esportes radicais
Quem já não ouviu a expressão “ viver a vida perigosamente” ?
Sei não. Pra mim, viver a vida já tá bom. De preferência, da maneira mais prazerosa e segura.
Adrenalina acelera o coração. O meu – e posso comprovar – já tem acelerações demais sozinho. Extra-sístole, diz aquele rapaz cheio de boas intenções e roupa branca.
Esporte radical pra mim é atravessar ruas. Sou ruim nisso. Não tenho estômago, coração ou sei la o quê que me permita atravessar por etapas, ficando no meio, sentindo na bunda e na cara o ventinho dos carros que passam alucinados.
Esporte radical é comer no centro, em botecos de kilo. Faço raramente mas faço. E sabe por que, além da economia aparente? Porque gosto de boteco. Gosto de prato feito. Gosto da companhia e até mesmo do cheiro de ranço desses lugares. E gosto de transgredir. Décadas de comidinha vegetariana, muita soja, muito suco, muita fibra, me fazem sonhar com um arroz-feijão-bife-salada com óleo vagabundo.
Transgressão mixuruca, mas transgressão. E fico pensando naquele rapaz bem intencionado, o da roupa branca e suas dietas científicas...
Esporte radical é andar a pé, em longas caminhadas pelas ruas de São Paulo. Muitas vezes pelas ruas mesmo, já que calçadas são mais perigosas ainda. Desviando de cocô de cachorros, de buracos da sabesp, de buracos da prefeitura, de buracos da congás, de buracos da eletropaulo, de buracos de sei lá qual instância governamental mais. Nossa política em geral é mais ou menos isso: um buraco.
Esporte radical é dançar nas milongas paulistanas. Pra quem não sabe, dançar a dois é uma arte feita a dois numa primeira instância, coletiva numa segunda. Explico: você tem que entender o corpo do companheiro e suas intenções, entender o corpo dos demais pares que rodopiam pelo salão. Existe um sentido para dançar na pista, existe até mesmo uma roda interna praqueles que não vão na mesma velocidade dos demais. Mais ou menos como nas estradas, pistas à esquerda pra quem vai rápido, pistas à direita pra quem vai devagar.
Mas também como nas estradas, não existe pista pra quem vai fazer piruetas, manobras radicais e o diabo.
Infelizmente nas milongas paulistas não é a mesma coisa. Tem os aprendizes de feiticeiro, os que acham que dançar a dois é show de acrobacia.
Perdi uma unha do pé certa vez. Várias meias rasgadas sempre. E marcas roxas.
Dançar em São Paulo é um esporte radical.
Mas esse o rapaz da roupa branca acha legal. Ele não sabe dançar.
Esporte radical é tomar ônibus em horário de rush. Eu sou praticante. O mais radical de todos. O coração nem acelera mais. Não há espaço pra corações acelerados. Você engata a marcha zen e tenta sonhar acordada. Ou dorme, se conseguir sentar. Minha filha, uma geração mais aprimorada que a minha, aprendeu a dormir em pé. Esses jovens e suas modernas tecnologias...!
Esporte radical é viver. Buscar o prazer onde der. Buscar dar prazer como souber.
E fugir dos rapazes de roupa branca.
Comments
De todos estes esportes radicais citados nesse delicioso texto, andar de ônibus em horário de pico e comer em boteco são fáceis perto da dança a dois. Não tenho coordenação para tantos movimentos. Um dia, quem sabe, eu aprendo.
Posted by: Cris | maio 24, 2008 2:31 PM
gostei demais. deu até vontade de aprender a dançar! beijo e bom domingo
Posted by: daiza | maio 25, 2008 10:20 AM
Que hermoso y poético texto, nos regalas, querida Maray. Y que intrigante para mí el motivo repetido del muchacho lleno de buenas intenciones y de ropa blanca.
¿Se trata de esos que andan con la biblia en la mano? Aumenta el contraste y le concede gran cadencia al poema en prosa que has publicado.
Posted by: Anonymous | maio 27, 2008 5:45 AM
Anonimo(a): o senhor de boas intenções e roupa branca é meu médico. Esses que carregam bíblias, pelo menos por aqui, usam roupas negras. e não costumam chegar perto de mim. Ou eu perto deles :)
Posted by: Che Caribe
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maio 27, 2008 11:30 AM
Tens toda a razão: viver já é radical o quanto baste, para termos de acrescentar mais adrenalina extra.
E não é espantoso, como venho aqui descobrir mais uma afinidade contigo? É que tenho extra-sístoles desde os meus 18 anos (ainda agora pintou mais uminha...)
Mas nem tudo são afinidades pois para a dança, não contem muito cá com o António...
Posted by: peciscas | maio 28, 2008 3:58 PM