ícones
Tive alguns ícones estranhos na infância. Nem sei bem se chamá-los de ícones é o mais acertado. Eram assim uns objetos, umas coisas, que a família ou alguns membros dela citavam umas quinhentas vezes ao dia. Com respeito, com admiração, com a certeza de que sem esses ítens a vida não poderia ser a mesma.
Vela. Vela era coisa de respeito. Faltava muita luz naquela época. Pra falar a verdade, hoje também falta, em pleno século XXI. Então havia velas e fósforos em um lugar específico. Era proibido mexer neles. Velas eram tudo. Pra minha mãe e minha avó.
Primus. Primus era um tipo de fogareiro muito usado no Uruguay. A mãe da minha cunhada só cozinhou com Primus, toda a vida. Havia um fogãozinho de duas bocas na cozinha meia boca da pequenina casa de Pocitos, mas era no Primus que os maravilhosos bifinhos e papas fritas foram eternamente feitos. E no dia em que o Primus entupia ou enguiçava o mundo vinha abaixo. Que tupamaros nem mané tupamaros!! Primus era o tema naqueles idos de 60 e 70.
O cemitério da Lapa. Hoje tem mais gente da família no cemitério da Lapa do que fora dele. E no que depender de mim, pra lá não irá mais ninguém. Sou francamente a favor de cremação. Mas o cemitério ocupava boa parte da vida da família. Tinha que cuidar do túmulo, limpar a grama e as plantas do túmulo, polir os bronzes, pagar as taxas, visitar a parentada defunta nos dias das mães, dos pais, dos finados. Uma trabalheira. Um ícone sim, por que não?
Hoje também temos alguns ícones na família que formamos.
As ferramentas do meu marido. São sagradas. Ele até empresta, se for pra algum amigo de infância, desde que devidamente monitorado. E até o prazo máximo de uma semana.
Os discos de vinil e hoje, os CDs. A gente copia se algum amigo quiser, mas daqui não saem.
Minhas agulhas de crochê. Minha escova de cabelo. Meu batom roxo zumbi.
Ícones. Acabam, compro outro igual.
Como viver sem um baton roxo zumbi???
Comments
Quanto a mim, sobrevivo, sem o tal batom. Já, sem a ABL, não. Preciso de seu voto.
Posted by: Santos Passos | junho 22, 2008 3:53 AM
De pequeña en mi casa, había un primus, luego de recién casada con pocas cosas, cociné mucho tiempo, para abaratar, con primus. Llegué a odiar aquel bombear.Las agujas de quitar la basura del oído que pasaba el combustible. Un horror!!!!
Aunque en mi casa se mezclaban los tupamaros con los primus, ya que había una creencia popular de que ellos hacían bombas con primus que desaparecían. Asi que hubo una época que mis tías dormían con el artefacto al lado de la cama.
Como siempre que te leo, me sumerjo en caminos comunes, hay textos tuyos, que son para contar en escena, algun día los leeré a todos y te "robaré" unos cuantos para un espectáculo.
Y mi lapiz de labio es rojo rubi. Y no me puede faltar.
Un bico
Posted by: Sole | junho 24, 2008 3:33 PM
...Deixar minhas ferramentas emprestadas por uma semana? Nem morto!
Posted by: Allan | junho 25, 2008 3:21 AM
Esses ícones fazem parte da identidade das famílias.
Também recordo as velas e o fogareiro a petróleo da minha infância.
E também sou adepto da cremação...
Posted by: peciscas | junho 25, 2008 2:11 PM
Há algum tempo não fazia uma visitinha... como sempre li tudo com um sorriso prazeroso.
Posted by: Sonia | junho 29, 2008 12:43 AM
Nasci e me criei ao lado do Cemitério da Lapa, o que se tornou, talvez, o principal icone de minha infancia/adolescencia.... tudo girava em torno do Cemitério da Lapa e ainda hoje sinto-me envolto a tão "funebre" presença...
Escreves bem, dá-nos prazer seus escritos, parabéns...
Posted by: jocendir | junho 29, 2008 5:07 AM