« fevereiro 2008 | Main | abril 2008 »

março 31, 2008

banheiro e ócio

Acho difícil ficar sem fazer nada ou só fazer uma coisa por vez. Assim, banheiro é um lugar complicado. Porque as coisas que se fazem lá ou exigem muita concentração e aí fica difícil achar outras pra fazer simultaneamente ou são mesmo complexas e aí também complica.

O número 1 e o número 2 : bom, dá pra ler ao mesmo tempo, é claro. Em todo caso, procuro ler coisas mais amenas, tipo caderno B do jornal, no número 2. É que a concentração necessária é maior. Já pro número 1 dá pra ler até o caderno de dinheiro ou política. Embora o de política combinasse mais com o número 2, ultimamente. Enfim!...

Banho: aí é uma festa! Dá pra fazer bolinhas de sabão, dá pra desenhar na porta do box, dá pra desenhar com cabelo nos azulejos, dá pra brincar de singing in the rain com o chuveirinho, dá pra brincar de punk capilar modelando penteados com sabão, dá pra brincar de atriz fazendo propaganda de sabão cheia de espuma e dá até pra ...tomar banho!

Pintar unhas: as da mão nunca pinto mas as do pé dá pra esperar o efeito do bronzeador sem sol enquanto pinta. Dá uns 20 minutos de espera. Depois você fica assim: com as unhas do pé vermelhas e o resto do corpo amarelo hepatite. Um luxo!

Tirar pelos em geral : pode fazer enquanto espera as unhas dos pés secarem.

E mais! Tudo o que não for dentro do box dá pra fazer enquanto o maridão toma banho lá. Ainda aproveita o vapor todo – que maridão toma banho fervendo – pra uma limpeza de pele rápida.

Puxa! Eu adoro banheiro. E detesto ociosidade...

pinup banheiro.jpg


março 26, 2008

ver por dentro

Quando meus filhos nasceram não havia ultrassom. Só fui saber quem eles eram quando eles botaram a cara no mundo. Foi legal. Um garoto. Dois anos depois uma menina.

Não creio que gostaria de ter sabido antes. Mas não tenho certeza.

Passamos meses escolhendo e brigando por nomes. Passei meses imaginando as carinhas, dependendo se fosse mulher ou homem. Também foi muito bom a menina ter puxado os olhos do pai e o garoto ter puxado minha cor. Acho que é o que a gente tem de melhor.

Mas estou falando disso porque me causa espanto o que de novo se inventa por aí pra “ver por dentro”.

Depois que passei dos 40 mais ou menos, os médicos vivem querendo me “ver por dentro”. É um tal de ultrassonografia vaginal, de densitometria óssea, de ver minha bexiga, meu coração, meus pulmões, meus tornozelos.

Quando vou ao médico, mal ele olha pra mim e já sai preenchendo um pedido de exame. Quer me ver por dentro. A parte de fora, essa ele nem liga.
Muito introspectivos, os médicos de hoje.

E eu mesma me espanto com este meu “lado B”, ou o lado de dentro.

Ultimamente descobriram umas manchinhas no meu estômago. O médico disse que tudo bem. Que todo mundo tem. Não sei se isso me consola. Todo mundo pode estar prestes a ter qualquer coisa. Não me agrada estar nessa leva.

Diz meu ortopedista que tenho tornozelos de jovem de 25 anos.
E daí? Meu espelho não cai nessa.

O gastroenterologista diz que 40 dias tomando umas pílulas de 150 reais meu estômago fica novo. É só eu diminuir a ansiedade e tentar relaxar. Com esses preços de remédio fica difícil.

No fim o que eu tenho mesmo saudade é do tempo em que os médicos, a força de atenção e anamneses bem feitas conseguiam virar a gente do avesso.

E aí então, ver por dentro.

medical_bag2.jpg.


março 19, 2008

soda cáustica com guaraná

Quem tem uns 30 anos pra menos, nem sabe do que estou falando. Pois pra mim, 30 anos pra muitos mais, soda cáustica com guaraná já passou duas vezes na minha vida.

A primeira foi com um primo distante. Bom, distante o parentesco, que ele morava na esquina de casa, bem pertinho, portanto. E tinha uma namorada. Dona de um bar/boteco/quitanda ou algo assim, ali na esquina. Me desculpem, mas eu tinha cinco anos e não sabia diferençar bar de boteco ou de quitanda. Acho que nem hoje sei. Mas isso não vem ao caso.

O caso é a soda cáustica com guaraná. Não sei porque- parece que a namorada dele era casada- eles combinaram se matar. Poderia ter sido com soda limonada, talvez até com Crush, refrigerante nojento da época, que até nem precisaria de soda cáustica pra ser fatal. Isso na minha opinião, porque tem quem goste.

Voltando, combinaram uma dose conjunta de soda com guaraná. Ele tomou. Ela não. Ele morreu. Ela não. Um caso clássico de dessincronia. Ou filhadaputice. Ou timing. Sei lá. Eu tinha cinco anos, não sei se já disse...

Depois, pouca coisa mais tarde, já noutro bairro, a filha da vizinha tinha um noivo que resolveu “romper o compromisso”. Naquela época noivado era compromisso e podia ser rompido. Não era de bom tom mas acontecia.

A filha da vizinha radicalizou. Foi fundo na soda cáustica com guaraná.

Bom, não tão fundo. Medicada a tempo, ficou pro resto da vida com uma tremenda gastrite, marcas na boca devidamente escondidas pelo eterno uso de batom vermelho e marcas na alma, acho que nunca mais aplacadas.

O ex-noivo? Dizem que nem no hospital foi.
Falta de amor, de tempo ou de caráter.
Não sei.
Nessa altura eu tinha oito anos.

O que acabou me servindo de lição, precocemente aprendida, foi que soda cáustica com guaraná não é uma boa. Nem compromissos sentimentais unilaterais.

alice.jpg

março 17, 2008

engenharia genética ou coração de mãe

Sabem aquelas brincadeiras de juntar um pedaço daqui, outro dali e tentar montar a mulher ou o homem ideal?

Eu tento desmontar. A mulher. Que de ideal não tem nada. No caso, eu.

Os olhos caídos. Do meu pai, claro. E de todos os 10 irmãos dele. A miopia é minha, original. O meu toque pessoal à família e seus futuros descendentes.

As pernas magras. Da minha mãe. E do meu pai. E de todos os 10 irmãos dele e os 3 dela. Não tinha como ser diferente. Mas meu pai jogava futebol e dizia que as pernas magras eram um trunfo. Como as tortas do Garrincha. Mas segundo dizem, ele jogava mal. Então não sei bem que trunfo seria esse. Quanto a mim, que nem futebol jogo, de que servem as pernas essas? Bom, não tenho celulite. O que pra muita gente é tudo. Pra mim não é nada.

Os cabelos precocemente enbranquecidos. Dos 30 aos 40 eu botava banca de argentina. Como se aquela grisalhice toda fossem reflexos. Argentinas adoram reflexos. Mas quando cheguei aos 40 e não tinha mais reflexo nenhum, e tornou-se tudo aquela brancura antártica, tive que tingir. Varia bastante, mas sempre em torno de um mesmo tema: vermelho.

As unhas das mãos e dos pés: cascudas. Grossas. Como de ave de rapina. Chic né? Aposto que se as deixasse crescer como o Zé do Caixão elas não quebrariam nem com meio metro. Nunca quebraram, em toda minha vida. Dá pra aparafusar com elas. O que seria de grande utilidade. Se eu fosse marceneira. Não sou. Pena.

A dor nas costas. Essa é minha mesmo. Podia ser pior. Minha avó materna era corcundíssima e minha mãe um pouco menos. Eu mantenho boa postura. E sei o preço que pago por isso. RPG uma vez ao ano, condicionamento físico, dança e força de vontade. Até quando não sei.

Dizem por aí que a gente está na idade das juntas. Junta tudo e joga fora.
Eu discordo. O maridão também. Pelo menos é o que ele diz.

E os filhos. Ah, os filhos herdarão a terra.
O maior herdou os olhos, mas não a miopia.

A menor herdou a teimosia, mas não a coxa fina.

E, graças ao mix genético, são lindos.
E a mãe, a mãe é essa corujona de unhas grossas e patas finas...

mulherfrank.jpg

março 13, 2008

padaria

Foi minha primeira incursão no mundo sem gente grande por perto. A ida à padaria. Uma incursão radical. Ficava a menos de 200 metros de casa. No caminho, atravessava um terreno baldio cheio de amoras. Dava pra fazer uma boquinha antes de cair efetivamente de boca no pão da padaria.

Na padaria daquela época, comprava uma bengala. Ou um pão de banha. Nada de pão francês e muito menos pão de forma, coisa só pra dia de festa, pra cortar transversal e fazer sanduiches.

Na padaria comprava fermento. Pra minha mãe fazer pães doces. Imagina só, comprar pão doce pronto!

Na padaria minha mãe mandava assar o leitão de natal. Ou o cordeiro. Naquela época não existia chester e peru não era moda. E leitão e cordeiro ou pernil daqueles grandões não cabiam no forno de casa, fogão pequeno de 4 bocas. Eram assados na padaria.

Na padaria comprava-se a cerveja e os refrigerantes, guaraná e soda limonada, claro. Em garrafas de vidro. Recicláveis. Que iam e voltavam, bastando trazer ou levar com a gente uma espécie de recibo, dizendo quantos “cascos” tinham ido ou voltado. E não, não estou falando de certas patinhas...casco era o recipiente de vidro, sei lá porque assim chamado.

Na padaria a gente telefonava, numa época em que pouca gente tinha telefone em casa. A gente ia até lá só pra telefonar. Em casos de urgência uns, namoro outros. Mesmo assim, só namoros sérios. Ninguém ia ficar pagando e tendo trabalho só pra ligar.

Na padaria eu comprava meus doces preferidos: de abóbora e batata doce roxa, aqueles durinhos, em formato de coração ou rodelona.
Na padaria também comprava pirulitos.

Na padaria o dono era português. E falava com um tremendo sotaque. E me chamava de “ó menina” .
A padaria tinha nomes assim como “ a flor de trás os montes”, “ a princesinha lisboeta”, “ altiveza”, “vila real”.

A padaria embrulhava o pão em papel pardo. E o leite vinha em garrafas de vidro tampadas com papel alumínio. E o fermento em papel mais claro, num montinho.

A padaria era o porto seguro, o esteio, o ponto de encontro, uma referência social de todo bairro.
Saudade da padaria? Não.

Saudade dos meus oito anos.

leite.jpg

março 10, 2008

Vlad Jr

Vejo no contador de visitas do blog um tal de Vlad Jr, da Romania.

Não tem como não imaginar coisas! Da Romania sei quase nada. Lembro agora de um livro fantástico, do Campos Carvalho, o Púcaro Búlgaro. Ele também não sabia nada sobre a Bulgária. Ou tanto como eu da România. Mas ele era ele, escreveu um livro. Eu faço um post. Um post de segunda feira.

De Vlad sei um pouco mais. Era o nome do vampiro mor. Ou é, que os filmes continuam atualizando a lenda. Gosto do nome. Do vampiro nem tanto. Nem é fetiche pra mim. Ainda se fosse um bombeiro morenão...

Mas fico imaginando um Vlad Jr. Que pertence à geração fast food. Ou fast drink. Ou seja lá como for que ele prefira o seu sanguinho.

Talvez nem goste mais de sangue in natura, coisa mais natureba...Talvez prefira em forma sólida. Em balas mastigáveis ou no bom e velho choriço, aquele embutido de sangue coagulado que quando meu colesterol não me enchia o saco, eu adorava, fritinho com cebolas!

Talvez ele, radical como os juniores costumam ser em certas fases da vida, repudiando seu nome herdado, seja lacto-vegetariano. Só leite e verdurinhas. Nem mesmo baterraba, que deixa o xixi vermelho e pode lembrar sangue. Nada que lembre as tradições familiares.

Mas aí o tempo passará e o Vlad crescerá. E passando a fase adolescente, começará a rever valores, a pensar que o Vlad pai talvez não estivesse tão errado assim, a sentir um certo prazer no cheirinho doce do sangue, a...

Bom, entra Vlad, sai Vlad, a tradição deve ser mantida.

É claro que ele, moderno, não cairá matando no pescoço de ninguém. Sangue em pó. Liofilizado.

Em barras, misturado a cereais. Dietético.

Em yogurtes, vitaminado.
Sabe-se lá...

Mas e afinal, o que um Vlad Jr veio fazer no meu blog??
Meda...

vlad.jpg

março 5, 2008

crônica odontológica

Eu que adoro sonhos (acho-os divertidos) e adoro Freud (também acho divertido) e, afinal, me formei em psicologia ( ultra-divertido), não consigo me conformar com meus sonhos recorrentes. Além daquele do afogamento-em-represa-salva-por-índio-americano-de-filme-sessão-da-tarde, tem o de que perdi meus dentes todos, de repente acometidos por uma erosão brava, daquelas de terremoto-em-filme-americano-em-sessão-da-tarde. Tá legal, eu acabo assistindo muito sessão da tarde enquanto passo roupa e dá nisso, eu sei. Mas o sonho acontece e com bastante frequência.

Felizmente eu acordo (ufa) e descubro que meus 20 mais ou menos dentes ainda estão lá. E que minhas pontes e jaquetas também. Que alívio!

Existe implante. Já li bastante à respeito. E ultimamente assisti de perto à odisséia de pessoa da família que passou – está passando – por isso.

Ulisses e sua saga são fichinha perto do que é isso. Todo um processo de bota pino, bota parafuso, espera um tempão, bota dente. Se fosse só essa botação de coisas na boca, ainda vá. A boca foi feita pra isso mesmo, afinal. Pra botar coisas dentro dela. Que o diga minha filha, pega aos meses de idade, no jardim, botando minhoca na boca e meu filho botando coisas piores...Eu mesma, cada vez que vou à Argentina, faço questão de botar goela abaixo o máximo de chinchulines que aguento, o que, convenhamos...mas deixa pra lá.

Como dizia, se fosse só isso, tudo bem. Mas a dor! Ah, a dor!

A dor transforma aquele homem amoroso e dócil com o qual – e por motivo dessas qualidades mesmo- me casei, em fera enjaulada tratada a chibata e jejum. A dor transforma o homem forte em gato miador, a dor desconstrói mais que estilista em época de fashion week. A dor é tudo.

Então tá decidido: fico com meus vinte e pouquinhos dentes, minhas jaquetas, minhas pontes, tudo aquilo que ainda existe na minha boca e me permite comer minhas verdurinhas e não se fala mais nisso.

Porque eu já me acostumei com minha personalidade. E minha religião não permite dor.

E, provavelmente, vou continuar sonhando que meus dentes caíram todos.
O que, afinal, um dia vai acontecer.

Mas sopa a gente toma de canudinho, né não?

implante.jpg

março 1, 2008

listagens e bobagens

10 Coisas que já tive- um breve balanço

Já tive dente de leite
Já tive ímpetos assassinos
Já tive panarício
Já tive amor não correspondido por James Dean
Já tive uma tartaruga horrorosa
Já tive 30 anos
Já tive uma boneca de porcelana que tinha articulações nos braços e pernas
Já tive uma conga azul e branca
Já tive óculos gatinho
Já tive um colar de pérolas

10 coisas que nunca terei – um breve delírio

1 milhão de dólares
Um Porsche vermelho
Cabelo comprido
Unhas pintadas ( da mão)
Vontade de fazer pesca submarina
3 filhos biológicos
coxas grossas
samba no pé
bolsa luis vuiton
paciência com demoras

oculosgatinho.jpg