Rogério Duprat (1932 - 2006)

Quando fiz, em março de 2004, uma lista dos 10 melhores discos de música popular brasileira de todos os tempos, citei o nome do maestro Rogério Duprat, falecido na noite de ontem, nos textos que escrevi sobre aqueles que elegi como os dois melhores álbuns de MPB, a saber:
1) "Tropicália ou Panis Et Circencis" (1968). Ouça uma balada com a beleza de "Baby". Pense nos recortes justapostos das letras de Capinam, Torquato Neto, Tom Zé, Gil e Caetano, retratos do contexto conturbado de tempos imediatamente pré-AI-5. Viaje com os fantásticos arranjos de sopros e cordas criados pelo genial Rogério Duprat. Deleite-se, com sorriso nos tímpanos, ao ouvir as subversivas regravações de "Coração Materno" (de Vicente Celestino) e do Hino do Senhor do Bonfim, e a maviosa voz de Nara Leão em "Lindonéia". E desfrute, enfim, de um álbum-conceito que consegue ao mesmo tempo soar assombroso e acessível, experimental e pop, caótico e coerente, renovador e assobiável.
2) "Construção" (1971) - Chico Buarque. Um dos maiores, senão o melhor de todos os letristas da MPB, imortaliza aquela que talvez seja sua obra-prima em versos na música que dá nome ao álbum. Em plena era Médici, "Construção" traça um retrato concreto (e, ao mesmo tempo, um desenho mágico) da realidade embotada do trabalhador brasileiro, em versos proparoxitonamente antológicos. Mas, para além de "Construção" e de sua canção-irmã "Deus lhe Pague" (ambas com arranjos do mestre tropicalista Duprat), Chico gravou ainda outras canções que merecem lugar garantido no cânone de sua obra, como "Cotidiano" ("Todo dia ela faz tudo sempre igual/ Me sacode às seis horas da manhã/ Me sorri um sorriso pontual/ E me beija com a boca de hortelã"), "Desalento" e "Valsinha".
Rogério Duprat, nascido no Rio de Janeiro em 7 de dezembro de 1932, tornou-se regente e compositor na cidade em que se radicou desde os anos 50, São Paulo. Estudou música no exterior com nomes renomados como o maestro francês Pierre Boulez e o compositor alemão Karlheinz Stockhausen. De volta ao Brasil, ganhava a vida lecionando música, tocando violoncelo no Teatro Municipal e compondo trilhas sonoras para filmes (é dele, por exemplo, a trilha de "Noite Vazia" de Walter Hugo Khoury), até que, em 1967, foi apresentado a Gilberto Gil pelo maestro Júlio Medaglia. Do encontro com Gil, surge sua primeira colaboração com os tropicalistas: o arranjo de "Domingo no Parque", apresentado no 3º Festival de Música Popular Brasileira da TV Record.
Além de participar do histórico álbum "Tropicália ou Panis Et Circencis", Duprat colaborou em discos de artistas como Caetano Veloso, Mutantes, Rita Lee, Nara Leão, Gal Costa, Alceu Valença e Gilberto Gil. Também realizou trabalhos menos conhecidos como os arranjos que fez para o excepcional álbum que Erasmo Carlos gravou em 1971, e que contou com a participação de músicos como Liminha, Sérgio Dias e Lanny Gordin.
Outro trabalho marcante de Duprat foi a produção do álbum de estréia de Walter Franco, conhecido como "Ou Não" ou o "disco da mosca", lançado em 1973 e definido, pelo crítico Tárik de Souza, como "o mais ousado projeto sonoro autoral de nossa música popular, inclusive em nível de vanguarda internacional". Depois passou um período compondo jingles, fundando ao lado de nomes como Guarabyra e Luiz Carlos Sá o estúdio Vice-Versa. Por conta de uma progressiva perda de audição, Duprat afastou-se da cena artística (sobre esse problema de saúde, Júlio Medaglia comentou, ironicamente: "infelizmente ele se desencantou com a porcaria que a música brasileira virou depois dos anos 60 e 70, e preferiu ficar surdo. Foi um protesto contra a barbárie").
Os últimos trabalhos de Rogério Duprat foram os arranjos para "Tempo/Espaço" (música gravada por Lulu Santos no álbum "Liga Lá", de 1997) e "O Gosto Azedo" (do "Acústico MTV Rita Lee", de 1998). O maestro morreu aos 73 anos de idade, deixando um legado como poucos na história da MPB. Faço minhas as palavras de Carlos Calado: "sem Duprat a música brasileira vai ficar mais óbvia e careta".
Leituras recomendadas: "Duprat, o maestro da revolução" (Fernando Rosa e Alexandre Matias), "A Banda Tropicalista do Duprat" (Rodrigo Almeida) e "Entrevista: Rogério Duprat" (Tom Cardoso).
Comentários
Um luxo este post. Merecidíssima homenagem a um gênio.
Parabéns, Ina. Ainda bem que cheguei a tempo de ler.
Desabafado por Milton Ribeiro | 31 de outubro de 2006, 14:11
Ola! Uma pergunta "off-topic" rs... o site GoEar.com é o youtube.com dos audios?? Ou tu conhece algum outro que tenha taxa mais rapida de streaming. Pergunto, pq depois da chegada do youtube, fiquei pensando como um similar apenas para audio, faria sucesso... imagine vc conversando com amigos via msn ou email, dai mencionam uma musica que um nao sabe, atraves de um link ja mostram a musica...
Morales, eu pesquisei vários sites que pudessem me dar a opção de disponibilizar músicas para serem ouvidas em streaming, e o único (até agora) que encontrei foi o GoEar. Das outras opções, o CastPost está fechado para novas inscrições, o RadioBlogClub requer que você possua servidor próprio para uplodear suas músicas e todas as vezes em que tentei subir um arquivo no Evoca foram frustradas por mensagens de erro. Portanto, outras sugestões de sites que ofereçam serviços similares serão muito bem-vindas. :)
Desabafado por morales | 30 de outubro de 2006, 22:03
Assisti dia desses um show do Terço que contou com a presença do filho de Rogério Duprat, Ruriá. Pelo visto, o moçoilo segue os passos do pai.
Desabafado por MarcosVP | 30 de outubro de 2006, 10:58
Legal. Participar de obras-primas como Construção, Domingo no Parque e as músicas do Tropicália ou Panis et Circensis não é pra qualquer um. Triste perda.
Desabafado por Raphael Perret | 30 de outubro de 2006, 00:22
Sabe toda ida é sempre uma pena... por outro lado quando olhamos para uma vida em que foi feito um trabalho como o dele é para pensar-mos: sim vale a pena.
E como diria Drummond: "de tudo fica um pouco". No caso do Duprat de tudo fica muito e tende a se multiplicar em influencias pelo mundo da música a fora.
beijos pra ti, Ina
Não lembro quem disse que toda morte é prematura. No caso de alguns, mais prematura ainda. Beijo, Marcela!
Desabafado por _Maga | 28 de outubro de 2006, 23:36
Legal esse post multimidia. Pela homenagem ao maestro, por me lembrar de músicas que eu amo e e pela novidade do goear.
Perguntinha: quem veio antes? Construção do Chico ou The Logical Song do Supertramp? http://www.youtube.com/watch?v=vzCNTQjrzik
As duas exploram as proparoxítonas, embora Chico tenha sido mais radical.
Coincidências criativas. De qualquer modo, fica o registro: "Construção" é de 1971, enquanto "The Logical Song" é de 1979. Um abraço, Mr. Contaifer!
Desabafado por Bear | 28 de outubro de 2006, 23:10
Nada contra a política, mas é bom mudar os ares de vez em quando. :)
Não se preocupe, Felipe. Uma das melhores coisas de se ter o próprio blog é a liberdade de pautas. E posso lhe garantir que variedade de assuntos é a prática da casa. Um abraço!
Desabafado por Felipe | 28 de outubro de 2006, 19:37
Só o fato de Duprat ter sido o responsável pela união entre Gil e os Mutantes, já seria motivo de sobra para a MPB decretar luto de três dias.
gd ab
Desabafado por JULIO CESAR CORREA | 28 de outubro de 2006, 16:04
Prezado Ina
Que bom que vc já conhece o www.goear.com
Simplesmente fantástico!
Ecco, é vero. Goear caminha para ser o Youtube dos áudios.
Desabafado por Bion | 28 de outubro de 2006, 13:55
Sei que política é importante, mas convenhamos:é um alívio termos, finalmente, um outro assunto para discutir.Afinal, falar dessa politica(lha) de nossa querida amada idolatrada salve-salve terra-=pátira cansa!
Felipe, política é imprescindível para o nosso cotidiano, e eu voltarei ao assunto muito em breve, para seu pesar (ou não). :D
Desabafado por Felipe | 28 de outubro de 2006, 11:32
Sob Duprat, até os caretas eram revolucionários, e os revolucionários, geniais. Com o maestro morreu a música - sorte é que, de vez em quando, ela ainda ressuscita. Abraços!
Desabafado por Cláudio Rúbio | 27 de outubro de 2006, 22:44
Grande perda. Coincidência ou não, estava justamente escutando o "disco da mosca" na hora em que me ligaram avisando da morte do maestro. Pena.
Desabafado por Bruno Ribeiro | 27 de outubro de 2006, 22:24