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setembro 24, 2008

por onde andarão os vendedores de enciclopédia?

Às vezes vinham em dupla. Era infalível. A gente sabia pelos ternos e pelas caras, mais as maletinhas de couro que eles vendiam a Britânica ou a Barsa.

Homens, entre 25 e uns 40 anos, tipos medianos. Bem falantes.

Eu ficava encarregada pela mãe e/ou pai de dizer-lhes não na porta. Com pena, mas é que tanto a Barsa como a Britânica eram caras pra gente. Então a gente tinha na estante uns genéricos delas, mas nada que se lhes comparasse.

Nos trabalhos da escola eu invejava quem copiava da Barsa ou da Britânica. Quando dava, eu ia até a biblioteca municipal pra copiar, eu também. Minhas aulas de história da época só fizeram melhorar minha letra e, mais tarde, minha datilografia.

Por onde andarão os vendedores de enciclopédia?

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setembro 15, 2008

reflexões fisiologico-filosóficas noturnas

A bexiga pesa. Como sei que é a bexiga que pesa? Porque estou com vontade de fazer xixi.

A gente fica com vontade de fazer xixi quando a bexiga está cheia. E se ela está cheia, deve pesar mais do que se estiver vazia. Então, se ela está pesando, deve ser porque estou com vontade de fazer xixi.

Mas tenho preguiça. Aqui está quentinho, abrigado, aconchegante, por que sair?

Porque a bexiga pesa. Eu sei. Já disse isso. Você também já sabe, se não for surdo, quer dizer, analfabeto ou cego. Porque já leu isso.

E se eu não levantar? Qual a chance de fazer nas calças?

Depende. Depende dos critérios utilizados pra fazer essa conta.

Se for história de vida, as chances serão muitas. Por preguiça ou por bexiga cheia até o limite, fiz – de vez em quando, é bom que se diga, pra livrar parcialmente a minha cara – até mais ou menos uns 10 anos. É triste, mas é verdade. Não há porque esconder mais esse segredo. Que, aliás, nunca foi segredo pra ninguém em casa. Embora todos disfarçassem pra não constranger a mijona, no caso, eu.

Se o critério for minha idade atual, então posso ficar mais um bom tempo no quentinho da cama. Já passei há um bocado dos dez anos, mas ainda não cheguei à idade em que não dá tempo de levantar. Ou em que você nem lembra por que cargas d’água teria que levantar.

Meia idade. Tá bom, já passou um pouco da metade. Só um pouco.

Mas a bexiga pesa. Minha consciência, por vezes, também. E nem por isso eu levanto pra fazer atos de contrição. Até porque consciência pesada não molha a cama nem incomoda quem estiver ao lado. A maioria nem percebe. Às vezes, nem eu mesma percebo.

Só quando a insônia bate.

Ou quando vem aquela vontade de fazer xixi e você fica fazendo hora pra ver se passa. E lembrando as coisas da vida. E aí quem pesa – só de vez em quando – é a consciência.

E afinal, uma vez que é muito mais fácil levantar e fazer xixi do que esvaziar consciência pesada, você acaba indo.

Fazer xixi.

Aí a bexiga volta a ficar vazia.
Já a consciência...

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setembro 12, 2008

medões e medinhos

O primeiro medo a gente nunca esquece. Bobagem! Eu me lembro de quase todos. Porque medo é comigo mesma.

Mas vá lá: o primeiro foi de colégio interno. Isso mesmo: minha mãe me ameaçava umas duas ou três vezes por dia de me “botar em colégio interno” se eu não me comportasse. Eu tremia nas bases.

Nunca tinha conhecido ninguém que tinha ido pra esses colégios- a maioria de padres ou freiras – nem ninguém que tinha voltado deles. Era pra mim uma espécie de buraco negro, engolidor de crianças mal-comportadas, obrigando-as a rezar terços e mais terços ajoelhadas no milho. Meda!

Depois vieram os medos de meu pai perder o emprego e a gente vir a passar fome. A situação já não era boa, nunca foi, mas se ele perdesse o emprego, pioraria muito mais. Eu era magra como um termômetro, mas comia pra caramba. A hipótese de não ter o que comer me enchia de terror.

Mais tarde, de moça, o medo de “ficar pra titia”. As titias eram ironizadas, hostilizadas, ridicularizadas. Pra combater esse medo eu dizia que iria “virar” uma intelectual. Dessas de ganhar prêmios. Essas não eram cobradas por casar ou não casar. Queria virar escritora, veja só!

Com a maturidade os medos foram deixando de ser aqueles que me botavam. A coisa ficou muito pior.
Com a maturidade, eu mesma passei a me botar medos. E foram – e são – tantos!!

Medo do vestibular, medo das pessoas queridas terem problemas de saúde, medo de falhar como mãe, medo de não ser feliz, medo de dores em geral, medo de ter medo numa certa época. Pânico de ter medo.

Hoje a coisa amainou. Resta o medo de não ter tempo pra fazer coisas boas. Medo afinal de que o bicho papão ou o homem do saco venham me buscar antes que eu faça os milhares de coisas que quero fazer, agora que os outros medos foram embora.

Foram embora médio: o medo de filme de terror depois das seis da tarde ainda persiste.

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setembro 8, 2008

bichos do caminho

Não gosto de todos os bichos. Tenho horror a aranhas e não vou com a cara (nem com todo o resto) de lesmas em geral.

Não posso negar uma aversão aos muito pequenos (pulgas) ou aos muito grandes (baleias).

Um certo medo aos muito cheio de pernas ( lacraia, centopéia) e aos falto delas (cobras).

Mas existem os que vejo por aí. No caminho da fé, por exemplo, do qual acabei de fazer mais um trecho.

Eu sou calma. O caminho é grande, quase quinhentos km, mas eu não tenho pressa. Vou de 100 em 100.
E por lá a gente vê bichos. Pássaros em geral, tucanos, e corujas. Adoro corujas. Uma questão de corporativismo ou solidariedade, sei lá. Meu apelido de pequena era esse mesmo: coruja, por enxergar mal. Mas, tal como a coruja, (que, aliás, enxerga muito bem) eu prestava uma atenção danada...

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Vi também um monte de vira-latas, minha paixão maior. Eles não me falham: é só dar um aceno, mandar um beijinho, que eles vêm rapidinho. E ficam se roçando, acarinhando, olhando olho no olho. Se os homens também fossem assim...

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Porcos eu não gostava. Na realidade, não gosto da forma como muitos são criados. No meio daquela “porcaria” toda. Porco é bicho esperto. Limpo, como a maioria dos bichos. Não precisa chafurdar na lama nem comer só restos. E ainda por cima vir a ser hostilizado por isso. Vimos uns bem apanhadinhos. Pena que se destinem à mesa. Ou seja, à morte rápida e certa.

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E cavalos e vacas. Uns, os cavalos, arredios. Eu chegava perto e eles fugiam. Olhando de soslaio. Já as vacas, gordas e lustrosas, era só ouvirem os passos no caminho pra virem correndo (na medida do possível para uma vaca) perto da cerca. E ficarem nos acompanhando com o olhar, como a desejar boa viagem. Também destinadas à mesa. Em forma de carne ou de leite.

vacaxereta.jpg Até burro. Pequeno, branquinho. burrinho.jpg

O que eles devem achar da gente? Animais estranhos, sem pelo nem pena, mal apetrechados, tendo quatro pernas, só usando duas, falando cada um uma língua... Tão presos quanto os mais presos, matando à toa, morrendo à toa, vivendo à toa.

E destinados igualmente à mesa. Porque por aqui, comemo-nos uns aos outros, em todos os sentidos.

setembro 2, 2008

ruínas da fé

Um dos livros que mais gostei de ter lido, principalmente na época em que li, bem próxima à minha primeira comunhão, com uns dez anos, foi “a relíquia”, do Eça de Queiroz.

Bem sei que Eça de Queiroz não é propriamente leitura para essa idade, mas a gente tinha a coleção completa em casa e ninguém recomendava, tampouco proibia que eu lesse qualquer coisa.

A única coisa que eu não podia ler, e muito menos comprar, era gibi. Minha mãe tinha birra com gibi. Mas dos livros que havia em casa ela nunca leu nenhum. Então, eu escolhia aleatóriamente. Cheguei ao Eça sem querer, mas em seguida li tudo querendo.

O Eça não era chegado em padres. Eu tampouco.

Acabo de vir de uma caminhada pelo interior. Trilha em estradas vicinais e no meio do mato ou de plantações em fazendas.

Lá pelas tantas, encontramos uma mulher, igrejeira, com sua respectiva igreja, enorme, bem ao lado de sua casa.

Digo SUA igreja, porque era dela mesmo. Construída por ela.

Os padres que ali vinham rezar missa, vinham a pedido dela. E a mulher, educada e estudada, deu pra falar sem parar de sua fé. Antes perguntou se a gente tinha alguma religião. Ante a resposta negativa, começou a falar da dela.

De quantas ave-marias rezava por mês, de quantas missas, de como eram os sorteios de santos pintados para “incrementar” as reuniões religiosas. De como eram homenageadas relíquias como as do Frei Galvão, aquele mesmo das orações pra serem comidas em papeizinhos.

Enfim..!

Eu não tenho religião, embora compartilhe de muita coisa da filosofia cristã, mas são coisas minhas. Uma mescla de ensinamentos familiares, de boa educação, de um pouco de ética, de bom senso.

Agora xiita mesmo nunca fui com nada. Talvez só com política, mas já passou, posso garantir. E aquela mulher, ansiosa e faladora, tão religiosa, mas que nem se lembrou de perguntar nossos nomes, nem se interessou pelas nossas vidas e passos, aquela mulher me cansou.

Me lembrou o Eça e a Relíquia.

Daí, continuando a caminhada ( aliás, chama-se caminho da fé) demos com este “desmanche” de imagens. Bem a calhar.

Se a mulher encontra isso é capaz de reciclar pra aumentar a popularidade de suas reuniões...

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