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maiô de lã

Estava aqui, sozinha no meu canto, lendo um amigo-Brancoleone-e o cara me fala em “bóia preta”. Tá bom, sei que quase ninguém sabe o que é bóia preta. E pior, muitos poderão pensar em sacanagem...Eu explico.

Era quase. Bóia preta era uma câmara de pneu, de preferência de caminhão, daquelas bem grandes, pretas, é claro, nunca vi câmaras de outra cor, que eram enchidas e a gente levava pra praia, rio, lago ou qualquer quantidade de água em que elas coubessem com um ser humano dentro.

Dentro é modo de falar. Quando eu era pequena, tentava entrar e saía pelo outro lado. Não dava pra deitar na bóia. Então ficava do lado de fora, segurando. Isso há uns 2 metros da praia, que nem minha mãe, nem meu pai, nem tias, nem tios, nem primos adultos – aqui preciso abrir outro parêntesis: a gente ia na praia em bloco. Pelo menos a gente mais pobre. E levava farofa, sim! Bom, saindo do parêntesis, ninguém deixava a nós, crianças, se afastar da praia mais do que a distância do berro da mãe.

E o maiô? Meu deus, que nenhum fashionista me leia! O meu primeiro era de lã! De lã!!

Alguém consegue imaginar um maiô de lã, depois que entra na água? O negócio pesa pra chuchu!! E pinica. E não seca. E dá assadura. E fede. E é feio pra caramba.

Eu tinha um. E o meu até que era decente, de criança, azul escuro com uma faixinha vermelha. Imagine só o da minha mãe e do meu pai! E depois os mais – bem mais- velhos vêm reclamar hoje do tamanho do fio dental da minha filha!! Indecente eram aqueles maiôs e sungas.

Eu nem lembro como a gente chegava na praia. De carro não era, que ninguém tinha. Devia ser de ônibus ou trem. E muitas vezes, acho que a maioria, voltávamos no mesmo dia, porque ninguém tinha casa lá.

Imagine voltar com a roupa posta por cima daquela coisa de lã, piniquenta e molhada!

Deve ser por isso que eu não gosto de praia. Me dá arrepios. Coceira. Aflição.
Freud chamaria de outro nome, mas Freud era metido a besta.

Fico imaginando se algum dia ele foi à praia com uma sunga de lã...
Melhor nem pensar.

gonzaga-santos-1955.jpg Gonzaga-Santos por volta de 1955

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Comments

Como eu ri ao ler mais esta página das tuas memórias!
E não é que há aqui mais uma coincidência?
É que a primeira vez que fui a uma piscina (na minha terra não havia praia) não tinha maiô. E uma amigo emprestou-me um que tinha por lá arrumado, e que tinha sido de um irmão mais velho.
E sabes como era? De malha e ainda por cima, com peito e alças... Só o padre usava um desse género pois nesse tempo, os sacerdotes não podiam mostrar o peito.
De facto, pesava como chumbo e fazia bolsas enorme...
Sem falar da gozadela monstra que levei da outra molecagem.
Jurei para nunca mais!

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