realismo puro
Quando eu era criança nunca pensei na morte. A vida começava e era um interminável rosário de descobertas. Lembro da sensação de ir dormir sempre pasma com o que havia descoberto no decorrer do dia. Sempre uma coisa nova. Uma coisa que tinha o dom de mudar radicalmente meus pontos de vista.
Meus pontos de vista infantis duravam muito pouco.
Na adolescência eu fui imortal. Como todos os adolescentes. Mas como também era muito medrosa, nunca testei meus limites além do razoável. Digamos que eu tenha sido uma imortal precavida.
Mas foi lá que descobri a paixão pelas coisas e pelos homens, pelos bichos e pelas palavras. Infelizmente também pelo fumo e pelas comidas embutidas. Eu era imortal, não perfeita.
E hoje, bom, hoje não sou mais criança. Dormir não é mais botar a cabeça no travesseiro e abrir os olhos no dia seguinte. Aprender coisas novas demanda mais do que um dia. Estou mais apegada aos meus pontos de vista. Fumar nem pensar e comidas embutidas só em sonhos. Sonhos de chinchulin.
E imortal nem na academia de letras.
Pelo menos não com estas aqui...
Comments
Esta não criança fuma feito chaminé e quanto a comida, geralmente quanto menos saudável, melhor. Meus avós goianos se entupiam de tudo que hoje é condenado e eles e meus tios-avós todos passaram dos 90. Minha bisavó foi aos 99 nessa dieta pesada. E pretendo seguir nesse caminho, se Deus me ajudar.
Posted by: Sonia | outubro 16, 2007 12:34 AM
La infancia y la juventud tienen esa insolencia y avidez de aprender que nos falta a veces en la edad madura. No serás inmortal en la Academia de letras pero si no borras nunca tus letras en este blog a lo mejor se quedan para la posteridad.
Posted by: Sandel | outubro 16, 2007 9:43 AM
Sandel, el problema de la posteridad es que esta muy lejos... Veja, eu sou uma pessoa tão impaciente que mal consigo esperar alguns dias, na semana que antecede o natal, pra abrir os presentes que ficam na árvore. Geralmente faço um furinho neles pra saber o que é :) Acho que tem coisas de criança que a gente não perde nunca!
Posted by: Che Caribe
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outubro 16, 2007 11:33 AM
Sonia, você está falando de Goiânia e de avós, ou seja, de uma época e um lugar em que a vida era mais calma. Outro dia encontrei um garoto de 11 anos com colesterol mais alto que o meu. Precisa ver o olhar que ele dava pro salgadinho na mão da irmã! Nunca olhei com tanto tesão e cobiça nem pro meu marido...A vida mudou. Pra pior, nesse aspecto.
Posted by: Che Caribe
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outubro 16, 2007 11:39 AM
Gostei da sua escrita leve. Parece que está sentada no sofá, bem à minha frente.
A imortalidade com certeza não está associada ao cigarro ou aos embutidos. Se for com as letras temos que descobrir a senha. Quantas letras?
Posted by: Roberto Klotz | outubro 16, 2007 11:34 PM