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junho 29, 2008

100 anos de imigração japonesa

Meus primeiros japoneses foram muito próximos. Era a família Yae. Dona Aparecida, “seu” Suzumo, a filha.
Eram fotógrafos todos eles. Numa época em que fotografia era coisa complicada.

Tá, não sou tão velha assim e já existia máquina fotográfica quando eu nasci. E não, não se tratava de máquina de “caixote”, embora meu pai tivesse uma que pertencera a meu avô, também fotógrafo. Mas a gente contratava fotógrafos pras ocasiões especiais. Primeira comunhão, batizados, casamentos, fotos de pais e filhos, de namorados e noivas. E havia fotógrafos com estúdio e tudo.

Dona Aparecida era um deles. Com estúdio no largo do Pari. Um estúdio fantástico, que povoava minha imaginação nos restantes 364 dias do ano em que eu não estava lá.
Porque a gente só ia lá, a família toda, em peso, pra passar o dia de Reis.

Coisa mais esquisita essa de comemorar o dia de Reis numa casa de japoneses budistas em que metade do regabofe era composta de pernis e frangos e outra metade de sushis e sashimis. Coisas de São Paulo.

Nesse dia eu ficava brincando no estúdio deles. Com os lenços de penas, as escadas, os cenários de paisagens e de Cristos empunhando hóstias, com todo tipo de chapéu, de boinas a casquetes. Ela não tinha roupas mas tinha a “parte de cima” das coisas. Ajeitava uns bois de pena e voilá! A pessoa ficava uma réplica da Ginger Rogers. Isso depois de mil horas de retoque em cílios e peles. Sem photoshop!! Na mão.

Punha um quepe de comandante e um lenço de seda branca no pescoço do cara e também tinha quase um Errol Flynn.

Estávamos em 1940? Não. Isso devia ser 1960, mas o Largo do Pari já era um bairro simples e o estúdio da Dona Aparecida, apesar de eu achar um palácio, era um estúdio de bairro, antigo e obsoleto. Ficara lá, nas Gingers Rogers e Errols Flynns. Quando muito um Marlon Brando, pros rapazes da praça.

Me enchia de presentes. Quase uma madrinha, todo ano vinha em casa, pouco antes do Natal e trazia presentes pra todo mundo. Minha primeira – e única – Yashica veio dela. Minha primeira – e única- boneca também. Vestida de noiva. Nunca gostei muito de bonecas.

O tecido do vestido da primeira comunhão. O da formatura do primário. Não fora eu me antecipar e decidir casar de linho bem áspero, ela viria com algum brocado meio brega. Mas me deu as fotos do casamento.

Nunca a vi brava. Nunca a vi triste. Sempre rindo.

Dizem que é característica cultural do povo japonês.

Pode ser. A vida dela não era fácil.
De qualquer forma, a associação sorriso-Japão se tornou, desde essa minha lembrança de menina, uma associação sincera.

Pode ser cultural isso de sorrir, mas é uma boa coisa.
Porque contagia.

primeiracomunhão copy.jpg

Primeira comunhão, tirada por ela. Com o vestido brega e brilhante também.

junho 21, 2008

ícones

Tive alguns ícones estranhos na infância. Nem sei bem se chamá-los de ícones é o mais acertado. Eram assim uns objetos, umas coisas, que a família ou alguns membros dela citavam umas quinhentas vezes ao dia. Com respeito, com admiração, com a certeza de que sem esses ítens a vida não poderia ser a mesma.

Vela. Vela era coisa de respeito. Faltava muita luz naquela época. Pra falar a verdade, hoje também falta, em pleno século XXI. Então havia velas e fósforos em um lugar específico. Era proibido mexer neles. Velas eram tudo. Pra minha mãe e minha avó.

Primus. Primus era um tipo de fogareiro muito usado no Uruguay. A mãe da minha cunhada só cozinhou com Primus, toda a vida. Havia um fogãozinho de duas bocas na cozinha meia boca da pequenina casa de Pocitos, mas era no Primus que os maravilhosos bifinhos e papas fritas foram eternamente feitos. E no dia em que o Primus entupia ou enguiçava o mundo vinha abaixo. Que tupamaros nem mané tupamaros!! Primus era o tema naqueles idos de 60 e 70.

O cemitério da Lapa. Hoje tem mais gente da família no cemitério da Lapa do que fora dele. E no que depender de mim, pra lá não irá mais ninguém. Sou francamente a favor de cremação. Mas o cemitério ocupava boa parte da vida da família. Tinha que cuidar do túmulo, limpar a grama e as plantas do túmulo, polir os bronzes, pagar as taxas, visitar a parentada defunta nos dias das mães, dos pais, dos finados. Uma trabalheira. Um ícone sim, por que não?

Hoje também temos alguns ícones na família que formamos.

As ferramentas do meu marido. São sagradas. Ele até empresta, se for pra algum amigo de infância, desde que devidamente monitorado. E até o prazo máximo de uma semana.

Os discos de vinil e hoje, os CDs. A gente copia se algum amigo quiser, mas daqui não saem.

Minhas agulhas de crochê. Minha escova de cabelo. Meu batom roxo zumbi.

Ícones. Acabam, compro outro igual.

Como viver sem um baton roxo zumbi???

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junho 14, 2008

abismo abissal

Existia uma teoria de que a terra era uma espécie de pedaço de torta: alta, gorda, mas com inevitáveis fim e começo. No caso, abismos abissais ( sempre quis escrever isso).

Interessante do ponto de vista filosófico, principalmente praqueles que morassem perto da borda da torta, quero dizer, da terra. Um pé no nada. Uma vida recheada de adrenalina. Já pensou se aquele passinho sem jeito que você der, de repente ser o último pedaço de chão antes do abismo abissal ( acho que já disse que sempre quis escrever isso)? E, é claro, a idéia da torta alta vinha sempre acompanhada de uma terra reta, plana. Podia ter uns morrinhos aqui e ali, afinal não existe a torta perfeitamente reta, embora a de maracujá da minha filha seja uma pista de patinação de tão lisinha e reta, mas acho que desvio do assunto do abismo abissal ( é delicioso escrever isso).

Voltando: logo a coisa foi posta de lado.

Havia outra, muito mais simpática e ecológica: a de que quatro tartarugonas seguravam a terra nas costas. Aí surge um sério problema. Sim, porque se tartarugas são lerdas, não são estáticas. Elas andam. Pra onde e como andariam as quatro? Em formação de ordem unida? Em coreografias de ala de escola de samba? Todas juntas ou uma pra cada lado? Deixariam cair a terra no espaço, num movimento brusco? E os habitantes da terra? Perceberiam as manobras ou achariam que aquela última gota de garapa não desceu legal? Dúvidas abissais. ( sim senhores, não só os abismos são abissais)

Mas a que eu mais gosto mesmo é a de que a terra está sempre nas costas do Atlas, um gigantão.
Sei lá, uma espécie de identificação. Ter uma terra enorme ali nos ombros deve acabar com a coluna. Sei bem o que é isso. O mundo nas costas. Pelo menos no sentido figurado, é assim mesmo que eu me sinto, às vezes. E olhe que de Atlas não tenho nada.

E fico pensando com minhas vértebras: e se ele um dia se cansar? Se mandar tudo pro espaço, no sentido literal? Se resolver que carregar a terra nas costas não tá com nada e será melhor uma boa terapia e fim de papo?

Sei não. A gente fica aquecendo o mundo, desmatando, deixando coisas malcheirosas por aí, brigando interminavelmente, um dia o gigantão se enche e larga mão.

E aí, haja abismo abissal.
Pronto! Falei de novo!!

atlas.jpg

junho 11, 2008

de olhos fechados

Tem coisa que não dá pra fazer de olho aberto.

Antes que pensem naquilo – que também não consigo fazer de olho aberto – devo dizer que dentista é um problema. Não consigo abrir o olho. O (ou a) dentista a cm de distância da minha cara, mais a atendente, mais aqueles aparelhinhos todos, enfim..é preciso manter um mínimo de privacidade. Fecho os olhos. E abro a boca. Parece aquela brincadeira de criança idiota de “fechar os olhos e abrir a boca” e ter enfiado goela adentro algum petisco. Ou alguma porcaria, dependendo de quem faz a brincadeira...

Dançar tango. Tem que ser de olho fechado. Afinal, no tango não cabe à mulher nenhuma responsabilidade pelos caminhos. Não sou nunca a responsável por bater em alguém. Então, fecho os olhos pra ouvir melhor a música e o corpo do parceiro. Se bem que, dependendo do parceiro, às vezes é melhor manter os olhos bem abertos..

Ouvir música de fossa sozinha. Traduzindo: deitar no sofá, botar Lupiscínio no som e fechar os olhos. É de matar. Bom demais da conta!!

Subir e descer de avião. Depois que superei meu medo de lugar fechado, andar de avião não é mais (tanto) problema. Mas não gosto de olhar quando ele sobe nem quando ele desce. O mundo fica torto e sinto náusea. Depois que ele endireita, aí sim. Aí fico grudada na janelinha. São os melhores momentos do vôo!

E sim, tem também aquilo que todo mundo pensou, logo de início. Sei que tem gente que gosta de ficar no olho no olho, mas não sou dessas. Desde um bom beijo na boca até tudo mais, gosto de fechar os olhos pra sentir. Parece que tudo fica melhor. Mais intenso.

Então, não só de olhos abertos se vive, pra aprender. De olhos fechados também se aprende legal.

Ou se sente mais.

E sentir é a melhor forma de aprender.

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junho 7, 2008

de olhos abertos

Muito antes de escolher psicologia como estudos, mais do que carreira- que praticamente não exerci- eu já me interessava muitíssimo pelas pessoas e a observação delas. De seus olhares, de seus tons de voz, de suas posturas. Na faculdade aprendi que isso é etologia e não voyeurismo.

De bem pequena, observar o balanceio do corpo do meu pai, quando chegava em casa à noite, podia me indicar o grau de sobriedade ou de etilismo, como queiram. E as possibilidades de uma conversa. Eu adorava meu pai e adorava conversar, mas conversa de bêbado é complicada.

Naquela fase de namoro iniciante, observar os olhos do namorado, em que ponto e quanto tempo eles se mantinham fixos, dava uma idéia geral dos anseios de amor. Das urgências ou dos alheamentos.

Observar o choro dos filhos, os gritinhos e grunhidos, os silêncios que podiam indicar tanto que estavam dormindo como que estavam aprontando alguma, os gritos, que tanto podiam ser de dor real como de manha, tudo foi uma escola. Quando enfim eu podia afirmar que já tinha definido padrões e sabia distingui-los, eles – os filhos- já estavam crescidos e podiam se virar muito bem sozinhos. Eu sou meio lerdinha...

Nos salões de dança, dentro de carros parados em congestionamentos, nos ônibus, nas filas de banco, tudo é uma grande escola. Sabendo olhar, dá pra saber muita coisa.

Do homem que bufa, até a garota que sorri sozinha, da mulher que franze a testa enquanto faz contas mentalmente, da criança que se volta para o brinquedo e esquece o mundo, o ser humano dá maravilhosas indicações do que é.

Há algumas exceções, eu sei.

Os políticos, com aquele eterno sorriso idiotizado. Os vendedores. Os pastores.

Se bem que no fundo, no fundo, são todos iguais.

Todos vendem aquilo que não têm nenhuma certeza de entregar.

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junho 3, 2008

galochas brancas

Eu joguei fora minhas botas de borracha brancas.
Já não eram brancas. Com o tempo e o uso foram ficando amarelas, quase marrons.
Anos lavando quintal em dias frios.

E fiquei lembrando, olhando pra elas, as galochas da minha infância.

Como naquela propaganda bem sacada em que um garotinho – chato, por sinal – implora à mãe que lhe compre brócolis no supermercado, eu implorei à minha que me desse galochas no primário.

Maior símbolo de status não havia. Bom, talvez aquele estojo para lápis de tampa de enrolar por dentro, imitando madrepérola. Ou aquele compasso alemão. Bom, acho que havia bastante símbolos de status naquela época.

E eu não tive nenhum.

Nem galochas.

Chovia? Sacos plásticos por cima do sapato. E muito papelão por dentro, se a sola estivesse furada. Papelão de caixa de pasta de dente, os melhores e mais macios, para o caso citado. Tenho toda uma tecnologia pra solas furadas...

Quanto eu quis ter aquelas galochas que pareciam botinhas brancas, com uns desenhos de estrelas em alto-relevo!

Daí cresci. Tornei-me a mulher prática que sou.

Mas, romântica eterna, acabei por comprar botas emborrachadas pra lavar quintal brancas.
Iguais àquelas dos açougueiros.

Parecidas àquelas da minha infância, àquelas do símbolo de status.

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