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novembro 24, 2007

o vil metal

A velha polêmica se o dinheiro traz felicidade ou compra, volta à baila, vez por outra. Eu não consigo me definir, o que não tem a menor importância. Nem a minha definição nem o assunto esse.

Mas penso nisso, sim. Quando vou comprar vinho, por exemplo. Os caras que fazem o layout das gôndolas do supermercado são maldosos. Eu sei porque sempre acabo ficando com dor nas costas, de me abaixar pra olhar melhor aqueles de preço compatível com meu bolso. Estão sempre lá embaixo. Minha renda também. De vez em quando eu elevo os olhos para as alturas ( não tem nada de religioso aí) e fico namorando os que passam dos dois dígitos. Devem ser bons. E o dinheiro compraria muita felicidade engarrafada pra mim, sim.

Já tem coisa que o dinheiro compra e que não tem preço, apesar do preço que possamos pagar. Cachorro é uma delas. Não tem preço no mundo que pague a felicidade que um cachorro pode trazer. Mesmo assim acho um escândalo cobrarem mais de 500 reais por um São Bernardo e doarem de graça um “street dog” maravilhoso, como aquelas que eu tenho! Até pra cachorro rola preconceito, vejam só!

Meus trabalhos em artesanato, por exemplo. Fico até sem graça quando alguém me pede alguma coisa porque eu não consigo manter nem datas nem controle de qualidade. Às vezes passo horas e horas fazendo alguma blusa, alguma bolsa e não paro até acabar. E fica linda. Às vezes também passo horas e horas e fica uma droga. Infelizmente, no quesito artesanato sou imprevisível. E não posso botar preço. Porque me dá tanto trabalho que ninguém pagaria o que eu pediria. Tá bom, algum rico(a) talvez pagasse, mas daí dificilmente ia querer usar uma bolsa de crochê de barbante, minha especialidade...

Uma milonga com tango ao vivo! Tem preço? Tem. Normalmente barato. Dá um prazer enorme. Porque uma boa milonga com tango ao vivo é boa mesmo quando é ruim.
E o prazer que dá não tem preço.

Pois é isso. A felicidade às vezes tem preço, outras não. Mas dinheiro sempre é bom.
Isso eu sei.

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novembro 21, 2007

roda gigante

Quando a gente conhece alguém e se interessa por esse alguém, a gente - tá bom, vou falar só por mim – eu tento mostrar meus melhores ângulos. Não são muitos, mas existem.

Não foi diferente quando conheci meu marido. Demorou pra ele perceber que eu comia unhas, que eu boto a língua de fora cada vez que preciso de concentração, que eu não suporto mudança de planos e que eu odeio barulho de moto/carro aquecendo o motor. E mil otras cositas más que não vêm ao caso agora.

Começamos a namorar na praia. Havia um parque de diversões, desses cheio de brinquedos enferrujados (litoral sul, praia não badalada, parquinho pobre) e uma mulher-macaco. Chamava-se Monga, acho, um nome politicamente incorreto mas era isso. Ela até assustava. Pela pobreza do cenário, pela pobreza da interpretação. Provocava mais risadas do que medo.

Havia algodão doce cor de rosa. Uma delícia. Se há uma coisa que me fascina até hoje é aquele carrinho de fazer algodão-doce. Eu fico lá olhando e não há mágica melhor do que de repente, não mais que de repente, formarem-se aquelas teias que rapidamente engordam e viram o algodão. E depois meter a cara nele todo, pra comer. E ficar lambuzada até a sobrancelha. Ê coisa boa!

Havia um negócio cheio de xícaras voadoras que era mais pra criança, um carrossel de cavalinhos (nos quais ainda cheguei a levar meus filhos, uns dez anos depois) e a ...roda-gigante!!

Eu tinha 17 anos e nunca havia ido numa roda gigante. Pra falar a verdade, até onde me lembro, nunca havia ido em parquinho nenhum.

Namorado convidou, de lá de cima daria pra ver o mar, eu adoro altura, topei na hora.

E agora volto pro começo da história (pensavam que eu tinha esquecido e já estava totalmente perdida, né?). Começamos a girar. E girar. E girar.

Eu com a mão cheia de algodão doce. A mão, a cara e o estômago.
E a roda a girar, a girar, a girar.

Aí, apesar de todo meu empenho em só mostrar ao namorado meus melhores ângulos, não deu pra segurar.

Vomitei nuvens de algodão na roda gigante inteira. E otras cositas más que havia comido nos dois últimos dias. Sem nem mesmo me virar pra só mostrar meus melhores ângulos...

O namorado era muito compreensivo. E não se enoja por pouca coisa. Ou por muita coisa.
Casou comigo mesmo assim!

E eu nunca mais fui numa roda-gigante. Por precaução.

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novembro 16, 2007

Longe daqui. Aqui mesmo.

Eu estava no Muni, o metrô de São Francisco, em pleno dia de Halloween. Uma criança ia ou voltava da escola, de pé no metrô. A cada brecada ela quase caía. Todos que estavam perto estendiam a mão, os mais rápidos amparavam. Ela balançava mas não caiu. E estava bonita, toda fantasiada, toda pintada. A gente olhava pra ela e sorria. E olhava pra quem estava olhando pra ela e sorrindo e sorria também, ao encontrarem-se os olhares.

Eu entendo quase nada de inglês, mas aqueles sorrisos cúmplices no carinho por uma criança contente de estar ali, fantasiada, aquele sentimento eu conheço. Eu sinto igual.

Isso é cultura? Isso é genética? Sei lá. É bom.

Eu dancei tango em São Francisco. Com um americano chamado Jim. É só o que sei dele. Ele bem que tentou me contar mais, puxar conversa, ser gentil. Eu não o entendi. Mas a música começou e a gente saiu dançando. Harmonicamente ao som de um tango argentino, em terras do tio Sam, uma brasileira e um americano. Ao redor, montes de chineses, filipinos, americanos. Globalização? Não sei. Foi bom.

Aquela história da torre de Babel me parece bem interessante. A história cristã fala em punição por querer alcançar o céu. Todos passaram a falar línguas diferentes.
Mas pra que alcançar o céu? Se o legal, o bom mesmo, é construir a torre, todo mundo junto.
O céu é aqui.

Eu gosto muito de encontrar semelhanças. Busco ampliá-las. Nada me deixa mais feliz do que encontrar alguém, como o peciscasque disse que imaginava ser ele o único a pensar certas coisas daquele jeito. Do jeitinho mesmo que eu descrevi.

Quer coisa melhor do que isso? Um homem que nunca vi, que não sei se vou ver algum dia, que mora muito longe, do outro lado do Atlântico, com outra formação, que curte matemática ( ahhhg, ninguém é perfeito..) que diz uma coisa dessas, como talvez meu irmão dissesse, meu filho, sei lá. Alguém que me viu nascer ou que eu vi nascer. Não tem nada melhor. Um aqui, outro ali, ninguém é igual mas todo mundo tem semelhanças. Estabelecer seja lá o que for, a partir de semelhanças é infinitamente melhor do que buscar a guerra e a divergência, a disputa e a competição.

Ou não é?
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novembro 13, 2007

coisa mais louca

Eu não sei se de fato li em algum lugar, ou se é uma daquelas coisas das quais a gente tem uma falsa memória. Tipo se lembrar de um fato que a gente jura que aconteceu e quando relata pra alguém que também estava lá, vê que imaginou a coisa toda. Mas eu lembro – ou criei essa memória – de ter lido em algum lugar que enquanto a gente imagina que está louco, é porque não está. O louco mesmo tem certeza que está legal.

Isso foi de garota, acho eu. Depois disso acabei por estudar psicologia, me formei e embora nunca tenha exercido psicologia clínica, conheço um pouco de neuroses em geral, de esquisos, enfim, de gente doida. E continuo acreditando nisso.

Na realidade, o que eu morro de medo é das certezas. Gente que sabe das coisas, gente que tem certeza de tudo, gente que não duvida. Talvez por isso tenha tanta resistência a qualquer religião. E seita. E partido político.

Então fico pensando que se eu tiver medo, mas muito medo mesmo de alguma coisa, ela pode não acontecer. Porque das vezes em que coisas das quais costumo ter medo aconteceram, eu não estava pensando nelas. O que, pensando bem, é por si só uma coisa bastante autoritária e megalômana. Como se pela minha simples vontade eu fosse capaz de modificar os rumos do mundo.

Enfim! Tudo isso pra dizer que eu morro de medo de Alzheimer. Meu pai morreu com Alzheimer. Minha sogra também. E um monte de gente que eu conheço que não lembro agora. Tá vendo só? Eu não lembro agora...

O problema é esse: minha memória é uma droga.

O que me deixa, de uma certa forma, aliviada. Porque ela sempre foi. Uma droga. Então imagino que enquanto eu tiver esse medo, eu escapo.

Mas no fundo mesmo, sei que não posso comandar o mundo.
E bem que eu gostaria!

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novembro 9, 2007

o rato que ri

Tem um rato aqui em casa. Não sei há quanto tempo. Já o vi andando sobre o muro, por entre os cacos de vidro. Já o vi dentro do motor da geladeira, quando a casa estava em reformas e ela foi parar na lavanderia.

Já o vi subir no tronco da cerejeira.

Já o vi subir no tronco da pitangueira.

O que quererá isso dizer?

Que eu enxergo bem?
Que são vários ratos da mesma família, muito parecidos entre si?
Que ele ( ou eles) gostam muito de frutas?
Que ele propositalmente fica passando na minha frente pra me provar o quanto a humanidade deixou de ser caçadora e se tornou uma mera observadora passiva?

Não sei. Tenho certa simpatia por ele. Tenho certa simpatia por mamíferos peludos, incluindo aí os humanos. Mas é ele ou eu. Não cabemos os dois aqui.

Aí botamos uma ratoeira moderna no forro da casa. Dessas que matam por hemorragia. Bem devagar.

Ele continua passando por aqui. Ouço suas corridinhas. As cachorras enlouquecem de latir, inaptas como o resto da família no quesito caça.

E ele ri.
Bom, isso não vi, mas não enxergo tão bem assim.

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novembro 5, 2007

voltei

Quando eu aprendi a nadar, foi um marco na minha vida. Não que eu nade bem, nado bastante mal. Mas ter conseguido dominar a água, estar acima dela e poder me mexer em variadas direções, me deu um poder, uma segurança e uma calma, que nem sei dizer. Foi demorado, durante o que me pareceram anos – mas não passou de meses- fiquei batendo pernas desesperadamente. Depois mãos. Depois mãos e pernas descoordenadamente. Até o dia em que, sem eu nem mesmo perceber como, as coisas se tornaram mais harmoniosas e eu sai andando. Quer dizer, nadando. De lá pra cá meu estilo não mudou muito, mas eu continuo sabendo. Bater mãos e pernas desesperadamente com relativa harmonia. E andar uns metros por aí. Quer dizer, nadar uns metros por aí. Pela água, de preferência.

Agora que voltei de São Francisco, treze horas de vôo, intercaladas com uma pequena conexão – devidamente perdida na ida e quase-quase na volta - também sinto a mesma coisa. Um poder, uma calma, um “sou mais eu” que há muitas décadas não sentia. Aprendi a voar!

Eu já voei razoavelmente na vida, até a claustrofobia começar. Aprendi que claustrofobia é como alergia: a gente não sabe bem como começa, mas depois que começa, ela é constante. E uma luta pra terminar.

Foi assim, lutando aos poucos, usando de todos os recursos disponíveis, que a coisa foi melhorando. Nesta viagem usei de um tudo: remédio tarja preta, bençãos, orações, palavras cruzadas, literatura amena, pensamentos leves, ursinho de pelúcia, terapia antes, evitar ler jornais e assistir noticiários sobre previsão de tempo nos dias que antecederam a viagem e finalmente...consegui!

E descobri algumas coisas. Em primeiro lugar: remédio tarja preta não funcionou. Não me fez dormir nem uma horinha que fosse. Da próxima vez vou aceitar todo o vinho que oferecerem que fará melhor efeito, agora eu sei.

Em segundo, o tempo não importa muito enquanto se voa. Lá em cima, a 10.000 metros, parece sempre tudo igual. Só muda o fato de que com tempo claro dá pra ver as coisas embaixo.

Terceiro: já não se fazem companhias aéreas como antigamente, nem aeromoças. Teve até vendas on air: bem do tipo daqueles camelôs de ônibus: “ eu podia estar roubando, eu podia estar matando...”. As aeromoças passam deixando catálogo e depois passam vendendo ítens. E você não pode nem descer se ficar com raiva, como eu faço nos ônibus!

Quarto: meu ursinho “de viagem” é ótimo. Acalma, serve de travesseiro, e torna o humor das pessoas a minha volta bem melhor. Todo mundo deve achar gozado uma senhora de cabelo vermelho agarrada num urso de pelúcia...

Então, resumindo a ópera, a coisa fica assim: daqui pra frente é juntar todo o dinheiro possível, comprar aqueles livros de “conheça a europa inteira com 10 dólares ao dia” e guardar meu ursinho de voar muito bem guardado.

Enquanto isso, aproveitar a milhagem e dar um pulinho em Buenos Aires, rever amigos e milongas.

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Icarus- James Christensen

novembro 1, 2007

delicados de pés grandes

Tem muita gente que ao chegar a lugares desconhecidos percorre os museus da cidade. Eu não. Até seria legal, mas tendo pouco tempo e selecionando o que ver, museu fica em segundo plano.

Gosto do dia a dia, do que está por debaixo do tapete, do arroz feijão (deveria dizer hambúrguer e batatas fritas).

Tudo muito localizado por aqui, setorizado. Latinos? Mission. Hippies? Haight. Orientais? Chinatown. Homeless e drogados? Parques e ruas do centro, devidamente munidos dos seus cachorros e dos seus carrinhos de supermercado, onde botam sua vida sobre rodas. Aliás, nunca vi tanta gente fazendo uso de carrinho de rodas, bengalas, ortopedias em geral. Aqui eles saem às ruas. As ruas foram feitas pensando neles. Dá pra andar de muletas e de cadeira de rodas sem ter que pedir ajuda a ninguém.

Não consigo entender a lógica das roupas. Está frio pro meu gosto. Venta pra caramba e na sombra é de cortar a pele. O povo usa um monte de blusas sobrepostas e chinelo de dedo. Deve haver uma diferença de fundo entre pés brasileiros e pés americanos. Além do tamanho. Nunca me senti tão baixinha, de pé tão delicado como aqui.

São educadíssimos. Aquela imagem do americano truculento não se mantém em Frisco. Delicados mas distantes. Ninguém se agarra, se beija. Deve dar processo por assédio.

Tampouco jamais vi um transito tão organizado. Pela primeira vez na vida atravesso ruas sem medo de ser feliz. Boto o pezinho (aqui é pezinho..) e o povo pára. E fica me esperando sem xingar, sorrindo.

Por enquanto é isso. Tá tudo muito bom, tá tudo muito bem, mas já está me batendo uma saudadezinha. Nada como sair de férias!

Pra poder ter a sensação deliciosa de voltar!!