Uma sucessão de perdas, falhas e azares como há muito eu não via. Um monstro frio, cinzento e chuvoso que extendeu seus tentáculos até o início de fevereiro. Mas que passou, junto com uma bem-vinda primavera adiantada.
Um dos piores apertos, sobre o qual vou comentar por razões educativas, foi uma enrascada financeira sem precedentes. Para mim, pelo menos.
Durante a virada do ano, o ritmo da minha vida ainda era de adapção: mobiliar casa, acertar a vida, acostumar-se ao trabalho novo. Um grande caos com alguma tentativa de método. Tudo foi feito sob a máxima na medida do possível.
Foi nessa que eu aprendi, do jeito difícil, uma das implicações de morar num país de juros baixíssimos: as pessoas não têm pressa de botar dinheiro no banco. Afinal, com 1% ao ano, que diferença faz hoje, amanhã ou um dia desses?
Em algum momento entre as festividades natalinas, lembro de olhar meu saldo e pensar com meus botões algo digno de um epitáfio no Darwin Awards. Um flash, na mesma linha de "trem, que trem?" e "olha só o que eu sei fazer". Eu pensei "olha, tem mais dinheiro na minha conta do que eu imaginei, que legal, deve ser um bônus ou algo assim"
Obviamente a alegria e a gastança acabaram quando a proprietária da minha casa resolveu depositar três cheques de aluguel ao mesmo tempo. Sim, ela prefere ir ao banco uma vez por trimestre. E olha que aqui os bancos não têm fila nem detector de metais... Nem queira saber quanto morre no aluguel de uma casa no lugar mais caro dos EUA depois de Manhattan. Vezes três.
Eu, o forasteiro sem histórico de crédito portanto sem cheque especial borrachei os aluguéis. Eu, o forasteiro sem histórico de crédito portanto tentando pagar tudo certinho estou praticamente no Serasa do Tio Sam. Se tem uma coisa pior que crédito inexistente, é crédito ruim. Maravilha pura.
Pelo menos posso cobrir o que faltou, minimizando o vexame, usando meus maravilhosos cartões de crédito brasileiros cheios de limite. Porque aí ninguém liga se você pode ou não arcar com um limite de um zilhão de reais. Certo?
Não tão rápido, gafanhoto. Pois exatamente na mesma semana recebo uma ligação dizendo que meus dois cartões de crédito foram clonados. Algum malandrito foi pego fazendo o rapa nas Lojas Americanas às custas do meu ex-bom nome na praça. Maravilha pura II, cartões cancelados.
O que sucedeu foram algumas péssimas semanas de pindaíba absoluta. Eu me senti como o Zeca Carioca, fugindo dos credores até que uma movimentação super trabalhosa de investimentos e contas, de dar inveja em trafica de drogas fugindo da Interpol, pôs ordem na casa.
Não foi assim caso de passar fome. Mas para alguém cujo ganha pão é basicamente ser organizado (gerência de projetos), foi patética a extensão da falta de planejamento. Coisa digna de caipira que se dá bem em Vegas e depois de uma semana de festança aparece com a boca cheia de formiga no deserto ao redor de Barstow. De ficar em casa porque não tem dinheiro para colocar 10 mangos de gasolina no carro novinho. De comprar janta no "one dollar menu" e comer na frente da TV de plasma. Tudo… porque… nego acha NORMAL esperar 90 dias pra descontar um cheque NÃO-pré-datado.
Então basicamente eu fiquei de mau-humor o mês inteiro até a situação ser resolvida. Peço desculpas por não ter dado muito sinal de vida. O que eu aprendi? O de sempre, trust no one. Aprendi que o dia é mais ensolarado quando você não deve dinheiro pra gringo preguiçoso. E que pra curtir a vida adoidado faz bem gastar dois minutinhos a mais e checar o seu saldo.
Save Ferris, back to normal.