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dezembro 31, 2007

tecidos do tempo

Existem coisas que dão conforto. Algumas nem sei explicar o porquê. Apenas dão conforto quando as tocamos, cheiramos, lembramos. Pano é uma delas.

Pano, tecido, fazenda como dizia meu pai. Meu pai trabalhou anos e anos na 25 de março, a rua das “fazendas”. Onde fazenda queria dizer tecido.

Nasci numa época em que as moças prendadas deveriam saber costurar. Minha mãe não era prendada a esse ponto. Então dependíamos de outras moças prendadas da família pra fazer nossos vestidos.

Comprava-se o pano e botava-se numa bacia pra “encolher”. Panos encolhiam naquela época. Jamais se faria um vestido ou qualquer outra roupa sem encolher previamente o tecido.

Sabia-se o nome de quase todos os tecidos do mercado. Usava-se tafetá pra roupa de festa (que barulho gostoso fazia!), tweed pra costumes de inverno, brim pra roupa de trabalho ou aventais. Calça jeans? Só comecei a usar na década de 60. As primeiras Lee do mercado, que eram lavadas com cândida até ficarem com aquele ar de gasta. Ô trabalhão!

Havia o laise, nem sei se é assim que se escreve. Pra fazer vestido de formatura, de primeira comunhão, de noiva. E organdi, aquela coisa piniquenta que eu odiava.

Havia seda pura, havia chita, havia algodão cru, que minha mãe comprava a peça inteira, punha pra alvejar e fazia lençóis. Quem tinha mais dinheiro usava percal. A gente ia de algodão cru, o mesmo que se fazem hoje panos de cozinha. Pinicava mas durava.

Com o passar dos anos, foram surgindo e sendo divulgados mais e mais os tecidos sintéticos. Lembro-me do tergal, com uma propaganda chata em que o cara sentava e levantava, sem parar, pra mostrar que o tecido não amassava. Tive pilhas de saias de tergal plissadas, uniforme da escola. Pano horrível, não amassava mas também não aquecia.

Depois os rayon, nylon, ban-lon, um monte deles todos terminados em"on",mantra dos sintéticos. E a gente fedia dentro deles. A começar daquelas camisas volta-ao-mundo, que tornavam as viagens que eu tinha que fazer nos ônibus ida e volta pra Santo Amaro numa volta ao mundo dos infernos. Que cheiros! Inesquecíveis, se é que me entendem.

Hoje estão todos ainda por aqui. E, numa volta ao passado ecologica e politicamente correta, tornam-se a usar os tecidos de algodão.

Só que desta vez só para ricos.

Ficaram caros pra chuchu!

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dezembro 19, 2007

balanço

Fim de ano é época de balanço. Não só no comércio. Ou também no comércio das vidas, depende de como se entenda comércio. Ou vida.

Tenho pra mim que é porque se trata de data inteira. O ser humano tem uma irresistível atração por data inteira. Ninguém fica tetra e meio campeão de alguma coisa. Nem bi e um sexto derrotado nas terceiras e um sétimo de final. Um paradoxo. Nós ( eu não, que jamais faria isso) inventamos a matemática e no entanto temos a maior dificuldade em lidar com ela.

Mas digo que é a síndrome do número inteiro.
E digo com conhecimento de causa.

Eu odeio meu ano de nascimento.

Não porque tenha acontecido algo de muito ruim. Até nem. Teve a revolução chinesa, com Mao e tudo de bom e ruim a que aqueles milhões de chineses tiveram direito. No balanço das horas e no frigir dos ovos até que não foi mal (já esse trocadilho...)

E teve meu nascimento.

Segundo minha mãe, num ano péssimo. Isso pra ela, que pra mim foi muito bom. Adorei ter vindo ao mundo. Adoro viver, apesar dos pesares.

Mas não foi num ano inteiro. Quer dizer, numa década inteira.

Por coisa de quatro dias podia ter sido. E eu teria a maior facilidade em fazer as contas de meu aniversário, de minha idade. E eu saberia que no ano 2050 estaria completando meu ciclo niemayerano de vida. Ou Dercygonçalviano, como queiram. Um muito sério e chato, outra muito debochada e chata. Não tem jeito. Minhas referências são ecléticas mas chatas. Isso deve querer dizer alguma coisa, mas não vou pensar nisso.

Então é isso. Podia ter sido 1950. Podia me facilitar a vida e as contas.

Outra saída é mentir a idade. Tanta gente mente por anos, não seria ruim mentir por dias. Mas agora já me acostumei.
Se não, vou reclamar do que??

Então, dia 27 de dezembro vou comemorar meu nascimento. Que foi em 1949.
Shuuuif....
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Foi maos....

dezembro 14, 2007

o natal está chegando

Todo natal é a mesma coisa. A gente lembra dos outros natais, não tem jeito. E eles ficam lá na memória, tal e qual os espíritos de Natal do Scrooge, sacaneando a gente.

Os primeiros que eu lembro tinham a presença da minha avó materna, que morava com a gente. Isso significava a presença de todos os parentes daquele lado da família. Uma italianada enorme. Lembro que havia bichos inteiros mortos ( arrghh) na mesa de natal. Carneiro num ano, porco no outro, cabrito.
E barriquinhas de vinho.

E minha mãe e minha avó trabalhando feito malucas nas semanas que antecediam o natal.

Eu, se fosse minha mãe, odiaria essa data. Mas ela parecia gostar, apesar de tudo.

Apesar das brigas do pessoal quando o vinho começava a fazer efeito, apesar de todo mundo tomar chá de sumiço logo depois do almoço e sobrar pra ela a limpeza daquilo tudo, apesar das fofocas e malentendidos. Fiquei com ojeriza de mesa cheia demais. E de família unida só porque é natal. Lembro bem do que se dizia pelas costas, antes e depois.
Barraco total. Enfim!

Depois que minha avó morreu, minha cunhada passou a gerenciar o natal. Ela e meu irmão mais velho também moraram conosco um tempo. Com ela o natal passou a ser mais divertido, pelo menos pra mim. Com ela eu montei a primeira árvore de natal, fascinada com as bolas de vidro enfeitadas. Lembro que ficava tonta de tanto soprar algodão pra enfeitar a árvore.
Com ela diminuimos a comida e sofisticamos os pratos.

E com a morte da minha avó a família ficou pequena. Minha avó era o liame, a corda forte que unia toda aquela parentada briguenta.

Depois eu casei e criei minha própria família. Família pequena, marido e um casal de filhos. Mas a gente sempre se divertiu com o natal. Com a árvore, com os pratos, com os presentes.

Das quatro pessoas da casa, 3 fazem aniversário perto dessa data. Eu e meus filhos. O que significa que debaixo da árvore sempre houve um montão de presentes. Porque desde que casei aboli isso de “ já que o natal é junto, vamos dar um presente só, melhor”. Quero tudo a que tenho direito, não importa o valor. Quero é quantidade.

Assim, a gente divide par de meia, a gente bota coisa pequena em caixa grande, a gente amassa coisa grande pra caber em pacote pequeno, a gente faz o diabo, mas a gente se diverte.

Estes últimos anos com um a menos, o filhão que mora fora.

Mas estaremos todos lá, debaixo não digo, porque a árvore é pequena, mas ao lado da árvore, nós todos, maridão, filhota e as cachorras, dando e recebendo presentes no dia 24.

E comendo coisas boas, feitas pelo maridão e filhota. Um especialista em salgados, a outra em doces.
Sem brigas.

Tá bom, só um pouquinho, na hora de comer o último pedaço da sobremesa...

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dezembro 11, 2007

minha vida de esportista

Quando nasci, havia na casa mais dois esportistas e meio. O “meio” era meu pai, não mais jogador de futebol “chutador de canelas” como antigamente. Eu nasci quando ele tinha já quarenta anos. Então o esporte que sempre o vi jogar foi bocha, coisa de velhinhos, dizia-se. Hoje acho que 40 anos é pós adolescente, mas isso não vem ao caso...

Meus dois irmãos eram chegadíssimos em esporte. O mais velho era formado em educação física. O do meio jogador de volei. Um ótimo jogador de volei.

Esperava-se que eu, a mais novinha, única menina, fosse me voltar para o esporte, ensinada por tantos professores domésticos e paparicada por ser a única menina.

E dá-lhe natação! E dá-lhe volei! E dá-lhe ginástica. E dá-lhe uma surra de vara de marmelo, como ameaçou – e nunca cumpriu- meu pai, por ser tão desajeitada e avessa a qualquer esporte.

Bola? Tenho medo. Já tinha antes, mas desde que comecei a usar óculos, aos sete anos, o medo aumentou bastante. Tinha que proteger os óculos, então a bola vinha e eu ia. Ou protegia o rosto com as mãos, tapando toda e qualquer visão. Boa mesmo só fui na queimada, sendo sempre a última a sobrar, sem “queimar”.

Natação? Aprendi com meu pai. Ou seja, o famoso nado “cachorrinho”, com o qual ele quase atravessava a represa, eficientíssimo. Ele, não eu. Fumante desde os doze, eu mal atravessava a piscina na parte estreita, tossindo com todos os bofes permitidos (up-date: bofe é sinônimo de pulmão e não de homem gostoso, como se usa hoje. Ah, essas gírias datadas!!).

Mas eu nunca faltava nas aulas de ginástica da ACM, onde meu irmão dava aulas. A ACM da Nestor Pestana, a maior de São Paulo, tem uma quadra com mezzanino onde, nos idos de 60 havia um senhorzinho alemão, chamado de “maestro” que martelava um piano pra “animar” as aulas. E eu amava de paixão aquele piano. Ficava sentadinha ao lado dele, todas as aulas que podia, ouvindo todas as marchinhas do John Philip Souza, todas as valsinhas vienenses.

Como eu adorava a ginástica na ACM!

Também frequentava a biblioteca de lá, cheia entre outras coisas, de gibis e livros infantis, coisa que não tinha em casa.

E pra não dizer que não praticava esporte nenhum, menina sozinha que sempre fui, competia com o elevador do prédio (e ganhava muitas vezes) pra ver quem chegava antes aos andares.

Eu pela escada.

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dezembro 7, 2007

passado pendurado

As pessoas gostam de arte. De pintura, especialmente. A maioria das pessoas.

Cansei de ver barracos paupérrimos de favela com alguma coisa pendurada nas paredes. Uma página de revista recortada com uma paisagem, um poster religioso, um quadrinho.

Em casas de estudantes da usp, geração 70, muito Van Gogh, muita Guernica de Picasso, muito Lautrec. Reproduções, claro.

Nas casas da minha infância, de parentes, tios e primos, todos pobres, mas donos de suas casas, havia também muita coisa pelas paredes.

A minha casa não era diferente. Na sala de jantar, uma Santa Ceia, enorme. Minha mãe dizia que “combinava” com sala de jantar. Minha mãe sempre foi mais pragmática do que religiosa. Então passei toda minha infância olhando aqueles apóstolos todos, em alto relevo, enquanto jogávamos pôquer na mesa da sala de jantar. Comer naquela sala só nos Natais.

Na sala de estar um “preto velho”. Nunca entendi o que aqueles quadros de “pretos velhos” queriam dizer.

Homenagear o pessoal que foi escravizado pelos brancos da terra? Duvido muito. Alguma menção religiosa, de umbanda ou candomblé? Não em casa, com certeza. Mas o preto velho ficou ali na sala, por anos. Eu o chamava de papai noel preto. Até descobrir que não havia papai noel, nem preto, nem branco.

Na cozinha um prato pendurado na parede, de estanho. Em alto relevo, pra minha delícia infantil. Gostava de passar a mão nas mesas, nos pães, nos pratos do quadrinho. Também era uma reprodução de uma cozinha com comida nas mesas. “Combinava”, como diria minha mãe.

Mas o que eu gostava mesmo era de um quadro na sala da minha tia Elisa. Casa muito mais pobre do que a nossa, mas também bem mais típica.

Um São Jorge matando o dragão! Era lindo o São Jorge. Bem mais lindo do que aquele que havia na casa do Tio Mário: um São Sebastião flechado.

Muitos anos depois vim saber que meu time do coração, aquele mesmo, o timão, tinha como símbolo o São Jorge. Coincidência, se é que as há.

Quantos dragões esse São Jorge não teria que matar hoje...!

bruegelJogos0.jpg Na minha sala. Pra lembrar que brincar é necessário. Sempre.

dezembro 3, 2007

inferno astral tem limite

Deus, se existir, sabe que eu tento ver o lado bom das coisas. Não porque eu seja otimista por natureza. Aliás, muito pelo contrário. É justamente por ser pessimista e com tendências depressivas que eu tento ver o lado bom. Sou uma pessimista inconformada.

Então, nestes últimos tempos eu tive que exercitar muito esse “ver o lado bom” na minha vida.

Há uns 20 dias minha filha foi assaltada, há duas quadras aqui de casa, às 20 hs, por dois garotos em bicicletas, armados. Levaram-lhe a bolsa.

Até aí, nada de anormal. Já temos tanta prática de assalto que só falta andar com um kit-ladrão, pra facilitar a vida dos amigos do alheio. E damos graças aos céus ou a qualquer coisa esotérica ( deixamos de acreditar nas coisas terrenas no quesito justiça há muito tempo) por ela ter escapado incólume, só com 7 reais, um celular e um bilhete único (o meu, por sinal) a menos.

Sim, porque a bolsa foi achada no dia seguinte de manhazinha, jogada no quintal de uma casa aqui perto, no bairro ao lado. E entregue por uma família muito gentil e solidária. E estava tudo lá dentro da bolsa: cartões, documentos, chaveiro, até a sapatilha de dança fedida que ela carrega. Tudo.

Então o lado bom pra ela é que, condoídos com sua perda – um celular xumbrega- nós lhe demos outro, melhorzinho.

Quarta-feira passada foi a nossa vez. Fomos rendidos às 21 hs na porta de casa quando a criatura aparentemente inofensiva que vinha subindo a rua no momento em que estávamos entrando no carro, num passe de gato, gira o corpo, mostra a arma e pede a chave do carro. No que foi prontamente atendido. Como já disse, temos prática.

Ontem, domingo, foi achado o carro. Sem um arranhão. Com mais gasolina do que quando foi levado. Estacionado bonitinho e fechado.

Só perdemos mesmo as chaves. E um pouco mais de sono, à noite.

O lado bom? Tomamos coragem de trocar o carro e aprendemos a não deixar mais todas as chaves juntas. Para o próximo ladrão, já teremos a chave do carro separadinha, pra não causar problema.

Então é isso. Dezembro. Dizem que mês de aniversário é mês de inferno astral e eu estou começando a acreditar.

Porque se eu consigo ver o lado bom desses eventos, e sobreviver a eles até com uma certa dose de bom humor, tem coisa que não dá pra suportar.

Tem coisa que não tem lado bom.

Tem coisa que ninguém merece, nem mesmo em mês de inferno astral.

Tem coisa que eu gostaria de não estar viva pra ver.

Tem coisa que...

Pô, meu timão, na segunda divisão?

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dezembro 1, 2007

borba gato ou hoje estou a fim de reclamar

Todo dia passava adiante dos tapumes. Sabia que se tratava de uma escultura. Até conhecia o autor, pessoalmente! O Guerra, morador de Santo Amaro. Como ele havia feito outras esculturas na frente do Teatro Paulo Eiró e na frente do antigo mercado de Santo Amaro, com mosaicos, especialidade dele, a professora de história mandou-nos entrevistá-lo. Fomos recebidas com carinho, bolo e coca-cola.
Até o dia em que tiraram os tapumes e a gente viu o que havia lá.

E sou obrigada a ver até hoje.

Tá bom, o Guerra era muito simpático e a coisa não é pessoal. Mas poucas vezes vi coisa tão horrorosa como o Borba Gato.

Embora tenha seus méritos. O mérito de ser uma referência, como aqueles carecas na multidão de shows de rock. Ou aqueles gordões na academia. Uma referência.

Eu fui comemorar meu casamento num restaurante na frente do Borba Gato, que já não existe. O restaurante, que o Borba Gato parece imortal. Meu casamento também, salve, salve.

Marco encontro na região tomando como referência o monstrengo. É ali, antes ou depois do Borba Gato.

Tenho amigas que “moram ao lado do Borba Gato”.

E outras “do lado de cima” ou “do lado de baixo” do Borba Gato.

Uma referência em terceira dimensão. Porque já li em jornal que o “helicóptero caiu logo após sobrevoar o Borba Gato”.

Já vi esculturas feias, porém nenhuma tão grotesca como o Bandeirantão.

Mas se até aquela outra, também muito feia ( vou comprar briga, eu sei) do Cristo Redentor foi considerada uma “maravilha do mundo moderno” em concurso suspeitíssimo, não me surpreenderia o Borba Gato ganhar alguma homenagem do tipo.

Do tipo “ignóbil das artes plásticas”.
E o Guerra, tão bonzinho...

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