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agosto 23, 2008

memórias da sala de jantar

Uma cristaleira. Dois buffets, ou etageres, como minha mãe chamava. Não sei se serão esses os nomes ou corruptelas deles. Enfim, dois móveis iguais, dispostos cada um em uma parede, enormes eles, enormes as paredes também, pé direito de 3 metros.

Em cima de um deles, um relógio Napoleão. Que, evidentemente, não funcionava.

Não funcionava como relógio, porque como casinha dos meus valetes, damas e reis de baralho, funcionava perfeitamente.

Dentro do relógio, um espaço grande que podia abrigar turmas inteiras de valetes, de bobos da corte.
E eu era dona de um reinado inteiro.

Um só, não! Quatro deles: copas, ouros, paus e espadas.

E inventava histórias, casava uns com outros, refazia sem saber a saga de Romeus e Julietas, onde os naipes diferentes faziam as vezes de famílias inimigas.

No meio da sala, como convém- ou convinha, que hoje no meio da minha não tem nada, porque não cabe- uma grande mesa de jantar. Com pés que formavam uma cabana, bastando pra isso pegar a maior toalha de mesa, daquelas que caem pelas bordas ou mesmo um cobertor. Com cobertor o sururu que a mãe armava era menor. Porque as maiores toalhas eram de linho, de festa, pra natal ou ano bom. E não podiam ser sujas nem estragadas.

Assim que casei e herdei algumas, passei adiante ou troquei uma por duas. Minha mesa atual é metade das de antigamente. O que não tem importância, porque minha família atual também é.

Decorando a mesa um vaso de Murano. Horroroso. Com flores de...lã! Horrorosas. Meu primeiro trauma estético. Inesquecível. Um dia o vaso rolou. Deixei rolar. Caiu. Quebrou.

Felicidade custa pouco. Foi duro fazer cara de triste pra mãe.

Dentro da cristaleira, louças e cristais, claro. E dentro dos etageres os conjuntos de louça “mais chic”. Havia ingleses, tchecos, chineses que a gente olhando contra a luz via uma mulher no fundo das xícaras finas como papel.

Quando eu queria treinar desenho, copiava os das louças como modelo. Achava-os lindos, queria usar todo dia. Minha mãe não deixava. Dizia que quebrariam.

Acho que ela tinha razão. Herdei um conjunto daqueles quando casei. Não durou nem o primeiro ano.

Mas foi bom enquanto durou.

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agosto 20, 2008

matrix da periferia

Filme de espião nunca foi meu forte. Ou meu fraco. (essa nossa língua ...)

Em todo caso, ser espião antigamente não parecia coisa das mais difíceis. Em caso de ser apanhado, a ordem era engolir a prova.

O que não parecia difícil. As pessoas escreviam o que tinham que escrever em pedacinhos pequenos de papel. Que, em caso de necessidade, eram devidamente comidos. A seco ou com água. Depende do filme. Nos americanos a seco. Nos europeus, com vinho. Ou champagne. Uma questão de classe...

Isso era antigamente. Nos filmes de espião da época da guerra fria, do cinema noir, daquelas coisas das quais eu nunca pensei sentir saudade, mas às vezes sinto.

Bom, isso é porque ontem saiu uma notícia no jornal que me deixou condoída.
O cara nem era espião, essa coisa glamourizada nos filmes.

Era só corrupto. Essa coisa que ultimamente dá mais que ..bom, eu ia dizer chuchu no mato, mas o chuchu também anda caro e não fica por aí, que nem antigamente, dando nos matos.
Vocês imaginem alguma coisa muito fácil, que dá muito, ora, vocês sabem!

Bom, voltando, o cara foi apanhado e engoliu a prova do crime: um pen-drive!!

Modernidade é isso aí!

Bom, soube-se depois que ele não engoliu, uma vez que nada foi revelado nos exames que fizeram no estômago dele.

Só foi achada uma tampa de pen-drive mastigada no carro da polícia.

Então das duas uma: ou o cara fingiu e jogou o resto na rua ou no bolso de um policial tão corrupto quanto, ou ele tem a melhor digestão que eu já vi, o que nem me surpreenderia tanto.

Neste país de cobras e lagartos e histórias rocambolescas, a gente engole de tudo. De sapos a pedras.

Pen-drive deve ser petisco.
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agosto 15, 2008

da arte de pendurar roupa no varal

Demorou pra eu aprender a pendurar roupa no varal. De pequena gostava de ajudar minha mãe pendurar. Ela punha as roupas lavadas numa bacia enorme de folha de flandres e eu ia pendurá-las. O varal era um fio muito alto, levantado ao meio através de um bambu, firmemente fincado na grama do quintal. Quanta coisa a gente tinha de criança! Quintal, grama, varal, bambus, e finalmente, tempo pra lavar, quarar e estender. Sem pressa. Deixando o sol fazer seu serviço.

Quando meus filhos cresceram e eu passei a trabalhar em casa, passei também a lavar e estender roupas.
No começo era o caos (epa! Acho que já iniciaram algum livro com essa frase..)! As calças eram lavadas e estendidas com os bolsos pra dentro, de forma que nunca secavam. E eu as estendia pela cintura, o que, logo aprendi, nestes tempos de calças com lycra, acaba deformando. Gastava um montão de pregadores e o aspecto geral do varal, após minha penduração, era profundamente antiestético.

Hoje não. Adquiri toda uma técnica. O varal fica bonito. Tiro os pregadores que não estão em uso pra não apodrecerem com a chuva. Porque, é claro, só uso pregadores de madeira. Aprendi que os de plástico são como roupa de baciada: colorida mas pouco durável. O único cuidado a tomar é evitar que eles caiam ao chão. Pelo menos evitar que eles caiam com minha cachorra olhando.

Gosto de estender bem esticadinho. Facilita a passagem. Ou será passamento? Não, isso parece enterro. Bom, facilita o ato de passar roupas, seja lá que nome tenha isso.

E, finalmente, gosto de olhar pro varal em dia de sol e vento. Parecem bandeiras. Bandeiras que cheiram bem.

Uma olimpíada da limpeza. ( só pra não deixar de mencionar o assunto do momento)

Uma olimpíada sediada no meu quintal.

Chiquérrimo

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agosto 8, 2008

presente

Aprendi que presente é sempre bom. Mesmo quando a gente não gosta.

Porque a pessoa se empenhou em buscar alguma coisa, escolheu, procurou, pensou em você e naquilo que você pudesse gostar, teve trabalho, quis te agradar.

Minha mãe tinha estranhos hábitos em relação a presentes. Nunca os abria na frente de quem dava. A gente estranhava, achava até um descaso, mas ela argumentava que “era feio” abrir presente na frente de quem deu. Que se devia agradecer muito mas deixar pra ver depois.

Nunca entendi isso. Acho que ela não sabia esconder muito bem a decepção. Assim, se escondia pra abrir presentes.

Sei lá! Sempre tive uma certa dificuldade em entender minha mãe.

Enfim...eu abro. Já comentei aqui que meu natal geralmente acontece antes. Porque eu não agüento esperar pra abrir nada. Então a família fica me provocando. Fazendo pacotes indevassáveis. Deixando pra por na árvore no último momento.

E eu sempre gosto. Mesmo quando não gosto.

Então, acho extremamente meigo minha cachorra vir todo santo dia com alguma coisa na boca pra me dar de presente. Logo cedo. Qualquer pauzinho ou folhinha, que ela encontra no quintal. Traz na boca e fica olhando pra mim. Abanando o rabo.

E eu sempre estimulo. Porque ela quis agradar, quis presentear, enfim, os argumentos que eu já expus.

Às vezes tenho que engolir em seco e fingir que gostei.
Porque a intenção sempre é muito boa.

Mesmo quando ela vem, como veio ontem, abanando o rabinho, me trazendo na boca um tremendo ..rato ! Morto, felizmente.

Fosse eu a minha mãe, deveria ter guardado pra abrir depois...

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agosto 1, 2008

cavalo de aço

A gente não se interessa muito por cavalos, hoje em dia.

Tá certo, o povo que se esvai em adrenalina e grana no Jocquey, até que se interessa, sim. Mas estou falando da gente- eu e você- que só vemos cavalos no interior (poucos) e em filmes.

Eu via cavalos quando era pequena. Desde que cheguei aos meus incríveis 1,66cm, já não os vejo.

Aqueles que vinham na rua de casa, direto de chácaras a beira do rio Pinheiros, entregar verduras e/ou galinhas, esses não existem mais. Nem os cavalos, que afinal isso já faz tempo e eles devem ter morrido, nem a profissão de seus donos: verdureiros, carroceiros.

Porém, de uns tempos pra cá, meses, pra falar a verdade, ando vendo cavalos. Ou burros. Que eu sou tão inexperiente no quesito eqüino que nem sei direito a diferença. Acho que é uma questão de orelhas, mas não tenho certeza.

Ando vendo-os por aí. Sem seus donos. À toa, andando à noite pelas imediações do bairro. Como eu, que também prefiro caminhar à noite.

Porém a atividade deles é o que mais causa estranheza. Andam virando latas. Sacos de lixo, que aqui o lixeiro passa à noite.

Nunca tinha visto isso: cavalos e/ou burros vira-latas.

Fico pensando no que terá acontecido. Cavalos são vegetarianos. Não comem restos de sanduíches, nem de salgadinhos, nem lixo em geral.
Estes comem.

Pra que isso tenha acontecido, muita água deve ter rolado na história deles. Muita fome, muito abandono.

Lendo hoje que, tanto na capital como no interior, as motos substituem os cavalos com vantagens e custo menor, fico imaginando que estes tenham sido largados. Substituídos por um cavalo de aço.

Custo menor.
Ou coração menor.

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