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abril 28, 2008

imbroglio

Um avô italiano.
Um avô italiano que deixa mulher e filhos na Itália e vem, sozinho, ao novo mundo.
E vem ( ou vai) pra Argentina.
E lá fica por 10 longos anos.
Depois disso, volta à Itália.

E a vida continua. Filhos crescem e casam e têm, eles também outros filhos, que crescem e casam e.. a vida continua.

Um belo dia, uma xereta da família descobre que, lá na Argentina, há também outro xereta procurando parentes. Que tem o mesmo avô. Nascido na mesma micro aldeia italiana.

E pronto! Está feito o imbroglio. Ou o entrevero. A confusão é bilingue.

E as versões aparecem.

Que teria acontecido a este senhor que larga mulher e filhos pra tentar a vida noutro continente e desaparece por dez anos?

Teria ele dado notícias nesse tempo? Ou simplesmente “ido até ali comprar um cigarro e já volto”?

Teria ele constituído nova família na Argentina? E porque passados dez anos largaria essa nova família e voltaria pra antiga?

Remorsos? Comparações? Talvez quisesse propor uma aliança ítalo-porteña? Seria ele portador de crises decenais, como algumas economias?

Nunca saberemos, mas as versões correram soltas.

Até se descobrir que os avôs tinham o mesmo nome mas não a mesma idade. Um chegara à Argentina com 17 anos, outro com 30 e poucos. Um viera com os pais e morrera por lá mesmo, aos 38. O outro viera só e voltara à Itália, lá morrendo velhinho.

Apenas um caso de homônimos. Provavelmente parentes.
Pena! As versões eram muito mais interessantes.

E afinal, o que cazzo fez este avô na Argentina por dez anos?

Sei lá. Eu, de minha parte, vou dançar um tango argentino.
Não é o que recomenda o poeta?
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abril 22, 2008

Feria del libro

Começou em Buenos Aires a Feira Internacional do Livro. Irá até o dia 12 de maio.Tenho por lá uma amiga, editora da Corregidor, que vai estar lá. Eu também vou estar lá, conhecendo a Feira e visitando Paula. E tangueando, é claro!
E foi a pedido dela que escrevi esta croniqueta sobre Feira do Livro.

Eu sei que é bom. Mas remédio também é bom e nem por isso eu gosto.
Estou falando de feira de livros.
Adoro livros.
Tudo começou com a palavra falada e posteriormente escrita. Adoro falar. Lembro que na escola primária havia duas notas: de aprendizagem propriamente dita e de comportamento. Onde se incluía falar demais da conta. Eu sempre tirei notas vermelhas de comportamento. Não porque não fosse comportada, mas falava e falava e falava.
E quando aprendi, finalmente, a escrever: escrevia, escrevia e escrevia.
Assim, sou apaixonada por palavras. Existem umas que me provocam estremecimentos de prazer até hoje: cavilosa, aliás, absurdo... Assim como é muito difícil explicar amores, também não sei explicar estes, por estas palavras.
E adoro livros, por consequência.
Mas feira de livros me dá um não sei quê. Como se houvesse uma feira de filhos, de bichos, de amores. Parece que certas coisas não deviam ser vendidas, assim, numa feira. Como abacate, banana, melancia ou meias.
Livros são mundos. Livros são amigos. Livros são amantes. Livros são companhias quando o mundo desmorona, companhias quando a solidão espanta, companhia quando a imaginação escasseia.
Livros deviam ser manuseados com carinho, sem pressa, sem urgências comerciais. Cheirados, olhados, namorados, abertos e fechados, com a paciência do primeiro amor, da primeira transa, de como devia ser o primeiro amor e a primeira transa.
Assim numa correria, assim ao atacado, assim todos juntos, não sei, parece uma suruba literária sem muito critério.
E eu sou muito puritana em meus amores.
Um de cada vez.
Sem pressa.
Sem azáfama.
Devagarinho.
Mas já que feiras existem quer eu queira, quer não, já que parece ser uma forma razoável de estimular a compra e – espero – a leitura, voilá!
Viva a feira de livros!
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abril 17, 2008

felicidade na ponta da escova

Tem coisa que pouca gente ainda faz. Pelo menos em casa.
Engraxar sapatos.
Eu engraxo. Os meus, os do maridão.

Quer saber a verdade mesmo? Gosto de engraxar.

Veio de quando eu tinha uns sete anos e meu irmão do meio, o mais próximo a mim, foi servir o exército. Tinha que engraxar as botas militares.

Era todo um processo complicado. Lembro que ele limpava, escovava, passava a graxa, molhava um pouco, sei lá porque, e lustrava e lustrava, até aquilo virar um espelho.

Minha mãe costumava pagar a uns garotos que passavam por casa pra engraxar os sapatos de todo mundo. Ela punha os sapatos todos enfileirados e eles passavam um bom tempo ali no quintal, engraxando. Dava gosto ver o resultado.

Meu pai não saía de casa sem sapatos engraxados. Engraxar ele não engraxava, mas pedia pra fazerem pra ele. Quem estivesse mais à mão.

Eu não era muito assediada com esse pedido. Era pequena e não tinha força suficiente pra dar o brilho necessário.

Mas gostava de olhar a operação.

Também gostava de, no centro da cidade, onde antes se tomava o “papa-fila”, um ônibus enorme, ficar olhando os engraxates ali pelo Anhangabaú, com graxas de todas as cores, com aqueles papelões que eles punham dentro do sapato, pra não sujarem as meias. Nunca vi mulher sentando-se naquelas cadeiras pra lustrar os sapatos. Não sei porque, também.

Então, quando casei, junto com uma cestinha de costura, herdei também uma “caixa de engraxar”! Uma caixa de sapatos grande, com pelo menos 3 tipos de escova – a preta, a marrom e a sem “cor”, vários tipos de graxa, flanelas e tintas pra sapato.
Outra coisa antiga: tinta pra sapatos.

Mas quem dança como eu, e leva pisões, sabe a importância de tinta pra sapatos.

E de sapatos limpos e brilhantes.

Bobagem? Pode ser.
Mas me faz feliz.

Um belo par de sapatos engraxados.
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abril 15, 2008

maiô de lã

Estava aqui, sozinha no meu canto, lendo um amigo-Brancoleone-e o cara me fala em “bóia preta”. Tá bom, sei que quase ninguém sabe o que é bóia preta. E pior, muitos poderão pensar em sacanagem...Eu explico.

Era quase. Bóia preta era uma câmara de pneu, de preferência de caminhão, daquelas bem grandes, pretas, é claro, nunca vi câmaras de outra cor, que eram enchidas e a gente levava pra praia, rio, lago ou qualquer quantidade de água em que elas coubessem com um ser humano dentro.

Dentro é modo de falar. Quando eu era pequena, tentava entrar e saía pelo outro lado. Não dava pra deitar na bóia. Então ficava do lado de fora, segurando. Isso há uns 2 metros da praia, que nem minha mãe, nem meu pai, nem tias, nem tios, nem primos adultos – aqui preciso abrir outro parêntesis: a gente ia na praia em bloco. Pelo menos a gente mais pobre. E levava farofa, sim! Bom, saindo do parêntesis, ninguém deixava a nós, crianças, se afastar da praia mais do que a distância do berro da mãe.

E o maiô? Meu deus, que nenhum fashionista me leia! O meu primeiro era de lã! De lã!!

Alguém consegue imaginar um maiô de lã, depois que entra na água? O negócio pesa pra chuchu!! E pinica. E não seca. E dá assadura. E fede. E é feio pra caramba.

Eu tinha um. E o meu até que era decente, de criança, azul escuro com uma faixinha vermelha. Imagine só o da minha mãe e do meu pai! E depois os mais – bem mais- velhos vêm reclamar hoje do tamanho do fio dental da minha filha!! Indecente eram aqueles maiôs e sungas.

Eu nem lembro como a gente chegava na praia. De carro não era, que ninguém tinha. Devia ser de ônibus ou trem. E muitas vezes, acho que a maioria, voltávamos no mesmo dia, porque ninguém tinha casa lá.

Imagine voltar com a roupa posta por cima daquela coisa de lã, piniquenta e molhada!

Deve ser por isso que eu não gosto de praia. Me dá arrepios. Coceira. Aflição.
Freud chamaria de outro nome, mas Freud era metido a besta.

Fico imaginando se algum dia ele foi à praia com uma sunga de lã...
Melhor nem pensar.

gonzaga-santos-1955.jpg Gonzaga-Santos por volta de 1955

abril 10, 2008

de escolhas

Havia aquele monte de histórias infantis povoando sua cabeça. Por que não buscar saída em alguma delas?

Deixar o cabelo crescer até matar de inveja uma evangélica das mais empedernidas? E usar como corda pra trazer o amado dos seus sonhos até sua torre inatingível?

Fora de cogitação. Seu cabelo nunca passara do pescoço, jamais passara a fase da coceira na nuca.

Levar quitutes pra vovozinha? Na busca de um caçador bem apessoado, corajoso, audaz, embora a custa da exposição arriscada a um lobo devorador? Valeria a pena? E se o caçador fosse como tantos outros que, ganho o primeiro troféu, botasse a pele do bicho aos pés do sofá da sala e a cabeça na parede, qual veado engalhado?? E nunca mais caçasse nada, nem mesmo as baratas da cozinha?? E se??

Deixar-se adormecer por séculos seculorum mediante uma poção? Dois problemas: o risco da overdose, o risco do beijo no escuro. Qual seria o pior? O beijo da morte ou o beijo da fera?

Não. Não ia decidir por aí.

Bom, tinha aquela do João e Maria. E ela, mesmo não tendo João nenhum em vista, achava a idéia da casinha na floresta feita de balas, chocolates e doces muito bem elaborada.

Pensando bem, a estorinha dispensava a presença do João.

E foi pensando nisso que, afinal, resolveu atacar a geladeira.
Sem João, sem príncipe, sem caçador.

Mas tem dias em que essas coisas todas são menos apetitosas que uma mousse de chocolate.
Ou não?
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abril 7, 2008

scrooge era pinto.

Poucas coisas me deixam mais feliz do que jogar coisas fora.
Meus pais, principalmente meu pai, ficava feliz com guardar. Dizia que se sentia rico guardando coisas. Qualquer coisa. De resto de barbante a noticia de jornal velho.

Eu me sinto rica jogando. Sim, porque acho que só quem tem muito é que pode jogar. Eu não tenho muito. Nunca terei. Mas jogo o que tenho, assim me sinto rica.

Tá bom, não sou louca nem perdulária. Nem politicamente incorreta. Não jogo garrafas (vazias) nem papelões. Nem latas nem rolhas. Nem papel nem jornal. Boto pra reciclagem.

Nem comida – faço pouca pra não sobrar- nem roupa, que já compro em brechós mesmo. Daí, não há o que jogar quando acho que elas acabaram sua missão na terra. Corto em pedaços e vira trapo ou tapetinho pras cachorras.

Também não jogo jornais velhos. Dou pra vizinha do lado, que os usa pros cachorros. Em troca, ela me repassa revistas de fofocas, que a filha dela é viciada. Está tentando me viciar mas resisto. Olho as figurinhas e repasso pra minha cunhada.

Não jogo tampouco colares e pulseiras quebrados. Os meus são todos de sementes, quebram ao fim de um certo tempo. Reutilizo as contas em outros. Reciclo. Faço de colares pulseiras e de pulseiras anéis.

Não jogo restos de lã e linha. Tenho toda uma série de blusas e toalhas de crochê e tricô estilo patchwork. Não que eu goste tanto assim, mas sabe como é...

Agora os milhares de LPs do maridão eu jogaria.
E todos os cadernos de toda a vida escolar pregressa de minha filha também.

Nem um nem outro me permite fazer isso!

Eita pessoal com mania de guardar coisas...!

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abril 3, 2008

administração de bens

Tenho mais de cem colares de sementes
Mais de 20 pulseiras de plástico
Nenhum relógio
Mais de 40 pares de brincos de bijouteria de pressão.
Uns 15 pares de sapato, incluindo aí dois pares de tênis

E é só.
Tenho também mais de 290 posts aqui colocados nestes últimos quatro anos.

Minha herança.

Meus colares pra minha filha, que sempre os usou. As pulseiras também.
Brincos não, que ela furou as orelhas, à minha revelia, mas furou.

Os posts pro meu filho, que foi quem fez o convite pra eu vir pro Gardenal e fez meu layout.

Meus sapatos vai ser difícil. Calço 39 ou 40. Talvez pra uma drag mais modesta.

Agora o nenhum relógio quero deixar pro maridão, que gosta muito de pontualidade. Quem sabe assim ele relaxe. E aproveite.

Minha coleção de bolas de vidro com neve dentro.
Prum museu do kitsh. Que ainda não existe por aqui, mas deveria.

Testamento? Nem pensar.

Só falta do que escrever numa manhã chuvosa...

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