carnavaca
Eu nunca fui muito com a cara de vaca. De todas, pra falar a verdade. Das propriamente ditas e das assim chamadas.
Com exceção de chinchulin, que é uma parte não muito nobre do intestino do bicho, cheia de coisas menos nobres ainda e que me faz lamber os beiços, o resto das vacas, bois e congêneres não me atrai. Prefiro alface.
Aquele olhar bovino, aquele rabo pra lá e pra cá, aquele andar lento e pesado, enfim, o conjunto todo da obra não me agrada.
Parece que foi de propósito. De propósito traçado no céu ou no inferno, ou onde diabos se traçam essas coisas, eu ter passado os últimos cinco dias envolvida, rodeada, olhada por esses bichos. Ter andado ao lado e infelizmente, algumas vezes por cima daquela bosta toda, deixada por infinitas vacas nestes caminhos de deus.
Fiz mais um pedaço do meu treino pra Compostela. Desta vez 104 km de trilha. Mais ou menos 21 por dia. Entre subidas ( e bote subida) e descidas ( e bote descida) e planos ( e bote barro). E não esqueça de botar bosta. Muita bosta.
Fui olhando aqueles bichos. E eles me olhando também. Descobri que vaca é curiosa. Ou eu sou estranha. Ou os dois, sei lá. Elas ficavam me olhando pelos caminhos e eu olhando pra elas. Vai que alguma se enfeza e sai correndo? Aí descobri que vaca é muito lenta. E meio medrosa. E tímida.De repente, foi me dando uma certa identificação...
Senti muito carinho pelos bezerrinhos. Como toda criança- os mamíferos, pelo menos- faziam as mesmas coisas que meus filhos quando pequenos: corriam pra todo lado, pulavam, vinham espiar, cagavam, só não brincavam de carrinho e de se pegar a tapas um com o outro, mas o resto era muito parecido.
Deu muita pena do jeito que as vacas são largadas, nos pastos sem abrigo, cheias de bernes e carrapatos. Nessas regiões por onde passamos, a filosofia é só de tirar: tiram das vacas o leite e a carne e nada dão em troca. Vi vacas ensanguentadas e feridas de tanto berne. Eu que nunca fui com a cara delas não pude deixar de sentir muita pena por aquela dor toda, aquele desconforto que os homens causam a elas. Comecei a entender melhor o olhar bovino.
Enfim, foram cinco dias ótimos. Gosto cada vez mais de andar. De ocupar por um certo tempo a cabeça com coisas fundamentais como onde colocar o pé, onde apoiar o cajado, onde buscar no mato a amora, a manga verde, a frutinha que dá pra comer.
E cinco dias no meio de vacas. A região que vai de Estiva a Campos de Jordão é região leiteira. Vi muito cavalo e galinha, mas o forte foi vaca mesmo.
Não me tornei carnívora, embora tenha comido carne esses dias, que não dá pra andar assim e viver de alface. Mas mudou um pouco minha opinião sobre as vacas.
Agora que elas podiam cagar um pouco menos, isso podiam!
Comments
Atendendo seu desejo, a comunidade científica mundial poderia desenvolver, geneticamente, bovinos desprovidos de intestinos.
Desejo boa caminhada para você e que a inspire, também, para escrever um livro e ganhar milhões de dinheiros.
Posted by: Roberto Klotz | fevereiro 7, 2008 5:13 PM
Não come carne?
Imagino vc no Mercado do Porto na cidade velha, bebendo um medio y medio pedindo alface e tortas fritas.......
Quando a Mônica, minha mulher foi pela primeira vez (ela é vegetariana) teve um surto ao ver tantos miudos, tantas carnes e me ver atacando morcilla doce. É a vida. Quanto a buesta de las vaquitas, produzem muito metano, que vai pra camada de ozônio (já!!!! essa vc num sabia!!!!)
Bj
Posted by: mauricio planel | fevereiro 8, 2008 1:50 PM
Não como carne mas abro exceções: fico horas no Entrevero, la na 21 de setiembre, comendo morcillas dulces y chinchulines...Por isso, apesar de eu reclamar da bosta das vacas, não posso reclamar dos intestinos delas...:)
Posted by: Che Caribe
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fevereiro 8, 2008 2:39 PM
Eu cá sou um bocado carnívoro.
Aqui no Porto, há um prato muito célebre que é chamado "tripas à moda do Porto".
Mas, contra o que muitos imaginam, não é feito com o intestino dos animais, mas sim com partes do seu estômago de ruminante.
Acredita que é mesmo bom...
Mas já vi, pelo teu relato, que estes dias fora, foram bacanos, e até deram para reformulares algumas das tuas convicções.
Bosta à parte, claro...
Mas, por falar em bosta, quando eu era miúdo, na minha aldeia, era costume usar a bosta de vaca, para tapar a porta dos fornos de cozer pão.
Posted by: peciscas | fevereiro 8, 2008 3:11 PM
Mas você viu que de todos aqueles bichos, o único que eu quis mesmo foi o ratinho. O resto veio sem querer. rs
***
Minha irmã diz que a cara da vaca leiteira é diferente da cara do gado de corte.
Segundo ela, a vaca leiteira tem cara de mãe, um olhar de "não me mate, por favor" e o gado de corte tem um olhar de raiva. rsrs
Pra mim é tudo igual e, concordo com você, produzem bosta demais.
rs
Bjs
Posted by: Mila | fevereiro 9, 2008 10:14 AM
Eu vi uma das fotos que retrata muito bem, quando vc diz: "Elas ficavam me olhando pelos caminhos e eu olhando pra elas"
Posted by: Peregrino sem causa | fevereiro 15, 2008 9:26 AM