abobrinha fedorenta
Gosto de reciclagem. Não exatamente essa de ficar juntando vidro, papel, etc. Tudo bem, eu junto, eu reciclo. Mas essa é a parte catadora das coisas. E eu gosto mesmo é da parte transformadora.
Talvez porque no fundo me incomode muito isso da gente envelhecer e morrer e ficar por isso mesmo. Mesmo sabendo que a gente vai reviver em merda, em chorume, em bactérias. Em coisas podres que darão origem a coisas novas. Eu ia dizer vivas , mas coisas podres são vivas. Os políticos, pelo menos.
Minha geladeira por vezes se enche de vida. Hoje mesmo descobri uma abobrinha fervilhante de vida. Podre. Em pleno processo de transformação. Não esperei pra ver o final do processo. Joguei no lixo, coisa que devia ter feito há uma semana mas eu tenho faro ruim. E no quesito limpeza de geladeira deixo a desejar.
Porém acho fascinante isso. Só lastimo ter pouca criatividade. Fico olhando as coisas estranhas pelas ruas. Os carretéis que a NET deixa pelas calçadas, que poderiam ser, além de carretéis de fios? Os pets, os guarda-chuvas escangalhados, os sofás. Como se encontram sofás das casas Bahia jogados por aí! Não sei em que se transformam. Por uns dias viram camas de cachorros vira-latas. Depois desaparecem. Outro dia vi crianças desmontando um pra fazer taco com as madeiras.
Minha mãe, quando eu era pequena, pegou um porta-champagne de prata e furou pra virar vaso de planta. Deu a maior briga em casa! Mas ninguém botava champagne naquilo! Aliás, champagne em casa só no natal e nem dava tempo de ficar ali, gelando.
O maridão pegou uma porta velha e transformou numa mesa. Que depois virou estante. Que eu estou doidinha pra que vire cinzas.
É isso. Eu só sei mesmo é jogar fora ou queimar. Não tenho imaginação pra fazer as coisas virarem outras.
Por isso quero ser cremada. Pra pular etapas.
Principalmente aquela etapa fedorenta, igual à abobrinha que eu achei na geladeira...




