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novembro 02, 2004


Morte é vida

Imagem do Dia de Los Muertos, data em que os mexicanos preparam comidas especiais para relembrar seus mortos."Fulano passou desta para melhor". "Sicrana bateu as botas". "O gato subiu no telhado". Por que usamos tantos eufemismos para se referir a um fato inevitável à vida de todos nós, a morte? Será que a tememos tanto a ponto de o simples fato de citá-la nominalmente precisar ser evitado?

Não existe consenso sobre o que ela seja. Pode ser o fim de tudo ou, simplesmente, um novo começo, o primeiro passo para um novo estágio de nossa existência no universo. Castigo absurdo, tabu delicado, condição inaceitável? Bem. o fato é que nós não gostamos de falar "nela". Ao mesmo tempo, nutrimos um fascínio que pode ser adjetivado como "mórbido". Manchetes de jornais anunciam que filhos matam pais, ídolos morrem no auge, serial killers atacam misteriosamente, tragédias vitimam centenas. A morte nos interessa profundamente, a morte faz parte intrínseca da vida. No entanto, somos incapazes de encará-la de frente. O que se passa conosco?

* * *

Nossa relação com a morte é decidida por nossas raízes culturais. No mundo ocidental, ela é tabu. Tudo que possa recordá-la é retirado de nossa vista. Idosos são recolhidos em asilos, e os doentes morrem longe de nossos olhos, em UTIs assépticas, afastados de seus parentes. A morte é vista como nosso adversário-mor - de capa negra, rosto cadavérico e foice na mão, é a própria personificação do Medo.

Do outro lado do mundo, os brâmanes hindus a encaram como uma transição semelhante àquela que transforma uma lagarta em borboleta. Já em algumas tribos indígenas brasileiras, os velhos se deitavam na rede e simplesmente aguardavam pela hora de partir. Não comiam, nem bebiam; apenas aceitavam que sua hora tinha chegado, e se curvavam frente ao imponderável. Enquanto isso, fundamentalistas muçulmanos realizam missões suicidas, transformando-se em homens-bomba ou jogando aviões contra arranha-céus simplesmente porque crêem, piamente, que ao cumprir sua missão na "guerra santa" (a maior das contradições em termos) receberão passaportes para a sonhada Terra Prometida.

Para nós, ocidentais, a coisa é bem diferente. Cada vez mais relutamos em aceitar a tal "Indesejada das Gentes", e o imaginário hollywoodiano é bastante ilustrativo sobre esse assunto. Mesmo quando a morte se sobrepõe, há sempre um modo de inventar um final feliz - o casal do filme Titanic "ressuscita" no final, e o par romântico de Ghost vive um amor que perdurará mesmo no "outro lado da vida".

O fenômeno da edulcoração progressiva da morte é relativamente recente. Prova inconteste é a modificação dos finais dos contos de fada. O francês Charles Perrault (1628-1703), e os irmãos alemães Jacob e Wilhelm Grimm (cujo primeiro livro saiu em 1812) foram os pioneiros a recontar em papel relatos que passavam de geração a geração, como as histórias de Chapeuzinho Vermelho, O Gato de Botas, O Pequeno Polegar e Cinderela. Na época, esses contos infantis eram vistos como uma forma de educar as crianças para os fatos da vida, e finais tristes, obviamente, faziam-se necessários. Walt Disney, ao transpor tais relatos para a tela cinematográfica, preferiu dar a seus espectadores happy ends devidamente domesticados.

Um exemplo? A última frase de Perrault em sua versão da história de Chapeuzinho Vermelho acaba assim: "O malvado lobo atirou-se sobre Chapeuzinho e a comeu". Seja sincero: você nunca achou uma tremenda forçação de barra um caçador ouvir os gritos da menina, salvá-la e ainda abrir a barriga do lobo para tirar a vovozinha ainda viva de lá? Fala sério... Outro caso: na história dos irmãos Grimm, a madrasta da Branca de Neve não caiu do penhasco (como no desenho da Disney): na versão alemã, ela foi obrigada a dançar com um par de chinelos de ferro em brasa, até cair morta, em plena festa de casamento da princesa!

* * *

Pesquisa realizada pelo psicólogo americano Lisl Goodman, publicada no livro "Death and the Creative Life", de 1981, mostra que o medo de morrer está fortemente ligado a uma frustração perante a vida. Entrevistas realizadas com centenas de pessoas entre 17 e 70 anos revelaram que as mais temerosas da morte eram justamente as que não haviam concretizado seus projetos. Segundo Goodman, "para esses a vida tinha sabor de uma obra inacabada".

Contudo, como nos ensinaram os Rolling Stones, "I can't get no satisfaction". Na falta do que fazer, sempre arranjamos algum motivo para nos apegar à vida. Eu quero ver o pôr-do-sol de amanhã, sentir a brisa de cada manhã no rosto, chupar jabuticaba, correr descalço pela grama, dançar em frente ao espelho, beijar outros lábios, nutrir novos sonhos e esperanças. Enfim, viver.

* * *

A ciência avança. Os progressos da medicina, os estudos do Projeto Genoma e os novos remédios que prometem retardar o envelhecimento fazem com que deixemos de pensar em nossa finitude. E, se ela vier enfim, há quem se creia na criogenia como um meio de sobreviver à própria morte.

Robert Ettinger, professor de física da Universidade de Michigan, escreveu em 1964 um livro intitulado "A Perspectiva de Imortalidade". A obra lançava um conceito polêmico: se, logo após a morte de uma pessoa, seu cadáver fosse imerso em nitrogênio líquido interrompendo-se o processo da decomposição), seu corpo poderia ser mantido até um futuro em que seja desenvolvida uma tecnologia capaz de reanimá-lo para a vida. Crentes nessa técnica popularmente conhecida como criogenia, cerca de 130 pessoas estão congeladas dentro de cápsulas de aço, de cabeça para baixo e mantidas em nitrogênio a uma temperatura de 196 graus negativos (especula-se que, olha ele aí novamente, Walt Disney seja uma delas). Contudo, esta opção é para poucos: o custo para o congelamento e manutenção de um corpo é de 120 mil dólares.

Mas sobreviver à própria morte não necessariamente requer fortunas. Mesmo porque ninguém (com poucas exceções, como a do ex-presidente João Figueiredo) deseja ser esquecido, e passar a eternidade em uma lápide empoeirada e sem flores no dia de Finados. Através da arte, poetas, pintores, escultores e cineastas alimentam o vão desejo de permanecer para além da vida, criando obras que possam sobreviver a suas mortes físicas, assim como há aqueles que criam instituições ou museus perpetuando seus nomes (vide Alfred Nobel e John Rockfeller). A luta contra o olvido post-mortem faz parte da condição humana.

* * *

Talvez tudo fosse mais fácil se agíssemos como certas ordens católicas em que os monges, ao se encontrarem nos corredores de um mosteiro, cumprimentam-se com a expressão "memento mori". Que significa, em latim, "lembre-se de que você vai morrer". A saudação, longe de ser pessimista, funciona como um exercício espiritual de aceitação da própria morte. Mais do que isso: é um lembrete para investir na vida.

"É preciso viver cada dia como se fosse o último". O clichê é verdadeiro: aceitar a morte significa aprender a valorizar cada momento presente. Talvez o exemplo maior tenha sido dado pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho. Que, consciente da proximidade de seu fim físico, soube viver com muito mais intensidade e generosidade.

Mais do que a morte, é preciso dissipar em nós o medo de viver. Recordo aqui as palavras de Oscar Wilde: "São poucas as pessoas que realmente vivem; a maioria delas apenas existe".

P.S.: este texto foi publicado originalmente no Spam Zine edição 082.

Escrito por Alexandre Inagaki em novembro 2, 2004 10:58 AM

Comentários

Correção: "bater as botas" é um disfemismo e não eufemismo, já que carrega em si um conceito pejorativo.

Comentário de Navegador em novembro 15, 2004 12:13 AM

Oi,

Passei por aqui e acabei copiando um fragmento do seu texto. Se quiser ver como ficou e sugerir a remoção dele se for o caso, é só visitar o endereço indicado.

Paz e bem!

Comentário de Marcelo Luiz em novembro 13, 2004 12:32 AM

O pior da morté é...

Morrer e não ser lembrado....

Esse é o medo maior do ser humano...morrer e não simplesmente viver!

Comentário de Bruno Marinho em novembro 10, 2004 09:37 AM

Prefiro pensar que a morte é parte de um processo de mudança de estado. Que existem outras dimensões além desse espaço físico que conhecemos. Escrevi alguma coisa sobre isso em http://dulcevasconcelos.multiply.com/journal/item/8"

Beijo.

Comentário de Dulce Vasconcelos em novembro 6, 2004 11:30 PM

Viver como se fosse imortal.Fazer de conta. Brincar de ser eterno. Enquanto isto ela está ao lado, na frente e atrás, indiferente.Deveria se ensinar a morrer. Como morre uma árvore.Como cai uma folha da árvore.Naturalmente.Sem pesar.Nascer deve ser bem mais doloroso que morrer.Como dizia um filósofo - não me lembro qual - "A morte não é um mal; o mal é o medo da morte."
Porque, mesmo assim, ainda dói tanto?

Comentário de Teuska em novembro 6, 2004 12:43 PM

Aí está. Você escreve um post sobre a questão da morte, do medo da morte. Pesquisa, cita, é claro, e ...Quantos comentários? No entanto no post anterior, foi como vimos todos. O que demonstra porque a mídia valoriza o acontecimento. Sim, sim, uma coisa alimenta a outra. Mas vc por exemplo, não estava correndo atrás de
"audiência", porém a obteve, em manifestações, pelo menos, mais do que neste.
Ou seja, há a curiosidade sobre a morte, o conhecimento de todos que todos morreremos, a necessidade - expressa de muitas maneiras- de controlá-la ( como por exemplo, a criogenia, ou ironizando, ser escritor: ). As religiões, as crenças, mesmo as orientais, oferecem um modo de driblar a morte (e digo isto respeitosamente, não acho condenável) com outras vidas, outros patamares, recompensas,nirvanas, etc. Penso que, de certa forma, a comoção, a curiosidade sobre os detalhes de uma morte assim, presenciada ao vivo, acaba por trazer indiretamente ( e não estou defendendo!) a oportunidade das pessoas pensarem no assunto. Lembrarem que são mortais.
Concordo com vc, falar seriamente sobre isto, nos confronta com a nossa brevidade mas também com a vida. Pessoalmente acho que a morte não é para ser aceita, o que me parece que precisamos é saber que acontecerá. Há que se saber que a vida é curta, curta. Ainda que os jovens não percebam isto ( eu tb não percebia, mas não me demorei a fazê-lo ). E que não devemos desperdiçá-la, o tempo é pequeno demais para detalhes desimportantes. Percamos nosso tempo com o que realmente importa, o que na verdade não é bem perder tempo.
Um abraço,
Silvia

Comentário de Silvia Chueire em novembro 4, 2004 05:59 AM

Olá!
Gostaria de saber onde (livros ou sites) posso encontrar os contos de fadas em suas versões originais, como o exemplo em seu texto.

Obrigada!
Erika

Comentário de Erika em novembro 3, 2004 08:35 AM

Carpe Diem!

Pq é tão difícil tornar isso realidade?

Abraços.

Comentário de Bea em novembro 3, 2004 03:04 AM

Mais uma obra-prima. Parabens!

P.S.: Obrigado pela forca no meu blog. Alias, como vc me descobriu?

Comentário de Fabio em novembro 2, 2004 11:14 PM

Prezado Inagaki;
Seu texto é uma epítome!
Muito verdadeiro!
Parabéns escriba!

Comentário de Bion em novembro 2, 2004 10:47 PM

E eu sempre pensava
Se um dia estiver datado o dia da minha morte, vou fazer tudo o que sempre quis fazer, vou ser bom, estudar, destruir as minhas viadices/frescuras, sorrir, escrever muito, dizer que a amo.
E, triste, parece que eu ainda espero que Ela seja datada para eu fazer todas as coisas.

Comentário de Vitor Bustamante em novembro 2, 2004 07:13 PM

Conversava há pouco com uma amiga exatamente sobre a história do Betinho, uma pessoa que nunca pôde se enganar a respeito da morte. E que teve uma reação absolutamente positiva a isto: se podia morrer a qualquer momento, escolheu fazer tudo que fosse possível naquele exato instante! De pensar da possibilidade de reação oposta: "se posso morrer a qualquer momento, melhor morrer logo pq dá menos trabalho". Não que não seja humano, mas a escolha de não desistir de viver, gastando o resto do tempo na terra fazendo algo além de respirar sempre impressiona.
Abraço,

Comentário de Raquel em novembro 2, 2004 06:33 PM

Eu não tenho medo da morte, apenas curiosidade em relação à ela. Até porque sofri um acidente no qual fui ''ressucitada'' através de choques na UTI.
Mas já passou, só que vejo que as pessoas tem dificuldade em lembrar daquele dia como se a morte fosse vir só de lembrar, quando poderiam lembrar dele como o dia da vida, afinal, foi o dia em que a vida falou mais alto, ou quando eu nasci de novo.

Comentário de Anrikla em novembro 2, 2004 03:18 PM

Achei o final perfeito!
É simples assim, né? Não, não é, mas é assim como vc. descreveu. Duro e verdadeiro. Valorizar a vida não é facinho, bem como aceitar a morte pode não ser tão doloroso. Quando "quase morri" não foi tão difícil; assumo que hoje ter que "valorizar cada segundo de vida" é mais complicado... E geralmente a morte é muito difícil para quem ama o que se foi.

O que eu não entendo é a frieza de certas pessoas - não em relação à morte, mas à VIDA. Algumas observações de comentários do post abaixo deixam interrogações em minha cabeça... sei lá, cadum cadum :v))))

Comentário de Giniki em novembro 2, 2004 02:14 PM

Oi Ina,
na verdade não podemos generalizar "nós ocidentais". Seria mais correto dizer "nós ocidentais a partir do século XVIII". Antes, a morte não era tão assustadora assim e as pessoas não morriam longe de seus parentes. Para essa história da relação entre nós ocidentais e a morte, tem o ótimo História da morte no Ocidente, do Phillippe Àries.

Oi Chris, concordo com a sua ressalva a respeito do século XVIII, mas veja que o meu texto já se refere a essa mudança de paradigma ao longo dos séculos no trecho em que cito como os finais dos contos de fada foram "adaptados". E, sim, eu tenho esse livro do Phillippe Àries aqui em casa. :)

Comentário de Chris em novembro 2, 2004 01:00 PM

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