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high tech anos 50

O corpo da gente é uma espécie de máquina. Uma espécie porque nem tudo nele é previsível. Mesmo o envelhecimento. Mesmo a doença e a cura. Ou a falha final.

Mas como as máquinas, com o tempo vai se tornando obsoleto, enferrujado, falha aqui e ali.

Minha memória não é mais a mesma. Falha? Em lembrar palavras, às vezes. Em outras coisas, menos. Eu posso estar totalmente enganada- até porque acho que o senso crítico também vai ficando meio “crítico” com o passar dos anos- mas acho que a memória ainda funciona legal em muitas coisas.

Aprendi alguns truques pra memória. Aprendi com meu PC, vejam só!

Aprendi a não sobrecarregar com bagulheira minha memória. Selecionar o que vou botar lá dentro. Da minha caixa de arquivos.

Aniversário daquela colega de trabalho que já não vejo há 10 anos? Delete.

Nome do antigo dono da padaria? Delete.

Aquele barzinho sem-vergonha que havia na Vila Madalena, onde hoje está o, o, o como é o nome mesmo? Enfim, não sou chegada em barzinhos da Vila Madalena. Xápralá.

Aquela cidade que a gente visitou em 75 e o pneu do carro furou e não tinha borracheiro num raio de 50 km? Ah, tem dó!

Em compensação, deixo ficar e uso cada dia mais a memória antiga. Parece que as coisas ficam mais nítidas. Aí, quando comparo com meu irmão, com amigos da época, vejo que a memória não está tão correta assim. De quem desconfiar? De mim ou dos amigos?

Desisto. Prefiro pensar que o corpo não é tão igual às máquinas. Que ele não só guarda certas lembranças como as melhora, modificando-as, com o passar dos anos.

Minha casa de infância fica enorme e bonita. A escola vira uma coisa clara e limpa. Até aquela vizinha chata vejo hoje que nem era tanto.

Tolerância? Falha de memória? Photoshop afetivo?

Pode ser. Mas pode ser também que, à luz dessa forma mais objetiva de ver as coisas, selecione nelas –nas coisas- aquilo que realmente importa. Que importa que minha casa de infância fosse mesmo um sobradinho mofado, escuro e pequeno? Foi lá que eu aprendi e brinquei. Que eu descobri a música, o pião colorido, a cadeirinha de balanço e a Raquel, aquela vizinha chata que me ensinou a controlar a agressividade. Ela foi a única a quem eu ameacei com um canivetinho. De lá pra cá, sou muito mais controlada...

A máquina se otimiza. Se não sou de última geração, posso ser uma vintage jeitosinha.

Sempre tem quem colecione...

computer vintage.jpg

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Comments

É isso aí, amiga.
A gente, com o tempo, começa a ser mais exigente e selectivo.
Elimina o que não interessa e passa a saborear melhor o que fica. Com menos ansiedade, com mais tempo.
É claro que a "máquina" também obriga a isso. Mas não são só as engrenagens. É também a maturidade, a experiência, o "know how" que se vai adquirindo.

a boa e velha ironia...
bjim.

O meu corpo é uma máquina perfeita, apesar de minha mulher não concordar muito com isso. O que anda precisando de conserto é a balança...

Peciscas: o tempo bota as coisas no melhor lugar. Pena que pra isso acontecer a gente tenha que envelhecer :(

Filho: irônica nada. realista, filho, realista...

Allan: o que anda precisando de conserto é a boca, Allan, a boca...ela abre muito, né não?? Se bem que morando na Itália, é difícil, eu sei :)

Yo ni a ordenador llego. Me siento como aquellas máquinas de escribir electrónicas, que surgieron justo antes del pc, o al mismo tiempo, y que duraron dos años a lo sumo. Esas que no sirven de adorno y que sus dueños esconden porque les da vergüenza haberlas elegido en lugar del ordenador. Y encima su memoria sólo llegaba a unas pocas palabras.

Uy, pero no es tan fácil elegir qué "deletear", ¿no? Besos, Maray.

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Obrigado amigona!

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