memórias da sala de jantar
Uma cristaleira. Dois buffets, ou etageres, como minha mãe chamava. Não sei se serão esses os nomes ou corruptelas deles. Enfim, dois móveis iguais, dispostos cada um em uma parede, enormes eles, enormes as paredes também, pé direito de 3 metros.
Em cima de um deles, um relógio Napoleão. Que, evidentemente, não funcionava.
Não funcionava como relógio, porque como casinha dos meus valetes, damas e reis de baralho, funcionava perfeitamente.
Dentro do relógio, um espaço grande que podia abrigar turmas inteiras de valetes, de bobos da corte.
E eu era dona de um reinado inteiro.
Um só, não! Quatro deles: copas, ouros, paus e espadas.
E inventava histórias, casava uns com outros, refazia sem saber a saga de Romeus e Julietas, onde os naipes diferentes faziam as vezes de famílias inimigas.
No meio da sala, como convém- ou convinha, que hoje no meio da minha não tem nada, porque não cabe- uma grande mesa de jantar. Com pés que formavam uma cabana, bastando pra isso pegar a maior toalha de mesa, daquelas que caem pelas bordas ou mesmo um cobertor. Com cobertor o sururu que a mãe armava era menor. Porque as maiores toalhas eram de linho, de festa, pra natal ou ano bom. E não podiam ser sujas nem estragadas.
Assim que casei e herdei algumas, passei adiante ou troquei uma por duas. Minha mesa atual é metade das de antigamente. O que não tem importância, porque minha família atual também é.
Decorando a mesa um vaso de Murano. Horroroso. Com flores de...lã! Horrorosas. Meu primeiro trauma estético. Inesquecível. Um dia o vaso rolou. Deixei rolar. Caiu. Quebrou.
Felicidade custa pouco. Foi duro fazer cara de triste pra mãe.
Dentro da cristaleira, louças e cristais, claro. E dentro dos etageres os conjuntos de louça “mais chic”. Havia ingleses, tchecos, chineses que a gente olhando contra a luz via uma mulher no fundo das xícaras finas como papel.
Quando eu queria treinar desenho, copiava os das louças como modelo. Achava-os lindos, queria usar todo dia. Minha mãe não deixava. Dizia que quebrariam.
Acho que ela tinha razão. Herdei um conjunto daqueles quando casei. Não durou nem o primeiro ano.
Mas foi bom enquanto durou.
Comments
Oi Maray,
Me fez lembrar as louças Willows que tinham.
Vir aqui sempre é ótimo, viajar nas lembranças e no tempo.
Posted by: mauricio planel | agosto 26, 2008 9:13 PM