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fevereiro 27, 2008

abobrinha fedorenta

Gosto de reciclagem. Não exatamente essa de ficar juntando vidro, papel, etc. Tudo bem, eu junto, eu reciclo. Mas essa é a parte catadora das coisas. E eu gosto mesmo é da parte transformadora.

Talvez porque no fundo me incomode muito isso da gente envelhecer e morrer e ficar por isso mesmo. Mesmo sabendo que a gente vai reviver em merda, em chorume, em bactérias. Em coisas podres que darão origem a coisas novas. Eu ia dizer vivas , mas coisas podres são vivas. Os políticos, pelo menos.

Minha geladeira por vezes se enche de vida. Hoje mesmo descobri uma abobrinha fervilhante de vida. Podre. Em pleno processo de transformação. Não esperei pra ver o final do processo. Joguei no lixo, coisa que devia ter feito há uma semana mas eu tenho faro ruim. E no quesito limpeza de geladeira deixo a desejar.

Porém acho fascinante isso. Só lastimo ter pouca criatividade. Fico olhando as coisas estranhas pelas ruas. Os carretéis que a NET deixa pelas calçadas, que poderiam ser, além de carretéis de fios? Os pets, os guarda-chuvas escangalhados, os sofás. Como se encontram sofás das casas Bahia jogados por aí! Não sei em que se transformam. Por uns dias viram camas de cachorros vira-latas. Depois desaparecem. Outro dia vi crianças desmontando um pra fazer taco com as madeiras.

Minha mãe, quando eu era pequena, pegou um porta-champagne de prata e furou pra virar vaso de planta. Deu a maior briga em casa! Mas ninguém botava champagne naquilo! Aliás, champagne em casa só no natal e nem dava tempo de ficar ali, gelando.

O maridão pegou uma porta velha e transformou numa mesa. Que depois virou estante. Que eu estou doidinha pra que vire cinzas.

É isso. Eu só sei mesmo é jogar fora ou queimar. Não tenho imaginação pra fazer as coisas virarem outras.

Por isso quero ser cremada. Pra pular etapas.

Principalmente aquela etapa fedorenta, igual à abobrinha que eu achei na geladeira...

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fevereiro 22, 2008

consolação

Neste carnaval conheci uma cidadezinha chamada Consolação. Tem cidades com nomes emblemáticos. Todo mundo conhece alguma. Consolação não.

Consolação chegou a ter milhares de habitantes. Faz algum tempo. Hoje tem exatos 1700, foi o que me asseguraram. Consolação encolhe. Mas não se consola. Consolação se entristece.

Consolação, como toda cidade pequena, ou deveria dizer, minúscula, é linda. Uma pasmaceira só. Dessas que a sesta depois do almoço, ou antes, como queiram, é mais do que inevitável. É compulsória. Só assim o tempo passa.

Em Consolação tem uma senhorinha simpática, como devem ser as senhorinhas de um lugar assim, que ganhou um par de brincos de brilhantes.

Pela idade da senhorinha, deve ter sido pra comemorar algum aniversário de casamento.

E pelo visto ela mereceu. Até mais do que isso. Anos de labuta na terra, ao lado do marido que conheceu por lá mesmo. Do tempo em que Consolação prometia.

Hoje Consolação não promete mais nada.
Nem mesmo ser emblemática pelo nome.
Consolação não consola.

E a senhorinha, que não se entristece nem se insurge, só fica mesmo chateada com seu par de brincos de brilhante.

Ela queria – e me revela isso com os olhos brilhando por um lapso- vender seus brincos.
Pra quem, em Consolação?

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fevereiro 19, 2008

vizinhos

Todo mundo tem uma certa birra com vizinhos.

Vou falar dos meus. Nem são tantos assim, pela vida afora, pois mudei de casa poucas vezes. Acho que cinco ou seis e olhe lá. Devo ficar por aí porque apesar de ter alguma vontade, não tenho mais pique pra mudanças.

E pensar que eu adorava mudanças! Depois de anos numa certa casa, por melhor que seja, gosto de mudar móveis de lugar. E passado um tempo acabam as mudanças. Não tem mais jeito. É matemático. Tem um certo número de combinações e chega.

Retomando, como dizia, quero é falar dos meus vizinhos:
O primeiro deles durou dos nada anos até os cinco. O vizinho não sei quanto durou. O que durou cinco anos foi a vizinhança com eles. Era uma família com uma garotinha da minha idade. Uma de nós duas devia ser um estrepe, porque lembro de ter dado à minha tartaruga – que eu odiava- o nome dela: Raquel. E de ter tentado matá-la com um canivetinho de cinco cm que meu irmão me dera. Não sei bem com qual intenção.

Depois desses primeiros cinco anos, mudamos e os vizinhos eram um casal de mineiros com dois filhos adultos. E cinco cachorros, minha paixão. Tinham também um monte de galinhas e uma incrível geladeira de madeira por fora, verde. Lembro que vinha um hominho com um bloco de gelo e a Dona Carolina – era esse o nome dela- punha o bloco na geladeira, contornado por muita serragem. Eu achava o máximo. Achava que devia ser muito mais moderna que a nossa – uma Philco – pois o gelo vinha pronto e não precisava botar água no congelador pra ele surgir...

Depois desses, casei e mudei de casa. Fui morar numa em que nunca soube nem o nome dos vizinhos. O muro que separava nossas casas era tão alto que eu nem lembro de tê-los visto. A verdade é que como eu fazia faculdade o dia inteiro e saíamos muito, talvez fôsse melhor dizer que eles é que nunca nos viram.

Tres anos depois mudamo-nos de novo. Aí lembro bem dos vizinhos. Um deles, o da direita, teve um casal de gêmeos, uma gracinha. O da esquerda tinha dois filhos, e o menor chorava sem parar. Uma desgracinha. Ah, e um maravilhoso pastor alemão.

Daí conseguimos finalmente comprar uma casa. Numa rua tão pequena que conheço todos dela. Não é vantagem nem gabolice. São só seis casas: tres de cada lado da rua.

Desses, só um não permanece pois a casa é alugada. Volta e meia muda o locador. Os outros são todos mais ou menos da mesma idade nossa, com filhos mais ou menos da mesma idade também.

É interessante isso. Ver os meus e os deles crescendo e tendo filhos. Os deles, que os meus são meio recalcitrantes com a idéia de botar mais gente neste mundo.

Tenho a impressão que esta será minha última casa. Como disse, falta-me paciência pra mudar de novo.
Mas isso não depende só de mim. De repente posso ganhar na loteria, herdar uma fortuna de um desconhecido ou achar uma mala de dinheiro...E aí, ah, aí eu mudo. Só pra contratar um monte de gente que obedeça minhas ordens de mudar os móveis daqui pra lá e de lá pra cá! E eu só ali, inspecionando...

Ê vidão!

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fevereiro 13, 2008

coisas pequenas pelo chão

Dizem muitos que as pessoas são aquilo que comem. Aquilo que vestem. Aquilo que escutam. Aquilo que lêem.

Meu pai, acho eu, era aquilo que pegava pelo chão.

Nunca o vi fazendo qualquer serviço doméstico que não fosse varrer o chão. Gostava de chão, o meu pai.
E era pro chão que ele olhava ao andar. Andava rápido, o meu pai.

Quando, nas noites dos últimos anos, ele se pôs a fugir, movido pelo Alzheimer e pelos pés ágeis, era difícil encontrá-lo. Andava muito.

Em pequena eu andava muito com ele. Pra cada passo dele, eu tinha que dar dois ou três, como cachorrinho pequeno em volta do grande. Eu bem que tentava harmonizar meu passo com o dele. Nunca consegui.

Hoje que ele se foi há tanto tempo e que eu aprendi – finalmente- a andar em passadas largas, poderia harmonizar. Poderia acompanhar. Quem sabe?

Ele trazia pra casa toda sorte de coisas estranhas que achava pelo chão. Uma vez me trouxe metros e metros de fio de telefone, desses que vão de poste a poste e que nenhuma serventia têm dentro de uma casa. Ele achou na rua. Alguém que consertava os fios telefônicos deixou pra trás e ele pegou. Ficou contente, o meu pai.

Trazia pedaços de barbante. Pregos. Madeirinhas e madeirões.

Se ele era prendado? Nada! Como já disse, só sabia varrer a casa. Minha mãe era quem pregava quadros, consertava ferros e chuveiros, lixava e pintava paredes. Ele só olhava, deitado no sofá, fazendo palavras cruzadas.

Mas pelas ruas ele achava coisas. Coisas pequenas, rolhas de garrafa, pedaços de borracha.
Não era prendado, não trabalhava com coisas pequenas, não consertava nada.

Se as pessoas são aquilo que acham, ele era um colecionador de coisas sem importância.

Mas um homem esperançoso. Porque toda vez que aparecia em casa com um pedaço de ferro, uma borracha, um teco de cano, os olhos sempre brilhavam ao dizer:

-Guarda aí, um dia vai servir!!

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fevereiro 11, 2008

prepotência

Eu gosto do que gosto. À medida em que o tempo foi passando e eu passando por ele, foram-se firmando gostos. Na música, na literatura, na comida, nos sons em geral, nos cheiros, na vida.

Mas são meus os gostos. Às vezes são iguais aos de outras pessoas e aí é muito bom. Porque eu gosto muito de gostar acompanhada. O gosto fica mais gostoso, se é que me entendem.

Mas sei que nem sempre é assim.

Sei que nem todo mundo ama ouvir Célia Cruz em altos brados. Sei que nem todos – mesmo os argentinos- gostam de chinchulines. Sei que poucos amam a cor roxa como eu. Tá bom, talvez os padres em época de quaresma, sei lá. Eu não gosto de padres.

Sei que o cheiro do patchuli agrada muitos, mas esses muitos não devem ser os fabricantes de perfumes. É difícil achar um bom perfume que cheire a patchuli, como um bom perfume deve cheirar. Eu pasto pra achar.

Falando em pasto, já falei aqui que não gosto de vacas. E muito menos de carne de vaca. Mas sei que a maioria gosta. Tenho uma filha que se comove só de pensar em picanha. É a vida.

Tento não impor meus gostos a ninguém. Sei que já fiz isso no passado. Meu passado me condena. Mas eu agora no presente me absolvo. Eu, que sou meu pior juiz, me dou ao luxo de me absolver. Já paguei essa pena.

No passado já fumei como uma chaminé descontrolada e impus isso aos meus filhos e amigos. A todos que chegavam perto de mim. Me beijar devia ser terrível. Ainda bem que meu marido fumava cachimbo...

Hoje não fumamos. Foi difícil mas foi possível. E não imponho mais esse meu gosto a ninguém que não goste de cigarro como eu gosto. Porque eu ainda gosto. Não fumo mais há oito anos mas ainda gosto.
O que não gosto é da imposição.

E o que eu queria saber é por que raios aqui não cola essa lei de impedir o fumo em lugares fechados!! É a tirania do gosto. Você tem que engolir a fumaça alheia quer queira quer não.

Ah, sim! O preço que eu paguei e pago por meus 30 anos de fumante? Uma rinite que me fecha a garganta e me põe a espirrar numa velocidade de 2 ou 3 espirros por minuto, em presença de fumantes em lugares fechados.

Sim, é segunda-feira, estou mal-humorada, passei a noite ontem na única milonga de domingo sentada a dois metros de um argentino prepotente, fumando sem parar cigarrilhas fedorentas. E ele nem tossia, enquanto eu lacrimejava e espirrava.

Ô mundo injusto!

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fevereiro 7, 2008

carnavaca

Eu nunca fui muito com a cara de vaca. De todas, pra falar a verdade. Das propriamente ditas e das assim chamadas.

Com exceção de chinchulin, que é uma parte não muito nobre do intestino do bicho, cheia de coisas menos nobres ainda e que me faz lamber os beiços, o resto das vacas, bois e congêneres não me atrai. Prefiro alface.

Aquele olhar bovino, aquele rabo pra lá e pra cá, aquele andar lento e pesado, enfim, o conjunto todo da obra não me agrada.

Parece que foi de propósito. De propósito traçado no céu ou no inferno, ou onde diabos se traçam essas coisas, eu ter passado os últimos cinco dias envolvida, rodeada, olhada por esses bichos. Ter andado ao lado e infelizmente, algumas vezes por cima daquela bosta toda, deixada por infinitas vacas nestes caminhos de deus.

Fiz mais um pedaço do meu treino pra Compostela. Desta vez 104 km de trilha. Mais ou menos 21 por dia. Entre subidas ( e bote subida) e descidas ( e bote descida) e planos ( e bote barro). E não esqueça de botar bosta. Muita bosta.

Fui olhando aqueles bichos. E eles me olhando também. Descobri que vaca é curiosa. Ou eu sou estranha. Ou os dois, sei lá. Elas ficavam me olhando pelos caminhos e eu olhando pra elas. Vai que alguma se enfeza e sai correndo? Aí descobri que vaca é muito lenta. E meio medrosa. E tímida.De repente, foi me dando uma certa identificação...

Senti muito carinho pelos bezerrinhos. Como toda criança- os mamíferos, pelo menos- faziam as mesmas coisas que meus filhos quando pequenos: corriam pra todo lado, pulavam, vinham espiar, cagavam, só não brincavam de carrinho e de se pegar a tapas um com o outro, mas o resto era muito parecido.

Deu muita pena do jeito que as vacas são largadas, nos pastos sem abrigo, cheias de bernes e carrapatos. Nessas regiões por onde passamos, a filosofia é só de tirar: tiram das vacas o leite e a carne e nada dão em troca. Vi vacas ensanguentadas e feridas de tanto berne. Eu que nunca fui com a cara delas não pude deixar de sentir muita pena por aquela dor toda, aquele desconforto que os homens causam a elas. Comecei a entender melhor o olhar bovino.

Enfim, foram cinco dias ótimos. Gosto cada vez mais de andar. De ocupar por um certo tempo a cabeça com coisas fundamentais como onde colocar o pé, onde apoiar o cajado, onde buscar no mato a amora, a manga verde, a frutinha que dá pra comer.

E cinco dias no meio de vacas. A região que vai de Estiva a Campos de Jordão é região leiteira. Vi muito cavalo e galinha, mas o forte foi vaca mesmo.

Não me tornei carnívora, embora tenha comido carne esses dias, que não dá pra andar assim e viver de alface. Mas mudou um pouco minha opinião sobre as vacas.

Agora que elas podiam cagar um pouco menos, isso podiam!

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