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julho 27, 2008

dentaduras e moral

Cada sociedade estabelece as regras de etiqueta que acha melhor.

Na realidade, não sei quem acha. Tal como a autoria das gírias que correm por aí, é difícil descobrir quem cria regras.

Numa sociedade, provavelmente quem manda mais. O poder determina muitas coisas. Da corrupção à possibilidade de ditar regras. Sejam elas de etiqueta ou de moral.

Bom, passando desse intróito (podia dizer que foi iniciação, mas ia parecer safadeza), devo dizer que, se a sociedade dita regras, as famílias também.

Minha família inicial não tinha muitas regras de etiqueta. Já de moral...

Lembro que falar de boca cheia era errado. Mas numa família de pouca grana e muitas cáries, a maioria que detinha o poder – os mais velhos- eram todos cheios de dentaduras. Aí, sob certas circunstâncias, falar de boca cheia podia ser permitido. Pelo mesmo motivo – dentaduras- não era costume comerem-se maçãs verdes nem torrones. Pelo menos os mais velhos.

Já em termos de moral e bons costumes havia um montão de regras. Devo dizer que a maioria- descobri bem depois- devidamente descumpridas.

Bom, deixemos pra lá.

Na minha família de hoje, não acho que existam tantas regras. A maior delas: avisar quando e aonde se vai. Uma questão de segurança. Quem sai, avisa quem fica pra onde vai. Seja velho ou novo.

Ninguém aqui em casa usa dentadura. O que não quer dizer que tenhamos ótimos dentes. Só quer dizer que passou o tempo de dentaduras. A modernidade criou os implantes.

Por isso, come-se de tudo. Menos carne vermelha que eu sou vegetariana e não cozinho.

Também não se come fritura. É contra meus princípios.

Não se fala alto. Pelo menos não sem que eu reclame.

Nem se ouve música alta. Não com minha filha em casa. A gente espera ela sair...

Não se fuma. Regra criada depois que eu e meu marido deixamos o vício. A gente perdoa os amigos.
Desde que eles fumem lá fora.

E quanto à moral. Bom, não matando, não roubando, como diz o mano do ônibus, ta limpo.

E é isso. Poucas regras.

Esqueci de dizer: maçãs verdes e torrones são permitidos e até estimulados.

Ah, nada como a alternância de poder!

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julho 22, 2008

dissonância

Gosto muito de humor.

Não da piada fácil, do trocadilho infame, mas de humor mesmo. De preferência non-sense.

Aquilo que em psicologia a gente chama de dissonância cognitiva. Você tem uma idéia à respeito de alguma coisa e alguém ou algum fato se apresenta de forma totalmente inusitada, diferente da tua idéia. Por exemplo, você sabe que certa pessoa é um calhorda e de repente ela faz alguma coisa de enorme generosidade. Isso causa dissonância. Você não espera.

É claro que no caso de gente, fica difícil definir. Porque não há limites nem antagonismos da forma que expus. O cara pode ser um calhorda e ter atos de bondade. Ser um tremendo burro e pelo menos uma vez na vida ter uma idéia genial. Enfim, eu sou confusa mas espero que vocês não. Suponho que já entenderam.

Tudo isso pra dizer que admiro senso de humor. Tenho que fazer uma força danada pra não cair de amores pelos calhordas da política que têm senso de humor. São raros mas existem.

Então, quando vi um programa em que o apresentador levanta a maior bola pro Maluf, perguntando-lhe o nome do maior prefeito nos últimos 20 anos – pergunta que ele fez a todos os outros prefeituráveis também, obtendo as mais variadas respostas – e ele responde que a modéstia o impedia de falar, tenho que segurar meu riso. Não fica bem admirar aquele senhor. Mesmo que ele tenha um refinado embora óbvio senso de humor...

Mas foi difícil.

Pronto. Confessei.

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julho 14, 2008

pragmática, eu?

Tem gente demais, ultimamente, me chamando de pragmática.

Eu me acho mesmo. Mas vejo que alguns me chamam de pragmática como se me chamassem de babaca.

Não que eu não possa ser – pragmática e babaca ou só um dos dois – mas é que são coisas diferentes.

O pragmático é aquele, na minha opinião, que elimina os rodeios. Que vai direto ao assunto. Que gosta de pão, pão, queijo, queijo. Sem essa de maionese, de folhinhas, de muita firula. Quer salada? Peça salada e não sanduíche. Quer creme? Faça um bechamel decente.

O pragmático dá cabeçadas, como qualquer outra pessoa. Mas procura ver bem onde bateu a cabeça pra não voltar a bater. O pragmático didatiza o erro.

O pragmático busca soluções. Quando a coisa parece impossível, quando a montanha é dura de subir, não tem vergonha nenhuma na cara, dá meia volta e parte pra outra. O pragmático não tem orgulho besta.

O pragmático tem saídas curtas. Tem pressa. Sabe que a vida passa. E que atrás sempre vem gente.

O pragmático não vende voto nem troca ideais. Isso quem faz é o calhorda. O oportunista. O pragmático vota uma vez. Deu merda. Nunca mais vota no infeliz.

O pragmático não repete merdas.

O pragmático quer ser feliz. Como todo mundo. Mas ele acha que é possível.

O pragmático não se perde em ilusões. Ele filosofa, sim, mas enquanto isso, vai remendando a meia furada e adiantando o almoço de amanhã.

O pragmático se apaixona. E chora por amor.
Um pouquinho.

Isso tudo é o que eu acho que é ser pragmático.
E eu não sou.

Mas bem que queria!

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A pragmática sabe onde usar salto e onde usar tênis.
E acha que fazer charm tem limite.

julho 8, 2008

high tech anos 50

O corpo da gente é uma espécie de máquina. Uma espécie porque nem tudo nele é previsível. Mesmo o envelhecimento. Mesmo a doença e a cura. Ou a falha final.

Mas como as máquinas, com o tempo vai se tornando obsoleto, enferrujado, falha aqui e ali.

Minha memória não é mais a mesma. Falha? Em lembrar palavras, às vezes. Em outras coisas, menos. Eu posso estar totalmente enganada- até porque acho que o senso crítico também vai ficando meio “crítico” com o passar dos anos- mas acho que a memória ainda funciona legal em muitas coisas.

Aprendi alguns truques pra memória. Aprendi com meu PC, vejam só!

Aprendi a não sobrecarregar com bagulheira minha memória. Selecionar o que vou botar lá dentro. Da minha caixa de arquivos.

Aniversário daquela colega de trabalho que já não vejo há 10 anos? Delete.

Nome do antigo dono da padaria? Delete.

Aquele barzinho sem-vergonha que havia na Vila Madalena, onde hoje está o, o, o como é o nome mesmo? Enfim, não sou chegada em barzinhos da Vila Madalena. Xápralá.

Aquela cidade que a gente visitou em 75 e o pneu do carro furou e não tinha borracheiro num raio de 50 km? Ah, tem dó!

Em compensação, deixo ficar e uso cada dia mais a memória antiga. Parece que as coisas ficam mais nítidas. Aí, quando comparo com meu irmão, com amigos da época, vejo que a memória não está tão correta assim. De quem desconfiar? De mim ou dos amigos?

Desisto. Prefiro pensar que o corpo não é tão igual às máquinas. Que ele não só guarda certas lembranças como as melhora, modificando-as, com o passar dos anos.

Minha casa de infância fica enorme e bonita. A escola vira uma coisa clara e limpa. Até aquela vizinha chata vejo hoje que nem era tanto.

Tolerância? Falha de memória? Photoshop afetivo?

Pode ser. Mas pode ser também que, à luz dessa forma mais objetiva de ver as coisas, selecione nelas –nas coisas- aquilo que realmente importa. Que importa que minha casa de infância fosse mesmo um sobradinho mofado, escuro e pequeno? Foi lá que eu aprendi e brinquei. Que eu descobri a música, o pião colorido, a cadeirinha de balanço e a Raquel, aquela vizinha chata que me ensinou a controlar a agressividade. Ela foi a única a quem eu ameacei com um canivetinho. De lá pra cá, sou muito mais controlada...

A máquina se otimiza. Se não sou de última geração, posso ser uma vintage jeitosinha.

Sempre tem quem colecione...

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