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Um torcedor de futebol apaixonado como eu vive em constante sofrimento. E, por Deus, como dói essa forma de amor incondicional. Principalmente quando se torce por um time que dificilmente chega a decisões e não possui o mesmo poderio financeiro dos "grandes", como é o caso do meu Bugrão. É o típico caso de amor incorrespondido: já devo ter desenvolvido uma L.E.R. em minha garganta de tanto gritar, vibrar e vociferar com gols perdidos, juízes incompetentes, passes errados, dribles desconcertantes, pênaltis não marcados, vitórias, empates, derrotas.
O amor é ingrato e egoísta. Atualmente, devido à péssima fase do Guarani (causada pela incompetência ímpar de seus dirigentes), sou obrigado a ouvir gozações diárias por conta do possível rebaixamento do meu time. Na medida do possível, procuro manter uma postura estóica frente a essas piadas amarfanhadas que constantemente apelam a expressões como "lanterna verde" ou "te vejo na segunda"; pfuf.
Como todos sabem, amor não se escolhe: simplesmente acontece. Haja o que houver, serei Bugre até a morte. Tenho a consciência de que meu time de coração não possui a mesma estrutura, nem tampouco o orçamento das "grandes" agremiações do futebol canarinho. No entanto, mesmo com tais limitações, insiste em incomodar a "elite" ao formar equipes vencedoras e revelar para a Seleção Brasileira talentos da estirpe de Careca, Amoroso, Evair, Renato, Amaral, Luisão, Júlio César, João Paulo, Mauro Silva, Flamarion e Neto, dentre outros.
Meu Bugrão permanece sendo o único clube do interior que foi campeão brasileiro (1978), além de ter conquistado a Taça de Prata (1981), a Taça dos Invictos (1970), a Taça São Paulo de Júniores (1994) e o bicampeonato da Copa Toyota de Futebol Juvenil no Japão (2001/2002). Também bateu recordes que perduram até hoje, como a de melhor ataque em campeonatos brasileiros (em 1982 o ataque formado por Lúcio, Jorge Mendonça, Ernani Banana e Careca fez 63 gols em 20 jogos - média de 3,15 gols por partida) e vitórias consecutivas (doze, em 1978). Pena que essa tradição de nada adianta no momento presente. A vida é assim mesmo: promessas de amor não valem nada, e se dissipam, voláteis, no etéreo território das ilusões (torcedor de futebol é uma raça triste como a carne).
Alguém pode contra-argumentar dizendo que as conquistas do Guarani não possuem a mesma expressividade de outras agremiações como Flamengo, São Paulo ou Cruzeiro. O caso é que eu, como bom torcedor fanático, sou um masoquista ludopédico, capaz de vislumbrar na escassez de títulos um lado positivo: ao contrário de outros torcedores mal-acostumados, vibro intensamente com cada vitória conquistada, cada gol feito, cada avanço na tabela do campeonato.
O amor é como uma lente de aumento que amplifica cada mínimo detalhe do cotidiano, e assim é a minha paixão pelo Guarani: uma profissão de sangue, coisa para poucos e privilegiados iluminados, cujos corações foram tocados por algo maior e inexplicável. Porque o amor desnorteia, e faz com que a lógica cartesiana dance rumba e saia de fininho. Enfim: sou feliz, e muito, por possuir o privilégio de torcer para o BUGRÃO, com muito orgulho.
Mas, por Deus, como amar pode ser dolorido.
Escrito por Alexandre Inagaki em dezembro 9, 2004 10:08 PM
Conta outra, não existe torcedor do Bugre. Faz vinte anos que eu vejo os gols do fantástico e nunca vi ng no estádio.
Eu sei o que você está sentindo, cara. Eu sou gremista. E apesar da fase, serei gremista até morrer. É apenas uma fase, eu espero.
Parece desculpa de perdedor - afinal, meu Fortaleza, que ganhou do seu bugre ano passado acabou ficando na segundona mesmo... - mas na segundona a gente se diverte mais. Além de passarem os jogos, é mais fácil estar nas cabeças. E a segundona vai estar animada ano que vem. Sofra não. Melhor ganhar por lá que perder por aqui...:-)
Amor que não dói não é amor.
Gostei muito do texto, muito embora eu não ligue à mínima para futebol.
[]s,
Leio seus comentários com alguma assiduidade, mas só hoje resolvi escrever alguma coisa. Sou solidária ao seu sofrimento principalmente porque torço pelo Flamengo que não está muito diferente do Guarani. Arre!!!
Quer dizer: mais um clube com dirigentes incompetentes, qui puxa... Sabe, eu moro aqui no Rio há um ano e meio e fico impressionado com a paixão do carioca pelo futebol, coisa que nunca vi em São Paulo ou em qualquer outro lugar. Mesmo com o futebol carioca na lama (pra não dizer na m...), toda segunda eu vejo TODO MUNDO na rua comentando sobre um jogo, sacaneando um ao outro, devorando por completo os cadernos de esportes dos jornais, Lance, Jornal dos Sports, etc. É realmente uma maldade absurda o que os dirigentes fazem com tantos torcedores apaixonados...
Abs, Vladimir
Interessante que a primeira vez que ouvi a expressão "lanterna verde" foi se referindo ao Palmeiras, que incidentalmente foi um dos "grandes" a transitar pela segunda divisão. O Fluminense, que atualmente é o melhor time do Rio, chegou a ir até a terceira. Sou torcedor do Corinthians, mas também torço para que o Guarani, historicamente o melhor time do interior, recupere-se da má fase, livre-se dos maus dirigentes e retorne em grande estilo à primeira divisão. Ou, se isso não for possível, que ajude a abrilhantar uma segunda divisão cheia de tradicionais da primeira. Considerando os freqüentadores da zona de descenso, a segunda divisão vai acabar virando uma primeira divisão do B. ^^ Abraço, Inagaki. Ah, eu era leitor do Spam Zine. =)
Ô Ina,pior eu,que já torci pelo Santa Cruz,quando eu morava em Recife!...
"coisa para poucos e privilegiados iluminados, cujos corações foram tocados por algo maior e inexplicável"
Isso, Inagaki. Obrigada pela frase salvadora e acalentadora. Agora todos os cruzeirenses podem ler este comentário em silêncio.
(Diretamente de Belo Horizonte, de uma torcedora atleticana).
Pode parecer tietagem, embora não o seja exatamente e eu vou dizer: Inagaki, eu compartilho da sua dor.
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