tecidos do tempo
Existem coisas que dão conforto. Algumas nem sei explicar o porquê. Apenas dão conforto quando as tocamos, cheiramos, lembramos. Pano é uma delas.
Pano, tecido, fazenda como dizia meu pai. Meu pai trabalhou anos e anos na 25 de março, a rua das “fazendas”. Onde fazenda queria dizer tecido.
Nasci numa época em que as moças prendadas deveriam saber costurar. Minha mãe não era prendada a esse ponto. Então dependíamos de outras moças prendadas da família pra fazer nossos vestidos.
Comprava-se o pano e botava-se numa bacia pra “encolher”. Panos encolhiam naquela época. Jamais se faria um vestido ou qualquer outra roupa sem encolher previamente o tecido.
Sabia-se o nome de quase todos os tecidos do mercado. Usava-se tafetá pra roupa de festa (que barulho gostoso fazia!), tweed pra costumes de inverno, brim pra roupa de trabalho ou aventais. Calça jeans? Só comecei a usar na década de 60. As primeiras Lee do mercado, que eram lavadas com cândida até ficarem com aquele ar de gasta. Ô trabalhão!
Havia o laise, nem sei se é assim que se escreve. Pra fazer vestido de formatura, de primeira comunhão, de noiva. E organdi, aquela coisa piniquenta que eu odiava.
Havia seda pura, havia chita, havia algodão cru, que minha mãe comprava a peça inteira, punha pra alvejar e fazia lençóis. Quem tinha mais dinheiro usava percal. A gente ia de algodão cru, o mesmo que se fazem hoje panos de cozinha. Pinicava mas durava.
Com o passar dos anos, foram surgindo e sendo divulgados mais e mais os tecidos sintéticos. Lembro-me do tergal, com uma propaganda chata em que o cara sentava e levantava, sem parar, pra mostrar que o tecido não amassava. Tive pilhas de saias de tergal plissadas, uniforme da escola. Pano horrível, não amassava mas também não aquecia.
Depois os rayon, nylon, ban-lon, um monte deles todos terminados em"on",mantra dos sintéticos. E a gente fedia dentro deles. A começar daquelas camisas volta-ao-mundo, que tornavam as viagens que eu tinha que fazer nos ônibus ida e volta pra Santo Amaro numa volta ao mundo dos infernos. Que cheiros! Inesquecíveis, se é que me entendem.
Hoje estão todos ainda por aqui. E, numa volta ao passado ecologica e politicamente correta, tornam-se a usar os tecidos de algodão.
Só que desta vez só para ricos.
Ficaram caros pra chuchu!





