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maio 29, 2008

insônia

Era um guarda-roupa de 3 portas. De uma madeira brilhante que formava desenhos longos. Puxadores forrados de uma coisa que diziam chamar madrepérola, mas evidentemente devia ser um plástico vagabundo, porque vivia quebrando.
Eu dormia em frente. Na realidade, meio de lado pra ele. E sempre antes de dormir ficava olhando aqueles desenhos da madeira e imaginando coisas. Coisas de terror que não me deixavam dormir direito depois.

Um corredor de 50 metros, do portão ao fundo. De caquinhos de cerâmica vermelha.
Uma prima sete anos mais velha de idade, de juizo nem tanto.
A gente deitada lá, de barriga pra cima no corredor, olhando o céu e imaginando coisas nas nuvens brancas. Ela via namorados, eu via carneiros e lobos e raposas. Uns correndo atrás de outros. Uns comendo outros.
Terror puro. O que às vezes me tirava o sono à noite.

Uma casa sem vizinhos encostados. Um grande jardim mal-cuidado na frente e um grande quintal mal-cuidado atrás. A gente pouco ficava em casa.
Uma parte da casa tinha forro de madeira pintado de branco. Outra nem forro tinha. A gente via as telhas e o madeiramento antigo, escuro. Ao entardecer, barulhos de pássaros, de ratos, de morcegos, sei lá.
Era difícil dormir pensando nesses barulhos.

Hoje a casa em que vivo tem forro. O quintal e o jardim são bem cuidados. Nem o quintal tem caquinhos de cerâmica nem eu tenho mais o hábito de ficar deitada de barriga pra cima olhando nuvens. Pra falar a verdade, quando as olho nem penso mais nada a não ser : vai chover ou não?

Não existem mais guarda-roupas em casa. E nem madeiras, quase. O poder do MDF!
Veios falsos na madeira falsa não sugerem nada.

Aquela prima? Casou, foi mãe seis vezes, engordou, enviuvou e talvez agora, ao olhar o céu, ainda pense em namorados. Não sei.

Morcegos ao entardecer ainda vejo por aqui. Depois do diploma de psicologia, tudo que pareça rato me é familiar e não inspira medo.

Então por que cargas d’água continuo dormindo mal ?

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maio 23, 2008

esportes radicais

Quem já não ouviu a expressão “ viver a vida perigosamente” ?
Sei não. Pra mim, viver a vida já tá bom. De preferência, da maneira mais prazerosa e segura.

Adrenalina acelera o coração. O meu – e posso comprovar – já tem acelerações demais sozinho. Extra-sístole, diz aquele rapaz cheio de boas intenções e roupa branca.

Esporte radical pra mim é atravessar ruas. Sou ruim nisso. Não tenho estômago, coração ou sei la o quê que me permita atravessar por etapas, ficando no meio, sentindo na bunda e na cara o ventinho dos carros que passam alucinados.

Esporte radical é comer no centro, em botecos de kilo. Faço raramente mas faço. E sabe por que, além da economia aparente? Porque gosto de boteco. Gosto de prato feito. Gosto da companhia e até mesmo do cheiro de ranço desses lugares. E gosto de transgredir. Décadas de comidinha vegetariana, muita soja, muito suco, muita fibra, me fazem sonhar com um arroz-feijão-bife-salada com óleo vagabundo.
Transgressão mixuruca, mas transgressão. E fico pensando naquele rapaz bem intencionado, o da roupa branca e suas dietas científicas...

Esporte radical é andar a pé, em longas caminhadas pelas ruas de São Paulo. Muitas vezes pelas ruas mesmo, já que calçadas são mais perigosas ainda. Desviando de cocô de cachorros, de buracos da sabesp, de buracos da prefeitura, de buracos da congás, de buracos da eletropaulo, de buracos de sei lá qual instância governamental mais. Nossa política em geral é mais ou menos isso: um buraco.

Esporte radical é dançar nas milongas paulistanas. Pra quem não sabe, dançar a dois é uma arte feita a dois numa primeira instância, coletiva numa segunda. Explico: você tem que entender o corpo do companheiro e suas intenções, entender o corpo dos demais pares que rodopiam pelo salão. Existe um sentido para dançar na pista, existe até mesmo uma roda interna praqueles que não vão na mesma velocidade dos demais. Mais ou menos como nas estradas, pistas à esquerda pra quem vai rápido, pistas à direita pra quem vai devagar.

Mas também como nas estradas, não existe pista pra quem vai fazer piruetas, manobras radicais e o diabo.
Infelizmente nas milongas paulistas não é a mesma coisa. Tem os aprendizes de feiticeiro, os que acham que dançar a dois é show de acrobacia.

Perdi uma unha do pé certa vez. Várias meias rasgadas sempre. E marcas roxas.
Dançar em São Paulo é um esporte radical.
Mas esse o rapaz da roupa branca acha legal. Ele não sabe dançar.

Esporte radical é tomar ônibus em horário de rush. Eu sou praticante. O mais radical de todos. O coração nem acelera mais. Não há espaço pra corações acelerados. Você engata a marcha zen e tenta sonhar acordada. Ou dorme, se conseguir sentar. Minha filha, uma geração mais aprimorada que a minha, aprendeu a dormir em pé. Esses jovens e suas modernas tecnologias...!

Esporte radical é viver. Buscar o prazer onde der. Buscar dar prazer como souber.

E fugir dos rapazes de roupa branca.

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maio 19, 2008

tudo passa nessa vida, menos...

Em algum ponto do caminho eu errei.
Errei feio.

Já tentei dos mais baratos, avaliando que se quebrar, despedaçar, queimar, a perda será pequena. Como quando a gente tenta não se envolver com ninguém, mantendo nas relações só as mais hipócritas, as mais sociais, as mais levianas. Se perda houver, será de pouco montante.

Já tentei com os que escorregam, aqueles que dizem não grudar em nada, aqueles que a gente nem precisa pensar pra usar.
Exatinho como aqueles amigos- será mesmo?- que escorregam quando deles se precisa, embora argumentem que escorregam é pra não se meter, pra não serem enxeridos, que amigo que é amigo respeita a individualidade alheia.

Tampouco deu certo.
Duravam pouco.

Aquelas amizades também. Esvaiam-se na primeira necessidade real, na primeira busca por consolo.
Daí cansei.

Cansei e me dispus a gastar o máximo que pudesse. Obter o melhor. O top de linha. Cheguei num estágio da vida – pra não dizer, velha mesmo- em que disse a mim mesma que merecia o melhor. Muitos anos de janela, muito trabalho, muita milhagem, eu não aceitaria nada menos do que o melhor. The best.

E achei. E passei alguns meses usufruindo desse melhor.
Foram meses bons, confesso. De pura harmonia.

Como aqueles casamentos feitos por paixão, por tesão, por inadiável vontade de ambas as partes.
São ótimos enquanto duram.

Seriam melhor ainda se durassem.

Mas foram meses, somente.
Um dia, sem quê nem porquê, uma fagulha. Fumaça. Cheiro ruim. Curto-circuito.

Como aquelas relações apaixonadas à noite que amanhecem geladas. Puuumm!
E pronto!

Mais um ferro de passar roupa que não deu certo!

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Estaria a solução numa volta às origens?

maio 14, 2008

pílulas de Buenos Aires

O trânsito flui nas largas avenidas. O que não impede todo mundo de guiar costurando.
As pessoas correm andando nas ruas.
Aí chegam nos cafés.
Aí param, tomando seu cafezinho com água gelada durante horas.
Era a pressa de chegar.

O milongueiro aperta a dama na medida certa.
Jamais pisa no seu pé.
E não conversa. Nem leva de volta na mesa.
Milongueiro que é milongueiro não é dado a delicadezas.

Fala-se alto demais. Gesticula-se demais. Usa-se cabelo comprido demais.
O porteño é chegado em coisas grandes.
E depois dizem que aqui é que as coisas são exageradas.

Chinchulines: descobri que há 3 espécies: de chivitos, de vaca, de ternera.
Merda pura, da melhor espécie todos eles.
Me lambuzei com gosto!!

Ar seco. Frio seco.
Resultado: nariz e boca secas, pele seca, só mesmo tomando vinho.
Só escapava o café da manhã.
Vinho não combina com media lunas.

Água? Sei lá. Nunca tomei a água porteña.

Voltei. Com saudade, desde já.

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Um dia ainda conseguirei atravessar tudo de um só fôlego.
Só espero que não seja meu último...

maio 7, 2008

escrevendo torto por linhas certas

Sabe aquela sensação de querer expressar uma coisa e não conseguir? Acho que é falta de vocabulário, mesmo.
Seguinte: eu gosto de rancor.

Tá vendo? Quem lê já começa a estranhar. Até eu mesma, lendo. Não é politicamente correto, não é comum, não é nem mesmo justo pra com os outros, acho.

Não sei definir o que é que eu gosto e que na falta de palavra melhor, uso rancor.

Tudo começou ouvindo ontem aquela cantora pequenininha, afinadinha, bossanovinha agora velhinha, a Claudete Soares. Eu nunca gostei dela. Por que? Porque ela cantava coisas tristes, de amores perdidos, de langores, de depressões, de corações partidos. E nada, nenhuma reação! Ficava aquela sensação do prazer da dor, coisa que me arrepia. Dor é dor, prazer é prazer. E dor dói.

Já tem música cuja letra me bota pra cima. Aquela “ eu gostei tanto, tanto quando me contaram, que te viram bebendo e chorando na mesa de um bar”... Porque o cara tá lá, triste pra caramba, enchendo a cara, e a mulher que ficou só se locupleta. Sim, ele me largou mas também não tá legal. Uma espécie de solidariedade forçada. Eu chamo de rancor, mas não parece definir bem a coisa.

Mas deve ser algo assim. Porque eu acho legal a raiva, em certas circunstâncias. Ela injeta adrenalina, ela move os músculos. Não, não se trata de violência. Mas de não ficar deitada no fundo do sofá chorando as pitangas. ( credo, quem hoje choraria pitangas??) Trata-se de vociferar, de andar de um lado pra outro, de chutar pedras e baldes. De reação.

Tristeza existe. Fazer o que? Mas raiva é bem melhor.

Rancor? Pode ser. Falta-me vocabulário.
Devia ter lido mais o Aurelião.

Que raiva de não achar a palavra!
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Lupi: ele me entenderia

maio 2, 2008

zoando zôo

Eu achava que gostava de bicho.
Assim, de bicho em geral.

Aí fiquei pensando no assunto. Meio que falta do que fazer, porque não é um assunto instigante.
Mas comecei a pensar nos bichos da minha vida.

Um dos primeiros, umas lagartixas que habitavam o sobradinho no qual eu nasci. Sobradinho geminado, antigo, mais que isso, velho mesmo, lá na Lapa. De escada de madeira. De forro de madeira. De quintal de cimento no chão. Cheio de lagartixas. Um dia uma subiu na calça do meu pai, subindo a escada. O meu pai estava subindo a escada, a lagartixa não sei o que estaria fazendo.
Eu quase mijei nas calças de tanto rir.
Meu pai também, de medo.
Ele disse que era nojo, mas homem é tudo igual, tem mania de chamar medo de nojo.

Muitos anos mais tarde, um cachorro viralata da vizinhança que era meu amigo.
Era, porque um belo dia, correndo por entre minhas pernas, me fez cair e me deu uma marca no queixo que carrego até hoje. Fiquei brava com ele. Não por muito tempo.
Não consigo mesmo ficar brava muito tempo com bichos que eu gosto.

E gosto de cachorro.

Minha mãe não e só me permitiu ter uma tartaruga.
Já contei isso aqui. Odeio tartaruga.
Botei nela o nome de Raquel, uma inimiga mortal minha, aos cinco anos.

Teve também um cabrito que morreu e minha mãe assou.
Eu até gostava dele, mas comi.
Bom, eu como muita coisa que gosto.

E muito depois, já adulta, com filhos, um monte de cachorros.
O Peninha, a Lulu, a Carlota Joaquina, e hoje, ainda vivas, a Mancha Negra e a Peste Negra.
Minhas paixões.

Não me venham com peixes, aquelas coisas coloridas que nem te dão bola. Não me venham com pássaros, que me confrangem, porque gosto deles soltos e não em gaiolas. Não me venham com gatos, que arranham quando lhes dá na telha. Que , por sinal, adoram telhados mais do que meu colo.
Não me venham com cavalos, dos quais tenho medo.
Nem cobras, nem lagartos.

Tá bom, lagartixas ainda cultivo. Ou elas a mim, porque toda casa em que moro tem um monte delas. Mas nossa comunicação é precária.

Só cachorros.
E gente.
Nessa ordem.

pestinha.jpg.