padaria
Foi minha primeira incursão no mundo sem gente grande por perto. A ida à padaria. Uma incursão radical. Ficava a menos de 200 metros de casa. No caminho, atravessava um terreno baldio cheio de amoras. Dava pra fazer uma boquinha antes de cair efetivamente de boca no pão da padaria.
Na padaria daquela época, comprava uma bengala. Ou um pão de banha. Nada de pão francês e muito menos pão de forma, coisa só pra dia de festa, pra cortar transversal e fazer sanduiches.
Na padaria comprava fermento. Pra minha mãe fazer pães doces. Imagina só, comprar pão doce pronto!
Na padaria minha mãe mandava assar o leitão de natal. Ou o cordeiro. Naquela época não existia chester e peru não era moda. E leitão e cordeiro ou pernil daqueles grandões não cabiam no forno de casa, fogão pequeno de 4 bocas. Eram assados na padaria.
Na padaria comprava-se a cerveja e os refrigerantes, guaraná e soda limonada, claro. Em garrafas de vidro. Recicláveis. Que iam e voltavam, bastando trazer ou levar com a gente uma espécie de recibo, dizendo quantos “cascos” tinham ido ou voltado. E não, não estou falando de certas patinhas...casco era o recipiente de vidro, sei lá porque assim chamado.
Na padaria a gente telefonava, numa época em que pouca gente tinha telefone em casa. A gente ia até lá só pra telefonar. Em casos de urgência uns, namoro outros. Mesmo assim, só namoros sérios. Ninguém ia ficar pagando e tendo trabalho só pra ligar.
Na padaria eu comprava meus doces preferidos: de abóbora e batata doce roxa, aqueles durinhos, em formato de coração ou rodelona.
Na padaria também comprava pirulitos.
Na padaria o dono era português. E falava com um tremendo sotaque. E me chamava de “ó menina” .
A padaria tinha nomes assim como “ a flor de trás os montes”, “ a princesinha lisboeta”, “ altiveza”, “vila real”.
A padaria embrulhava o pão em papel pardo. E o leite vinha em garrafas de vidro tampadas com papel alumínio. E o fermento em papel mais claro, num montinho.
A padaria era o porto seguro, o esteio, o ponto de encontro, uma referência social de todo bairro.
Saudade da padaria? Não.
Saudade dos meus oito anos.
Comments
Mais uma vez a despertar-me memórias da minha infância.
Desde muito novo, também comecei a ir fazer as pequenas compras de que a minha mãe precisava.
Não só à padaria, como à mercearia, à carvoaria...
Mas, como julgo ser um pouquinho mais velho do que tu, as coisas ainda eram mais primárias. Por exemplo, o leite só começou a aparecer nessas garrafinhas, um pouco mais tarde do que os meus 8 anos. Nessa altura, eram as leiteiras que vinham a casa, com umas grandes bilhas e vendiam o leitinho aos litros ou meios litros, que vertiam directamente para o fervedor.
Mas sabes, por outros motivos, não tenho muitas saudades desses meus oito anos...
Posted by: peciscas | março 15, 2008 3:31 PM
Muy emocionante leer este texto tan lleno de cosas bellas, a la vez cercanas y lejanas
La leche en frascos! eran tan hermosos y además reciclabes.
Prometo volver con más frecuencia, tu blog es uno de mis favoritos.
Un beso
Posted by: Alvaro Ramirez | março 16, 2008 9:37 AM
Alvaro: lo que sí, me impresiona y mucho es lo que tenemos todos de cosas en común en nuestra memoria, independiente de donde somos! Abrazos
Posted by: Che Caribe
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março 16, 2008 4:15 PM
Peciscas: ah, esta nossa língua portuguesa!! Suponho que fervedor seja chaleira...Carvão sempre há muitíssimo por aqui, pois esta é a terra do churrasco! Antigamente São Paulo era a terra da macarronada dos domingos, herdada dos italianos, da bacalhoada da páscoa, herdada dos portugueses e dos doces e salgados árabes. Hoje temos a franca supremacia do churrasco e do, imagine o que? Sushi e sashimi! Além da pizza, é claro.
Esta cidade é uma mescla de tudo, um verdadeiro caldo ( ou caos) cultural! Gosto disso. Mas odeio churrasco :)
Posted by: Che Caribe
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março 16, 2008 4:19 PM
Que lembranças ótimas nos trazem a nossa infância, obrigado lendo revivi a minha própria.
Posted by: Eduardo | março 18, 2008 3:57 PM
da padaria
Posted by: bruno simoes de campos | julho 1, 2008 9:08 PM