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100 anos de imigração japonesa

Meus primeiros japoneses foram muito próximos. Era a família Yae. Dona Aparecida, “seu” Suzumo, a filha.
Eram fotógrafos todos eles. Numa época em que fotografia era coisa complicada.

Tá, não sou tão velha assim e já existia máquina fotográfica quando eu nasci. E não, não se tratava de máquina de “caixote”, embora meu pai tivesse uma que pertencera a meu avô, também fotógrafo. Mas a gente contratava fotógrafos pras ocasiões especiais. Primeira comunhão, batizados, casamentos, fotos de pais e filhos, de namorados e noivas. E havia fotógrafos com estúdio e tudo.

Dona Aparecida era um deles. Com estúdio no largo do Pari. Um estúdio fantástico, que povoava minha imaginação nos restantes 364 dias do ano em que eu não estava lá.
Porque a gente só ia lá, a família toda, em peso, pra passar o dia de Reis.

Coisa mais esquisita essa de comemorar o dia de Reis numa casa de japoneses budistas em que metade do regabofe era composta de pernis e frangos e outra metade de sushis e sashimis. Coisas de São Paulo.

Nesse dia eu ficava brincando no estúdio deles. Com os lenços de penas, as escadas, os cenários de paisagens e de Cristos empunhando hóstias, com todo tipo de chapéu, de boinas a casquetes. Ela não tinha roupas mas tinha a “parte de cima” das coisas. Ajeitava uns bois de pena e voilá! A pessoa ficava uma réplica da Ginger Rogers. Isso depois de mil horas de retoque em cílios e peles. Sem photoshop!! Na mão.

Punha um quepe de comandante e um lenço de seda branca no pescoço do cara e também tinha quase um Errol Flynn.

Estávamos em 1940? Não. Isso devia ser 1960, mas o Largo do Pari já era um bairro simples e o estúdio da Dona Aparecida, apesar de eu achar um palácio, era um estúdio de bairro, antigo e obsoleto. Ficara lá, nas Gingers Rogers e Errols Flynns. Quando muito um Marlon Brando, pros rapazes da praça.

Me enchia de presentes. Quase uma madrinha, todo ano vinha em casa, pouco antes do Natal e trazia presentes pra todo mundo. Minha primeira – e única – Yashica veio dela. Minha primeira – e única- boneca também. Vestida de noiva. Nunca gostei muito de bonecas.

O tecido do vestido da primeira comunhão. O da formatura do primário. Não fora eu me antecipar e decidir casar de linho bem áspero, ela viria com algum brocado meio brega. Mas me deu as fotos do casamento.

Nunca a vi brava. Nunca a vi triste. Sempre rindo.

Dizem que é característica cultural do povo japonês.

Pode ser. A vida dela não era fácil.
De qualquer forma, a associação sorriso-Japão se tornou, desde essa minha lembrança de menina, uma associação sincera.

Pode ser cultural isso de sorrir, mas é uma boa coisa.
Porque contagia.

primeiracomunhão copy.jpg

Primeira comunhão, tirada por ela. Com o vestido brega e brilhante também.

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Comments

olá,
muito boas suas crônicas. apesar de normalmente não comentar, sempre passo por aqui, leio e me divirto muito.
bjim

Seguimos compartiendo cosas a la distancia. Mis primeros japoneses también fueron fotógrafos.
Me has hecho acordar de una parte de mi vda archivada, que rescataré un día de estos.
Estoy en deuda con tu marido, el tabaco mató todas las lesmas!!!
Un beso a los dos

Meus primeiros japoneses foram colegas de escola, mas o fotógrafo da cidade também era japonês. Mas eu gostava mesmo de uma japonesinha...

Mais um texto que me faz reavivar memórias.
Do Eduardo Nogueira , fotógrafo de Évora com o seu cenário de árvores onde a gente posava para a grande máquina de madeira.
Ou o Macário, de Vila Real, com aquele muro de madeira pintada onde a gente se encostava, para parecer que estava nun parque. Onde uma vez me refugiei a chorar, porque não queria ir para a escola.
A gente ia lá como se fosse para um mundo mágico. Com aquelas luzes, com aquele cheiro...
É que a gente sempre achava que o fotógrafo era mesmo um mágico!

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