dentaduras e moral
Cada sociedade estabelece as regras de etiqueta que acha melhor.
Na realidade, não sei quem acha. Tal como a autoria das gírias que correm por aí, é difícil descobrir quem cria regras.
Numa sociedade, provavelmente quem manda mais. O poder determina muitas coisas. Da corrupção à possibilidade de ditar regras. Sejam elas de etiqueta ou de moral.
Bom, passando desse intróito (podia dizer que foi iniciação, mas ia parecer safadeza), devo dizer que, se a sociedade dita regras, as famílias também.
Minha família inicial não tinha muitas regras de etiqueta. Já de moral...
Lembro que falar de boca cheia era errado. Mas numa família de pouca grana e muitas cáries, a maioria que detinha o poder – os mais velhos- eram todos cheios de dentaduras. Aí, sob certas circunstâncias, falar de boca cheia podia ser permitido. Pelo mesmo motivo – dentaduras- não era costume comerem-se maçãs verdes nem torrones. Pelo menos os mais velhos.
Já em termos de moral e bons costumes havia um montão de regras. Devo dizer que a maioria- descobri bem depois- devidamente descumpridas.
Bom, deixemos pra lá.
Na minha família de hoje, não acho que existam tantas regras. A maior delas: avisar quando e aonde se vai. Uma questão de segurança. Quem sai, avisa quem fica pra onde vai. Seja velho ou novo.
Ninguém aqui em casa usa dentadura. O que não quer dizer que tenhamos ótimos dentes. Só quer dizer que passou o tempo de dentaduras. A modernidade criou os implantes.
Por isso, come-se de tudo. Menos carne vermelha que eu sou vegetariana e não cozinho.
Também não se come fritura. É contra meus princípios.
Não se fala alto. Pelo menos não sem que eu reclame.
Nem se ouve música alta. Não com minha filha em casa. A gente espera ela sair...
Não se fuma. Regra criada depois que eu e meu marido deixamos o vício. A gente perdoa os amigos.
Desde que eles fumem lá fora.
E quanto à moral. Bom, não matando, não roubando, como diz o mano do ônibus, ta limpo.
E é isso. Poucas regras.
Esqueci de dizer: maçãs verdes e torrones são permitidos e até estimulados.
Ah, nada como a alternância de poder!


