voltei
Quando eu aprendi a nadar, foi um marco na minha vida. Não que eu nade bem, nado bastante mal. Mas ter conseguido dominar a água, estar acima dela e poder me mexer em variadas direções, me deu um poder, uma segurança e uma calma, que nem sei dizer. Foi demorado, durante o que me pareceram anos – mas não passou de meses- fiquei batendo pernas desesperadamente. Depois mãos. Depois mãos e pernas descoordenadamente. Até o dia em que, sem eu nem mesmo perceber como, as coisas se tornaram mais harmoniosas e eu sai andando. Quer dizer, nadando. De lá pra cá meu estilo não mudou muito, mas eu continuo sabendo. Bater mãos e pernas desesperadamente com relativa harmonia. E andar uns metros por aí. Quer dizer, nadar uns metros por aí. Pela água, de preferência.
Agora que voltei de São Francisco, treze horas de vôo, intercaladas com uma pequena conexão – devidamente perdida na ida e quase-quase na volta - também sinto a mesma coisa. Um poder, uma calma, um “sou mais eu” que há muitas décadas não sentia. Aprendi a voar!
Eu já voei razoavelmente na vida, até a claustrofobia começar. Aprendi que claustrofobia é como alergia: a gente não sabe bem como começa, mas depois que começa, ela é constante. E uma luta pra terminar.
Foi assim, lutando aos poucos, usando de todos os recursos disponíveis, que a coisa foi melhorando. Nesta viagem usei de um tudo: remédio tarja preta, bençãos, orações, palavras cruzadas, literatura amena, pensamentos leves, ursinho de pelúcia, terapia antes, evitar ler jornais e assistir noticiários sobre previsão de tempo nos dias que antecederam a viagem e finalmente...consegui!
E descobri algumas coisas. Em primeiro lugar: remédio tarja preta não funcionou. Não me fez dormir nem uma horinha que fosse. Da próxima vez vou aceitar todo o vinho que oferecerem que fará melhor efeito, agora eu sei.
Em segundo, o tempo não importa muito enquanto se voa. Lá em cima, a 10.000 metros, parece sempre tudo igual. Só muda o fato de que com tempo claro dá pra ver as coisas embaixo.
Terceiro: já não se fazem companhias aéreas como antigamente, nem aeromoças. Teve até vendas on air: bem do tipo daqueles camelôs de ônibus: “ eu podia estar roubando, eu podia estar matando...”. As aeromoças passam deixando catálogo e depois passam vendendo ítens. E você não pode nem descer se ficar com raiva, como eu faço nos ônibus!
Quarto: meu ursinho “de viagem” é ótimo. Acalma, serve de travesseiro, e torna o humor das pessoas a minha volta bem melhor. Todo mundo deve achar gozado uma senhora de cabelo vermelho agarrada num urso de pelúcia...
Então, resumindo a ópera, a coisa fica assim: daqui pra frente é juntar todo o dinheiro possível, comprar aqueles livros de “conheça a europa inteira com 10 dólares ao dia” e guardar meu ursinho de voar muito bem guardado.
Enquanto isso, aproveitar a milhagem e dar um pulinho em Buenos Aires, rever amigos e milongas.

Icarus- James Christensen
Comments
Acho o "maior barato" poder voar. A primeira vez que sai do solo foi em Fevereiro desse ano, desde então já foram 13 aterrisagens bem sucedidas. O que descobri é que tenho pânico de uma outra coisa, Aeroportos! Filas, alfandegas, vistos, detectores de metal, bilhetes, espera, disso sim eu tenho pânico, fico nervoso, coração apertado, disparado algumas vezes. Só relaxo mesmo quando subo entro no avião ou quando saio do aeroporto.
Posted by: Capedonte | novembro 6, 2007 12:30 PM
Entiendode que hablas,no por los vuelos,porqueme encantan,pero si por nadar,hace un año que he aprendido,que he derrotado mi pánico al agua.La sensación de que una es capaz de hacer cosas que parecían imposibles,nos hace sentir de maravillas,mas seguras y dispuestas a luchar con lo que venga.
Asi que amiga,lo próximo unas sevillanas o unas muñeiras por España.
Un abrazo de bienvenida
Posted by: Sole | novembro 6, 2007 8:16 PM
Sole: por veces creo que vivir es superar miedos. Desde que nacimos hasta morir.
Pode estar certa que assim que consiga juntar um dinheirinho mais, é pra Compostela que vou. Agora que aprendi a voar, ninguém me segura! Um abração! ( que será que é muñeira?)
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Posted by: Che Caribe
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novembro 6, 2007 9:02 PM
Capedonte: sei do que fala. E pior do que aeroporto é consulado pra tirar visto. Agora nada, mas nada mesmo ganha da nossa polícia federal! Passei uma noite em claro, ao relento, numa fila pra revalidar passaporte!
abração
Posted by: Che Caribe
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novembro 6, 2007 9:05 PM
Che, que bom te-la de volta. Nao esqueca as fotos. Beijinhos
Posted by: Fran | novembro 7, 2007 1:02 PM
Nunca tive demasiado medo de voar. Mas, na minha família, há pessoal que entre em pânico dentro de um avião.
Por isso, compreendo o que isso é e congratulo-me com o facto de teres vencido esse medo.
Posted by: peciscas | novembro 7, 2007 3:09 PM
Estou planejando conhecer a Califórnia em 2008, mas a extinção dos vôos non stop me dá arrepios... A coisa mais próxima que achei foi um vôo SP-Lima-Los Angeles pela LAN-Peru, o que não é lá muito animador... Vamos ver se vou ter disposição para encarar tanto tempo no ar...
Posted by: Ricardo M | novembro 8, 2007 12:31 PM
Ricardo: sabe, eu também pensava que se tivesse muitas paradas seria menos stressante. Até me mostrarem estatisticamente que os aviões dão mais problemas nas aterrissagens e decolagens. Aí comecei a ficar cabreira com escalas...Mas se até eu consegui, eu que mal conseguia atravessar o túnel da 9 de julho, vc consegue. Busque o que mais te tranquilize (pra mim acabou sendo um ursinho) e manda ver!! Torço por vc!
Posted by: Che Caribe
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novembro 8, 2007 2:11 PM
Fran: as fotos não são muitas. Eu não gosto muito de olhar o mundo através de uma lente ( que me perdoem os fotógrafos). Mas estão no www.flickr.com/photos/checaribe
Posted by: maray | novembro 8, 2007 2:19 PM