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janeiro 31, 2008

indiana momo jones

Um saquinho de redinha preto cheio de confetes coloridos. Umas duas ou tres serpentinas. E o tubo dourado, de cheiro delicioso e gosto nem tanto, o lança-perfume! E é só. Carnaval era isso pra mim. Em casa ou no máximo na rua de casa, do lado de dentro do portão, olhando o (nenhum) movimento na rua de terra e ouvindo o coaxar dos sapos, dia e noite.

Um dia, muitos anos atrás, em Iguape, ouvimos o som de uma batucada ao longe. Se alguém quiser me levar de um lugar a outro, como o flautista levava os ratos, pode fazer uma batucada ao longe que eu vou atrás. Até achar.

Achamos uma pequena escola de samba e uma grande batucada, ansaiando num galpão abandonado que amplificava o volume. Coisa mais linda!

Mas aguentar sambódromo não aguento, embora ache que pelo menos uma vez na vida vou ter que ver, ao vivo e a cores.

Então carnaval é isso.

O que eu vou fazer no carnaval?
Andar. Andar e andar. Os 4 dias.

Trilha no mato é meu carnaval da vez.

Sem serpentina e sem confete, mas a fantasia já tá pronta. Cajado, chapelão e bota.
Indiana Jones, quem diria, acabou no sul de Minas!!

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janeiro 23, 2008

médica não!

Tem um monte de garotinho e garotinha por aí que sonha ser médico. Dos 2 aos 22 anos. Tem até gente que já conheci, de mais de 50, que também sonha. E que usa diploma pendurado na parede do consultório. Sonhos, quem não os tem?

Eu nunca quis. Desde a primeira vez em que cortei o dedo. E o sangue jorrou.

Posso ver sangue sem muito problema, não se trata disso. Mas não gosto. Nem do meu nem do de ninguém. Parece que é um desperdício de vida o sangue saindo assim, pela pele, pela boca, por todos os lados de pessoas feridas.

E gosto menos ainda de hospital. Se por um lado, todas as vezes em que lá estive – e foram poucas – eu saí melhor do que entrei, por outro lado me acomete uma angústia, uma claustrofobia, um não sei quê, que dói o corpo e a alma, que me faz querer pular pela janela, que nem sei. E olhe que adoro comida de hospital. É bem melhor do que a minha e por vezes chega a ser mais temperada. Adoro a paparicação das enfermeiras. Adoro assistir televisão na cama. Adoro fazer palavras cruzadas e ler revista de bobagem. Mas toda essa adoração só dura até os primeiros quinze minutos.

Lidar com a vida humana deve ser muito difícil. Eu que apesar de psicóloga, jamais consegui pensar em clinicar, tal o medo que sempre tive de lidar com os problemas humanos, imagino o que é lidar com a vida e a morte, com a dor e o sofrimento. Tem o aspecto de minorar a dor dos outros, isso é bom, mas e quando não é possível? Quando se “perde” o paciente?

Já me custa muito imaginar que a vida acaba, a minha e a de todo mundo, como imaginar que pode acabar por uma falha minha??

Ser médico nunca foi brincadeirinha nem anseio meu. Mesmo quando aqueles menininhos bonitinhos da esquina vinham com esse papo nos recreios da escola: “vamos brincar de médico”?

Tô fora.

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janeiro 17, 2008

sonho

Sonho muito. Melhor dizendo, lembro bem dos meus sonhos.

Alguns são recorrentes. Quase todas as pessoas os têm. Mas são recorrentes por determinado tempo. Como o do meu quase afogamento numa represa, sendo salva por um índio apache!! Pelo menos vestido como os apaches da sessão da tarde.

Mas esta noite tive um sonho estranho. Sonhei com meu pai e meu irmão, já mortos. Eu sabia que eles estavam mortos, reclamei isso com eles, quase agressiva : “ mas você morreu, o que está fazendo aqui?”. Mas eles estavam ali, misturados aos vivos.

Depois eu quis sair daquele lugar, daquela casa onde estava. A porta não estava mais onde devia estar. A janela, por onde também daria pra sair, não estava mais ali, na parede que sempre estivera. Olhei em volta, já meio claustrofóbica. Na parede oposta, onde nunca houvera nada, uma tremenda porta-janela, escancarada. É lógico que saí por ela, tendo a estranha impressão de que alguém me monitorava pra eu fazer exatamente isso.

Lá fora, um rio enorme. Quase tão grande como uma represa, na largura. De novo as represas!!
Aqui há que se fazer um aparte: em criança, sonhar com represas era problema na certa! Eu acordava molhada. Ainda bem que a coisa passou, lá pelos 12 anos.

Voltando: na represa de hoje, uma enorme baleia. E eu ali, acima dela, voando e vendo tudo como se fosse um google earth gigante. Eu voava com as mãos estendidas. De repente, uma das mãos entrou no olho da baleia. Ela ficou incomodada – quem não ficaria? – e começou a corcovear. ( cavalo corcoveia. Baleia fará o que? Esta vai corcovear mesmo. O sonho é meu e a baleia é minha) A mão saiu com dificuldade e eu continuei voando.

E por fim, tive um insight: aquilo tudo era uma espécie de alegoria da vida. Ou seja: sem nenhum sentido. Os mortos junto aos vivos, baleias em represas, casas sem portas e janelas onde deveriam ter portas e janelas.

Pensei com minhas rendinhas da camisola: mas então a vida é isso? Sem sentido nenhum? Mas isso é óbvio! Afinal, não deveria ter uma revelação nova? Algo realmente diferente?

Não sei a resposta disso. Não sei nem mesmo a quem perguntei isso. Eu estava sonhando.
E acordei.
Ainda bem!

Ô sonho realista, pô!

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janeiro 14, 2008

crise de abstinência

Quando se fala em férias no Brasil, fala-se no mês de julho e em final de dezembro, mais janeiro e uma parte de fevereiro. Uma parte porque tudo depende do carnaval, data móvel. Depois que o carnaval acaba, aí começa o ano. Calendário gregoriano? Bobagem. Calendário momesco, por aqui.

E quando se fala em férias, a primeira coisa que vem à cabeça de todo mundo são mesmo as férias escolares. Até porque, quando se é pai e mãe de filhos estudantes, as férias dos pais sempre acabam sendo as mesmas dos filhos. Quer dizer, a data de pedir férias, porque aquela coisa de descansar, pelo menos para os pais, é só mesmo no dia em que acabam as dos filhos.

Mas um dia os filhos crescem. E crescem tanto que decidem que passar férias com os pais não rola. Não pinta. Não há conexão. Enfim, não querem nem saber, eis a questão.

Aí os pais, nós, ficamos assim, meio que perdidos no calendário. Quando tirar férias? E a gente relaxa. No mau sentido. Vai deixando de tirar um ano, dois, afinal, tem aquele relatório pra entregar, está chovendo muito esse ano, el niño, la niña, a grana está curta, o dólar caiu, o dólar subiu, a grana está curta, fiquei resfriada bem na data, a grana está curta, não tenho onde ir, já enjoei de praia, a grana está curta...

E férias, aquelas coisas de trinta dias, ficam reduzidas a fins de semana no campo ou na praia. Em feriado prolongado.
E todo mundo pensa a mesma coisa.

Mas as milongas tiram férias. Fecham. Os restaurantes, os salões, os poucos espaços onde se pode dançar um tanguinho honesto.

E a gente entra em crise de abstinência.

Os pés doem, as roupas pretas no armário começam a ficar roxas de nervosas, os sapatos de salto alto e fivelinha esperneiam, as meias arrastão se arrastam pelas gavetas. O som toca tango sem parar. Gardel se remexe no túmulo. Num passo arrastado, procurando sua dama.

E eu fico assim: esperando o carnaval com uma ansiedade crescente. Cadê ele, que demora tanto a chegar?

Se eu gosto de carnaval?
Não. Detesto.

Mas é que só assim o ano começa por aqui e as milongas reabrem.

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janeiro 11, 2008

estereótipos

Dizem alguns que são reduções facilitadoras. São reduções, é fato. Mas não facilitadoras.

Passei uns bons dez anos de minha vida – os primeiros – aprendendo com minha mãe e familiares conservadores, mais vizinhos preconceituosos, os estereótipos mais ridículos. E os outros 48 anos anos posteriores tentando desaprender tanta bobagem. E claro, criando novos estereótipos, que ninguém é de ferro...

De criança lia em Seleções ( tá bom, quem mandou ler Seleções, poderá perguntar alguém?) que havia o “perigo amarelo”. Onde amarelo podia ser japonês, coreano, mongol, etc. Eu ficava olhando bem pras japonesinhas da minha classe buscando o “amarelo” uma vez que perigo nenhum podia haver advindo daquelas menininhas pequenas e educadas! Nunca descobri.

Depois meu pai reclamando dos “carcamanos” , o ramo italiano da família de minha mãe. Minha mãe, em represália, reclamava dos brasileiros, os caipiras, os ancestrais do meu pai. E eu ali, fruto dos carcamanos e dos caipiras, me sentindo um lixo cosmopolita, filha de pais briguentos e reclamões.

Minha avó tinha ojeriza aos fascistas. E a óleo de rícino. Não obstante, quando me viram crescendo magérrima e cheia de vermes, quiseram me aplicar o “remédio”. No pasarán...quer dizer, não conseguiram. Eu era magra mas resistente. Até o último verme.

Quando meu irmão mais velho casou-se com uma uruguaia, meu pai felicitou-o. Boa escolha! Podia ter sido argentina...futebol é uma coisa que embrutece os corações. Brasileiros e argentinos são amigos só até o caderno de esportes. Depois a coisa fica feia. Malvinas é pinto perto das rixas existentes. E eu, que sou tangueira de corpo e alma, tenho que aguentar Maradona e Pelé aqui e lá. Ainda bem que Gardel não era chegado em bola. Ou era?

Meu outro irmão casou-se com uma alemã. Gente organizada e limpinha, segundo minha mãe. Até que eles se separaram. Aí virou gente fria e malvada. A alemã. Preconceito é forte, mas mãe é mãe.

E eu casei com um italiano. Pra alegria geral. Da avó, conterrânea; da mãe, que dizia que brasileiro não dá bom marido.

Desisti de explicar que ele nasceu na África e se naturalizou brasileiro.
Já pensou o que viria pela frente?

Os portugueses riem do nosso sotaque, a gente ri do deles. De um lado e do outro do Atlântico as piadas são quase as mesmas. Só muda a nacionalidade do personagem. Preconceito ou briga de irmãos? Sei lá!

Meu irmão mais querido costumava me fazer cócegas até eu fazer xixi nas calças. Brincadeirinha irritante, mas a gente se amava. Eu costumava mordê-lo, quando ele estava deitado descansando e não esperava. Como eu disse, a gente se amava. Vai ver é isso. Brasil e Portugal. Ou não.

Preconceito é uma merda. Reducionismo ou maucaratismo, é uma merda.
E custa a sair da cabeça, da pele.

Contanto que a gente não deixe entrar no coração, ainda há esperança de cura.

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janeiro 5, 2008

no compasso, fazendo bolachas e bolinhas

A atração que os meninos tinham por bola, as meninas tinham por “comidinha”. Isso há 50 anos atrás, que hoje não existe mais esse tipo de diferenciação. Nem os meninos são tão chegados assim só em bola, nem as meninas brincam de “comidinhas”.

Eu brincava. A contragosto, que até hoje não sou chegada em comidas nem comidinhas, mas brincava porque havia ganho um fogãozinho e panelas e tinha que usar, embora preferisse de longe o “pequeno engenheiro”. Fazia bolinhos de terra e água e para torná-los redondos usava as próprias panelinhas.

Minha mãe usava cálices de variados tamanhos pra fazer bolachas. E pastéis. Redondinhos, que ela passava depois uma carretilha pra dar o acabamento cheio de pontinhas.

Até mais ou menos sete anos, meu primeiro ano de escola primária. Quando trouxeram o material de escola que eu usaria, veio uma coisa esquisita dentro do estojo. Uma coisa com uma ponta de metal acoplada a um anel sem nada dentro.

Meu irmão explicou que era um compasso. Acho que devia ser o avô dos compassos! Punha-se a ponta seca no papel e no anel vazio encaixava-se um lápis. E voilá! Fazia-se bolinhas de todos os tamanhos!

Passei então a fazer tudo redondo: janelas de casas que desenhava, flores, desenhos de inspiração geométrica, estampas, foi minha fase “redonda”.

Com os anos ganhei um compasso mais moderno: uma ponta seca e a outra com grafite. E com o tempo, já adolescente, não ganhei mas namorei um estojo inteiro de compassos de couro preto, forrado de veludo, do meu irmão, estudante de engenharia. Quando ele saía de casa e não levava, eu brincava escondido.

Adulta, voltei às origens: poderia ter comprado um jogo de fazer bolachas, daqueles de metal, mas sempre fiz as minhas (poucas, na verdade) com copos de tamanhos variados.

E outro dia que precisei fazer alguma coisa redonda, nesta casa que não tem mais compasso nenhum, voltei aos primórdios: amarrei um barbante num lápis e usei meu dedo como ponta seca. Funcionou direitinho.

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