prepotência
Eu gosto do que gosto. À medida em que o tempo foi passando e eu passando por ele, foram-se firmando gostos. Na música, na literatura, na comida, nos sons em geral, nos cheiros, na vida.
Mas são meus os gostos. Às vezes são iguais aos de outras pessoas e aí é muito bom. Porque eu gosto muito de gostar acompanhada. O gosto fica mais gostoso, se é que me entendem.
Mas sei que nem sempre é assim.
Sei que nem todo mundo ama ouvir Célia Cruz em altos brados. Sei que nem todos – mesmo os argentinos- gostam de chinchulines. Sei que poucos amam a cor roxa como eu. Tá bom, talvez os padres em época de quaresma, sei lá. Eu não gosto de padres.
Sei que o cheiro do patchuli agrada muitos, mas esses muitos não devem ser os fabricantes de perfumes. É difícil achar um bom perfume que cheire a patchuli, como um bom perfume deve cheirar. Eu pasto pra achar.
Falando em pasto, já falei aqui que não gosto de vacas. E muito menos de carne de vaca. Mas sei que a maioria gosta. Tenho uma filha que se comove só de pensar em picanha. É a vida.
Tento não impor meus gostos a ninguém. Sei que já fiz isso no passado. Meu passado me condena. Mas eu agora no presente me absolvo. Eu, que sou meu pior juiz, me dou ao luxo de me absolver. Já paguei essa pena.
No passado já fumei como uma chaminé descontrolada e impus isso aos meus filhos e amigos. A todos que chegavam perto de mim. Me beijar devia ser terrível. Ainda bem que meu marido fumava cachimbo...
Hoje não fumamos. Foi difícil mas foi possível. E não imponho mais esse meu gosto a ninguém que não goste de cigarro como eu gosto. Porque eu ainda gosto. Não fumo mais há oito anos mas ainda gosto.
O que não gosto é da imposição.
E o que eu queria saber é por que raios aqui não cola essa lei de impedir o fumo em lugares fechados!! É a tirania do gosto. Você tem que engolir a fumaça alheia quer queira quer não.
Ah, sim! O preço que eu paguei e pago por meus 30 anos de fumante? Uma rinite que me fecha a garganta e me põe a espirrar numa velocidade de 2 ou 3 espirros por minuto, em presença de fumantes em lugares fechados.
Sim, é segunda-feira, estou mal-humorada, passei a noite ontem na única milonga de domingo sentada a dois metros de um argentino prepotente, fumando sem parar cigarrilhas fedorentas. E ele nem tossia, enquanto eu lacrimejava e espirrava.
Ô mundo injusto!
Comments
Já sabia, e confirmei, que temos mutos gostos e (des)gostos em comum.
Por exemplo, a Célia Cruz.
E por exemplo, detestar que se fume perto de mim.
Porque também abandonei o vicio (há cerca de 25 anos) e, por isso, não quero que me obriguem a fumar.
Aqui, como sabes, entrou em vigor a lei anti-fumo em locais fechados (enfim, quase todos).
E agora, lá se veem os fumadores, a matar o vício, à porta dos cafés, das lojas, dos centros comerciais.Pode ser uma situação algo deprimente para os próprios, concordo.
Mas,agora, pelo menos, eu posso entrar em locais aos quais não me podem impedir de ir, sem ter de levar com fumarada em cima.
Posted by: peciscas | fevereiro 11, 2008 2:40 PM
menina, nem te conto. parei de fumar e de beber, to passando por isso aí em dobro! bjks
Posted by: andrea | fevereiro 12, 2008 3:56 AM
Peciscas: depois que parei de fumar e comecei a dançar e fazer caminhadas, descobri que tenho pulmão e que é uma delícia vê-lo funcionando bem! Fiquei viciada em maçãs verdes e cenouras (comidas barulhentas) pra dar conta da falta do cigarro, mas isso não mata. hehehe!
Andrea: que bom!! Em pouco tempo você verá como sua voz ficará (ainda) melhor!! Quanto a parar de beber, sei não, um vinhozinho de vez em quando, tinto, até meu médico recomendou! E deu na Folha de hoje que transar muuuito diminui perigo de infarto. Então é isso aí! Vamos à luta menina! Sem cigarro mas com muito amor...
Posted by: maray | fevereiro 12, 2008 11:37 AM
Detesto cheio de cigarro e fumos em geral – líticos ou não.
Queria mesmo era me viciar em escrever, virar escritor, descobrir um potencial. E namorar, claro, que agora eu tô que tô.
Posted by: Elesbão | fevereiro 12, 2008 2:46 PM
Amiga, dicen que sobre gustos no hay nada escrito, aunque yo suelo ver miles de hojas cubiertas con palabras al respecto.
Nunca he fumado y he recibido con alegria la ley del tabaco, mi Manuel ha fumado mucho y ahora no soporta a su lado que echen humo.
Es horrible no ver que el gusto propio puede destrozar el gusto ajeno.
Un beso
Posted by: Sole | fevereiro 12, 2008 3:09 PM
Eu nunca fumei, mas não invocava com quem fumasse perto de mim. Mas de uns tempos para cá precisei deixar de freqüentar lugares que eu gosto porque se fico muito tempo em contato com a fumaça, no dia seguinte estou de cama... também queria que essa lei pegasse, viu???
beijão!!!
Posted by: Lu Farias | fevereiro 18, 2008 6:06 PM
adorei seu texto sobre prepotência, e por incrivel que pareça,não entendo o por quê minhas professoras de teatro, oratoria, yoga e etc, cimam em me dar esse tema para interpretar, dissertar ou simplesmente meditar. Eu passei 30 anos da minha vida sem colocar um cigarro na boca, e por fim resolvi experimentar para tentar entender pq tantas pessoas tinham esse vício, confesso que até gostei, principalmente pela variedade, 15 dias após fumo constante, descobri que minha tosse e minha febre era por conta do bendito cigarro, hoje estou com crise de bronquite - coisa que nunca tive - enfim resolvi abolir o cigarro, antes que algo pior, do que os remedios que tenho tomado, me aonctecesse. Mas o motivo pelo qual escrevo é para parabenizar a forma irreverente que escreveu sobre esse tema que costuma ser repulsivo - prepotencia - e como me ajudou, pois apesar de dizerem que sou muito prepotente não me vejo desta forma, e realmente acho que ninguém percebe que é, e semana que vem terei que narrar um texto em frente as cameras (no meu curso de teatro) sobre prepotência, e amei seu texto, pena que o meu terá que ser em terceira pessoa, mas solicitando sua permissão irei transforma-lo em terceira e tentarei narra-lo desta forma muito sutil de representar alguém prepotente. Agradeço dese já sua inspiração divina, inteligente, sarcastica e bem humorada.
namastê
Posted by: Roberta | julho 5, 2008 1:22 PM
Roberta: (algo a ver com a Rosalina?)
Que bom que tenha gostado do texto! Pode fazer o que quiser com ele, desde que dê os devidos créditos :)
Prepotência não é ser a gente mesma. Prepotência é querer que todo mundo seja igual, acho eu.
abração
Posted by: Che Caribe
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julho 5, 2008 3:20 PM