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maio 15, 2006

Slumming

Ontem foi o primeiro dia realmente californiano do ano. No sentido do estereótipo terra-do-sol / céu-azulão. Tirando a metade de baixo (LA, San Diego), o estado tem as quatro estações do ano bem delimitadas como qualquer outra região temperada que se preze. Domingo foi tropical, mais de trinta graus e uma luminosidade tão forte que eu não conseguia olhar pra frente sem espremer os olhos mesmo usando óculos escuros.

Dia de sair na rua, aproveitar a primavera. Tudo está florido, até coisas que achei que não davam flores: todos os gramados, plantas no meu jardim que julgava mortas, até as ervas daninhas que crescem nas calçadas entre os blocos de concreto dão umas flores roxas bonitinhas. Eu fui nessa, o resto da cidade também (aproximadamente um milhão de habitantes) e algo que parecia como três milhões de turistas. Um povo de chinelo e camisa colorida que brotou da terra e criou filas em todos os cafés do centro e da orla da baía.

Eu não queria andar na parte turística mesmo, Fisherman's Wharf, nem com os playboys da Marina ou com os shopaholics de Union Square. Estanva tentando descobrir se algum resquício da parte bocada charmosa de São Francisco, a Barbary Coast, ainda existia.

Tirando alguns quarteirões a oeste de Union Square, conhecidos como Tenderloin, não existe bocada em São Francisco. Mesmo os bairros mais afastados, onde os urbanóides acham que vão ser degolados na machadinha, são mais seguros que qualquer bairro de São Paulo.

Mas existem bocadas e bocadas. E não há boemia de respeito num lugar tão arrumado que às vezes parece a Disneylândia. Slumming é o nome que se aqui para a prática de apreciar a boca-quente, de ir atrás da "vida como ela é", ficar chocado, tirar umas fotos legais e depois voltar pro Lexus e sentar o pé na tábua de volta pro bem-bom. Pelo menos é melhor que viver nos subúrbios e achar que todos os problemas do universo de resumem à "devo comprar um xbox agora ou esperar o novo playstation". É por isso que os gringos no Rio fazem tour da Rocinha. Eu achava idiota, mas quando você mora aqui dá pra entender.

É por isso que todo mundo gosta da Boca, em Buenos Aires, ou do Soho em Londres, Monmartre em Paris, Lower East Side em NYC e mesmo os casarões da Luz, em São Paulo (eu ainda gosto). É podrão, mas se arrumassem tudo perderia a graça.

O equivalente em São Francisco era a região conhecida como Barbary Coast. Uma mistura de bordéis, cassinos e bares da pior espécia foi por mais de 70 anos a meca da malandragem do velho-oeste. Da corrida do outro em 1849, passando pelo grande incêndio e terremoto de 1909, nenhuma outra quebrada do mundo tinha mais encrenca para oferecer que essas vinte quadras de Telegraph Hill até a Market Street. Foi a gênese de tudo o que é bizarro e pop hoje: piratas bêbados, chineses de bigodinho e rabo de cavalo lutando kung fu, pistoleiros, duelos, mineiros apostando sacos cheios de pepitas na roleta, dançarinas de cancan e vinho misturado com Spanish Fly.

Mas praticamente nada resistiu ao tempo. As prédios de tijolos vitorianos nas piores ruas e becos do hemisfério ocidental ainda resistem, mas hoje são boutiques da Cartier e Armani. Ironia imensa que o maior antro de vício do continente tenha virado a área de compras mais sofisticada da cidade.

Não existe tanta graça em passear e tirar fotos em lugares centenários, mas tão ajeitados que poderiam ter sido construídos ontem. Dá saudade de ver tinta descascando e paralelepípedos tortos no chão, mas pelo menos quando o sol aperta muito dá pra sentar numa sombra que não foi usada como banheiro por alguém, ou ter a segurança de que piratas não vão colocá-lo no porão de um navio rumando pra Shangai, como era corriqueiro em 1880. No final das contas, quando dá saudade de uma terra-sem-lei, sempre tem um cinema passando Eastwood.

maio 12, 2006

SFO > GRU

Um amigo meu havia comentado isso um dia. Quando voltara para Londres, sua cidade natal, depois de um ano longe, não foi preciso mais que dois pints de Stella para que a longa ausência aparentasse ter sido, na verdade, apenas um longo fim de semana.

Comigo foi mais ou menos essa a impressão, após uma a breve visita de uma semana. E eu não sei ainda se é bom ou ruim, mas é confortável. Estava ansioso pela possiblidade de estar perdendo o assento de janela para assistir o... progresso? Sei lá progresso do quê, mas em geral a esperança é que as coisas progridam. Os amigos, a família, a cidade, coisa e tal.

Talvez a impressão de que o tempo parou seja exacerbada pelo fato de que, para quem muda de país, o ajuste seja tão estressante e radical. Qualquer coisa menos chocante que colegas passando em seis meses de pacatos ratos de escritório para pugilistas mascarados da luta-livre mexicana fica com cara de slow-motion.

Pera lá, então eu ainda sei dirigir no trânsito caótico, eu ainda sei que buracos existem, e sei desviar deles. Eu sei que é pra trancar o carro e não confiar no sinal verde de pedestres... Como é que é? Ainda tem uma cratera no Largo da Batata e outra na Fradique? Acho que vou ter de me contentar em umas ruas recapeadas e um prefeito que eu nem sei o nome.

Mas enfim, eu nem vim pra isso, eu vim para matar saudades das pessoas. Pra isso, o quanto mais "como antigamente" possível, melhor.

Agora, só mais uma coisa: quer dizer que aquele alargamento da Rua das Olimpíadas ainda não rolou? Vejamos da próxima, que ainda bem não está assim tão longe... Afinal meu estoque de paçoquinha Amor não vai durar muito.