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coisas pequenas pelo chão

Dizem muitos que as pessoas são aquilo que comem. Aquilo que vestem. Aquilo que escutam. Aquilo que lêem.

Meu pai, acho eu, era aquilo que pegava pelo chão.

Nunca o vi fazendo qualquer serviço doméstico que não fosse varrer o chão. Gostava de chão, o meu pai.
E era pro chão que ele olhava ao andar. Andava rápido, o meu pai.

Quando, nas noites dos últimos anos, ele se pôs a fugir, movido pelo Alzheimer e pelos pés ágeis, era difícil encontrá-lo. Andava muito.

Em pequena eu andava muito com ele. Pra cada passo dele, eu tinha que dar dois ou três, como cachorrinho pequeno em volta do grande. Eu bem que tentava harmonizar meu passo com o dele. Nunca consegui.

Hoje que ele se foi há tanto tempo e que eu aprendi – finalmente- a andar em passadas largas, poderia harmonizar. Poderia acompanhar. Quem sabe?

Ele trazia pra casa toda sorte de coisas estranhas que achava pelo chão. Uma vez me trouxe metros e metros de fio de telefone, desses que vão de poste a poste e que nenhuma serventia têm dentro de uma casa. Ele achou na rua. Alguém que consertava os fios telefônicos deixou pra trás e ele pegou. Ficou contente, o meu pai.

Trazia pedaços de barbante. Pregos. Madeirinhas e madeirões.

Se ele era prendado? Nada! Como já disse, só sabia varrer a casa. Minha mãe era quem pregava quadros, consertava ferros e chuveiros, lixava e pintava paredes. Ele só olhava, deitado no sofá, fazendo palavras cruzadas.

Mas pelas ruas ele achava coisas. Coisas pequenas, rolhas de garrafa, pedaços de borracha.
Não era prendado, não trabalhava com coisas pequenas, não consertava nada.

Se as pessoas são aquilo que acham, ele era um colecionador de coisas sem importância.

Mas um homem esperançoso. Porque toda vez que aparecia em casa com um pedaço de ferro, uma borracha, um teco de cano, os olhos sempre brilhavam ao dizer:

-Guarda aí, um dia vai servir!!

pai2.jpg

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Comments

Adorei este texto, com uma tão enternecedora como lúcida memória do teu pai.
Com um pouco mais de desenvolvimento, que não cabe na exiguidade de um post, daria um belo conto, quem sabe se uma obra ainda de maior fôlego.
Tu sabes escrever!

Amiga, de regalo de San Valentin, debe pasar por La Caja de los Hilos a recoger su premio.
Un beso y feliz día de los enamorados.

Uy, me he explicado fatal, el premio no es el cuento, es el post anterior, te he otorgado el Premio Arte y Pico, ahora si quieres tu debes darlo a alguien mas.
Lo dije tan mal que dio la sensación de que el premio era el cuento, cuando eso solo era una reflexión en este día.
Un beso guapa!!!

Gostei muito deste conto. Me gusta que sea tan tierno.

Abraçao

E serviam???? :-)))

Amei o texto. Como sempre...

beijão, querida!!!

Por supuesto, muy tierno, el post. Qual é?! Peguei o embalo. Todo mundo comentando em espanhol. Quem sabe, ainda te leio na última página da Vejinha. Ia ser, cada semana, um encantamento. Sei, sei, aqui é (quase) diário. Mas haveria muitos mais a sentir esse prazer.

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