no compasso, fazendo bolachas e bolinhas
A atração que os meninos tinham por bola, as meninas tinham por “comidinha”. Isso há 50 anos atrás, que hoje não existe mais esse tipo de diferenciação. Nem os meninos são tão chegados assim só em bola, nem as meninas brincam de “comidinhas”.
Eu brincava. A contragosto, que até hoje não sou chegada em comidas nem comidinhas, mas brincava porque havia ganho um fogãozinho e panelas e tinha que usar, embora preferisse de longe o “pequeno engenheiro”. Fazia bolinhos de terra e água e para torná-los redondos usava as próprias panelinhas.
Minha mãe usava cálices de variados tamanhos pra fazer bolachas. E pastéis. Redondinhos, que ela passava depois uma carretilha pra dar o acabamento cheio de pontinhas.
Até mais ou menos sete anos, meu primeiro ano de escola primária. Quando trouxeram o material de escola que eu usaria, veio uma coisa esquisita dentro do estojo. Uma coisa com uma ponta de metal acoplada a um anel sem nada dentro.
Meu irmão explicou que era um compasso. Acho que devia ser o avô dos compassos! Punha-se a ponta seca no papel e no anel vazio encaixava-se um lápis. E voilá! Fazia-se bolinhas de todos os tamanhos!
Passei então a fazer tudo redondo: janelas de casas que desenhava, flores, desenhos de inspiração geométrica, estampas, foi minha fase “redonda”.
Com os anos ganhei um compasso mais moderno: uma ponta seca e a outra com grafite. E com o tempo, já adolescente, não ganhei mas namorei um estojo inteiro de compassos de couro preto, forrado de veludo, do meu irmão, estudante de engenharia. Quando ele saía de casa e não levava, eu brincava escondido.
Adulta, voltei às origens: poderia ter comprado um jogo de fazer bolachas, daqueles de metal, mas sempre fiz as minhas (poucas, na verdade) com copos de tamanhos variados.
E outro dia que precisei fazer alguma coisa redonda, nesta casa que não tem mais compasso nenhum, voltei aos primórdios: amarrei um barbante num lápis e usei meu dedo como ponta seca. Funcionou direitinho.
Comments
As tuas excelentes memórias fazem-me despertar as minhas, vê là!
O meu primeiro (e único) compasso, foi motivo de angústias e preocupações.
O meu pai, que era dado a essas coisas de desenho de projectos, quando eu precisei, comprou-me um compasso muito bom e caro.
Mas, controlava diariamente o estado do dito.
Como era muito severo, eu andava sempre com medo que ele se estragasse ou que o perdesse.
Mas o que é certo é que me durou todo o liceu e ainda serviu para o meu irmão que é 16 anos mais novo do que eu.
Posted by: peciscas | janeiro 7, 2008 7:44 PM
Pois entrou na dança e não perdeu o compasso. Boa recordação, Maray.
Posted by: Ordisi Raluz | janeiro 8, 2008 9:00 PM
Peciscas: de fato, tive um problema técnico por estes dias que agora está resolvido. Eu podia lê-los mas não podia responder. Ah, esse movable!
Um abraço grande e obrigada pela paciência nesse compasso de espera :)
Ordisi: eu tento só colocar recordações boas. Aqui e no coração. Um abração!
Posted by: maray | janeiro 11, 2008 9:22 AM
Adorei essa história do compasso "artesanal".
Se eu precisasse fazer algo redondo só pensaria em usar um copo como molde. Jamais me viria à mente essa idéia que você teve. rs
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Eu adorava brincar de comidinha!
Mas acho que eu fui da última geração que brincou disso e nem faz tanto tempo assim. Tenho 21 anos. Mas minhas primas mais novinhas (7, 8 anos) não brincam nem de boneca direito. Preferem brincar de ser mulher.
Isso me decepciona...
Posted by: Mila | janeiro 12, 2008 4:25 AM