há quinze anos, quem imaginaria que palavras como "popozuda", "mouse" e "escanear" existiriam? Do mesmo modo, fico pensando se daqui a quinze anos meus filhos conhecerão o significado de substantivos como "vitrola" ou expressões como "futebol-arte".

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Idiomas são organismos vivos, que refletem as mudanças do mundo ao seu redor. Necessitam, pois, incorporar diariamente novos jargões, neologismos e estrangeirismos ao seu repertório, para que possam sobreviver. Caso contrário, murcham e morrem, feito o latim e milhares de outras línguas e dialetos soterrados nestes séculos de civilização. Faz muito bem, pois, a última flor do Lácio, ao adaptar com ginga os anglicismos que vão sendo incorporados, pouco a pouco, por seus poucos e fiéis seguidores, nesta verdadeira bacanal lingüística: é assim que "whisky" virou uísque, e "Whoop! There It Is" (refrão de uma música do grupo americano Tag Team) se metamorfoseou no hino de todas as torcidas "uh tererê!".

Há um ótimo artigo, publicado na edição 56 da revista Bravo!, que também fala sobre este assunto. Dentre outras coisas, Sérgio Augusto, em um delicioso texto, cita algumas palavras que gostaria que fossem adotadas pela língua portuguesa. Por exemplo: Razbliuto, palavra russa que significa o sentimento carinhoso que nutrimos por uma pessoa que um dia amamos. Ou Mamihlapinatapei, vocábulo genial que pertence a um idioma indígena da Terra do Fogo. E que quer dizer, simplesmente, o "ato de olhar nos olhos do outro, na esperança de que o outro inicie o que ambos desejam mas nenhum tem coragem de começar". Depois dessa, só posso dizer uma coisa: uau!

Se bem que nós, poucos mas fiéis usuários deste quase-dialeto que é a língua portuguesa, podemos nos ufanar da síntese contida dentro desta pequena e maravilhosa palavra: saudade.

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Palavras são misteriosas, palavras são esquivas. Principalmente aquelas que não existem, mas deveriam. Nunca sei o que dizer, por exemplo, a um amigo que sofreu uma pessoa querida: "sinto muito" me soa muito distante e vago. E o que dizer sobre aquele frio na barriga que surge na primeira vez em que vemos uma pessoa que entorpece nossa língua, tolda nossos sentidos, faz nossos ouvidos zumbirem e os olhos se boquiabrirem?

Há palavras e expressões que perderam o sentido de tanto serem repetidas. Um exemplo: existe frase mais banalizada do que "eu te amo"? Oras, Roberto Carlos diz isso à bola antes de uma cobrança de falta; Schumacher, ao Rubinho depois de uma marmelada ferrarista; Ozzy Osbourne, ao rock n' roll em cada episódio de seu reality-show; Jade, aos seus maridos e todos os personagens interpretados pelo Murilo Benício na novela das oito. Sábios eram os gregos, que possuíam quatro verbos para dizer amar: "erao", ligado estritamente ao amor erótico; "filéo", o amor de amizade, de querer bem ao outro, de gostar; "agapao", o amor ligado à satisfação de um desejo; e, finalmente, "stergo", o amor cujo impulso básico é a proteção do outro. Um amor como a dos pais por seus filhos - galinha protegendo a ninhada sob suas asas.

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Recomendo, a quem se interessar, um livro intitulado "O Desejo". É um volume que compila diversas conferências sobre o assunto do título, organizado pelo filósofo Adauto Novaes e publicado pela Companhia das Letras. Todos os textos são fascinantes, mas há um em especial que me marcou desde a primeira leitura, e que gerou em mim o interesse pela etimologia. É "Os Caminhos do Desejo", escrito pelo filólogo Flavio Di Giorgi; um artigo delicioso e muitíssimo bem-humorado, no qual ele relata as origens etimológicas da palavra "desejo". Que é proveniente do verbo latino desiderare, que por sua vez descende da palavra sidus, "estrela". Segundo a explicação de Di Giorgi, desiderare vem da linguagem dos adivinhos que tentavam interpretar o futuro em Roma. Que observavam os astros e tentavam decifrar o que iam acontecer. O ato de contemplar os astros chamava-se considerare, raiz do verbo "considerar" (ou seja, observar as estrelas e a partir delas extrair uma conclusão sobre os eventos futuros).

No entanto, e para quem está desesperado de tudo, feito eu depois que vejo meu extrato bancário? Aí os romanos falavam para o pobre coitado vislumbrar as estrelas em busca de algum alento, Mas o sujeito, desanimado da vida, dizia: "não adianta, estou perdido". Isso era desiderare, "desistir dos astros", isso é desejar: ter a certeza da ausência. Não tenho o que quero ou preciso, e por isso desisto de especular sobre o futuro. Tenho a consciência de que não possuo o que quero, e passo a tomar a atitude que me resta: desejar, porque passo a ter a certeza da ausência daquilo que não tenho. Reconheço a ausência, desencano de ficar mirando os astros, e sonho com a busca daquilo que me falta. Orbito, portanto, sob a esfera do desejo.

Fala sério: depois de uma explicação tão bonita, dá ou não vontade de passar a vida inteira estudando etimologia em busca de respostas como essas?

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P.S. : Este texto foi publicado originalmente no Spam Zine edição 064.

P.S. 2: O Mundo Perfeito agora é apenas um retrato virtual na parede.

Escrito por Alexandre Inagaki em agosto 3, 2004 11:23 PM| TrackBack

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Comentários

QUERO SABER O QUE SIGINIFCA "COMPROMISSO"

Desabafado por: SILVA em agosto 25, 2004 04:20 PM

Tenho mais uma história engraçada, do naipe da primeira: quando os espanhóis chegaram a determinada península perguntaram a um indígena que passava ali no momento, obviamente através de sinais, qual era o nome daquele lugar, ao que o indígena respondeu algo próximo de "Yucatan". Descobriu-se mais tarde que a expressão "Yucatan" significava algo como "eu não sou daqui".

Desabafado por: Joao em agosto 14, 2004 10:34 PM

nossa!!!
muito bom texto!!!
e muito convitativo!!!

Desabafado por: fernanbao em agosto 5, 2004 04:09 PM

Pessoal,
Também adoro etmologia...
Lendo os comentários, porém, passou-me algo pela cabeça:
'cuidado com a novilíngua'
Abraços

Desabafado por: Marco em agosto 5, 2004 01:39 PM

"lindo" é uma palavra que falta a correspondente em italiano, sentia falta disso na Itália.
PS: pensava que a frase se shakespeare era de eco, porque ví no filme "o nome da rosa", estranhei não ter no livro qnd lí e fiquei viajando sobre a adaptação cinematográfica.
adorei o texto. Adorei é outra palavra que falta a correspondente em italiano.. como é que esses romanos se comunicavam?

Desabafado por: bracchi em agosto 5, 2004 12:43 PM

Alexandre,

esse "mamihlapinatapei" foi incluído no Guinness como a palavra de significado mais difícil de todos os idiomas do mundo. Mas uns tradutores ingleses divulgaram recentemente um ranking deles. E "saudade" ficou como 5ª palavra mais difícil de traduzir.

Pense o seguinte: eu adoraria que o português tivesse palavras para determinadas situações, como os amores do grego (gostei dessas diferenciações) ou o "razbliuto". Mas a ausência dessas palavras diretas e precisas valoriza a capacidade que cada lusófono tem para explicar e edmonstrar esses sentimentos. Isso porque temos uma língua latina que já carrega uma carga emocional enorme.

Desabafado por: Ubiratan em agosto 5, 2004 01:35 AM

O texto, fascinante diga-se, para além da etimologia fez-me lembrar o quão complexas podem ser certas questões aparentemente tão simples e óbvias. Haa doce ignorância que tanto simplificas a vida e suas opções, permitindo-nos continuar a caminhar de consciência tranquila :)

Desabafado por: o b v i o u s em agosto 4, 2004 11:05 PM

Alexandre vc me inspirou, vou fazer um post. Adoro a etmologia das palavras, alguém disse aí que vicia, deve viciar mesmo. Lygia F. Telles é obcecada por isso. Autran Dourado também. Drummond. A etimologia é a história secreta das palavras. O que secretário tem a ver com segredo? Tudo. O que obcecado tem a ver com cegueira? Tudo. E vendo esses liames, essas causas, essas trajetórias, o escritor ganha consistência...é vc me inspirou, vou escrever...
Beijo/abraço (lembra-se?)
Fazia tempo que cá não vinha, bestagem minha!!

Desabafado por: Mônica em agosto 4, 2004 10:27 PM

Eu também sou um fascinado por etimologia. Impressionante descobrir nas palavras a História -como, por exemplo, o prosaico "biscoito", que, na antiga roma, era nada mais do que um pão velho, assado outra vez com especiarias doces por cima. E, por cozido duas vezes, "bis coctus". Excelente texto, com saudades do Spam Zine. Abraço!

Desabafado por: tiagón em agosto 4, 2004 05:31 PM

Palavras também se perdem.. não só no Mundo Perfeito, mas nosso Sabbag também insinua fechar o boteco, ao que parece.

Desabafado por: Pancada em agosto 4, 2004 04:06 PM

Cuidado! Etimologia vicia.

Desabafado por: Bear em agosto 4, 2004 12:48 AM

Nossa... o Mundo Perfeito foi uma das melhores sacadas que já vi na Internet, sobretudo pelos improváveis geradores de texto. Vai fazer falta!

Desabafado por: Jaci em agosto 4, 2004 12:31 AM

E eu, embora tenha adorado o seu post., queri dizer que estou triste.

Mas sinto e desejo que a Dani saberá lidar com a mudança.

Um beijo pra vc, Suzi e para ela.
Meg

Desabafado por: Meg em agosto 4, 2004 12:11 AM

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