estereótipos
Dizem alguns que são reduções facilitadoras. São reduções, é fato. Mas não facilitadoras.
Passei uns bons dez anos de minha vida – os primeiros – aprendendo com minha mãe e familiares conservadores, mais vizinhos preconceituosos, os estereótipos mais ridículos. E os outros 48 anos anos posteriores tentando desaprender tanta bobagem. E claro, criando novos estereótipos, que ninguém é de ferro...
De criança lia em Seleções ( tá bom, quem mandou ler Seleções, poderá perguntar alguém?) que havia o “perigo amarelo”. Onde amarelo podia ser japonês, coreano, mongol, etc. Eu ficava olhando bem pras japonesinhas da minha classe buscando o “amarelo” uma vez que perigo nenhum podia haver advindo daquelas menininhas pequenas e educadas! Nunca descobri.
Depois meu pai reclamando dos “carcamanos” , o ramo italiano da família de minha mãe. Minha mãe, em represália, reclamava dos brasileiros, os caipiras, os ancestrais do meu pai. E eu ali, fruto dos carcamanos e dos caipiras, me sentindo um lixo cosmopolita, filha de pais briguentos e reclamões.
Minha avó tinha ojeriza aos fascistas. E a óleo de rícino. Não obstante, quando me viram crescendo magérrima e cheia de vermes, quiseram me aplicar o “remédio”. No pasarán...quer dizer, não conseguiram. Eu era magra mas resistente. Até o último verme.
Quando meu irmão mais velho casou-se com uma uruguaia, meu pai felicitou-o. Boa escolha! Podia ter sido argentina...futebol é uma coisa que embrutece os corações. Brasileiros e argentinos são amigos só até o caderno de esportes. Depois a coisa fica feia. Malvinas é pinto perto das rixas existentes. E eu, que sou tangueira de corpo e alma, tenho que aguentar Maradona e Pelé aqui e lá. Ainda bem que Gardel não era chegado em bola. Ou era?
Meu outro irmão casou-se com uma alemã. Gente organizada e limpinha, segundo minha mãe. Até que eles se separaram. Aí virou gente fria e malvada. A alemã. Preconceito é forte, mas mãe é mãe.
E eu casei com um italiano. Pra alegria geral. Da avó, conterrânea; da mãe, que dizia que brasileiro não dá bom marido.
Desisti de explicar que ele nasceu na África e se naturalizou brasileiro.
Já pensou o que viria pela frente?
Os portugueses riem do nosso sotaque, a gente ri do deles. De um lado e do outro do Atlântico as piadas são quase as mesmas. Só muda a nacionalidade do personagem. Preconceito ou briga de irmãos? Sei lá!
Meu irmão mais querido costumava me fazer cócegas até eu fazer xixi nas calças. Brincadeirinha irritante, mas a gente se amava. Eu costumava mordê-lo, quando ele estava deitado descansando e não esperava. Como eu disse, a gente se amava. Vai ver é isso. Brasil e Portugal. Ou não.
Preconceito é uma merda. Reducionismo ou maucaratismo, é uma merda.
E custa a sair da cabeça, da pele.
Contanto que a gente não deixe entrar no coração, ainda há esperança de cura.
Comments
Eu acho linda essa mistura toda. Mas acho que só penso assim por ser brasileira, porque a impressão que eu tenho é que o resto dos povos não aceita muito bem essa "troca" cultural.
Tenho uma tia que é negra, avó de crianças loiras, morenas e uma oriental.
Quando ela está com os netos todos juntos, quem não conhece dificilmente diz que é tudo sangue dela. rs
Como eu disse, acho lindo!
Posted by: Mila | janeiro 12, 2008 4:14 AM
Adorei o post - já diz tudo, nem há o que comentar.
Posted by: Sonia | janeiro 13, 2008 10:29 PM
Gostei mto da meneira que vc escreveu o texto, mto divertido, porém crítico. Eu estava procurando exatamente uma boa definição para "estereótipos". acredito que não preciso procurar mais.
Posted by: Edinelson | abril 22, 2008 10:43 AM