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pior seria nada

No vidro de um carro que eu chamo de NP (nada a perder), vermelho, década de 60, um adesivo colado letra a letra, tortinho como o carro: Pior seria nada.

Fico pensando no que poderia querer dizer aquilo. O primeiro pensamento, lógico, é a resposta aos meus comentários internos: aquilo anda! E andando pelas ruas, é melhor que nada. Será isso mesmo?

Já escrevi a esse respeito por aqui. Onde moro, quase divisa da cidade lado sudoeste, pululam os NPs. De todas as cores e formatos. Cortados pra virarem transporte de recicláveis, de engradados de feirantes, de ovos, de pamonhas de Piracicaba...

Mas aquilo anda. E andando, além do trabalho diário, pode carregar a família, como tenho visto tantos fazerem, aos finais de semana. Ou carregar os amigos pro jogo de futebol. Ou a criançada prum passeio.

De vez em quando aquilo pára. Mas quem liga? Desce todo mundo – e é mesmo um mundão que está lá dentro – e empurram a coisa. E pur si muove!

Leio agora que vão instalar chips nos carros pra controle. E antenas pra detectar os chips e verificar os carros irregulares. Entendo a medida. Parece até lógica e moderna. Carros velhos e irregulares poluem, atravancam o trânsito.

Mas e os “pior seria nada?” E as famílias que têm nesses NPs que circulam na periferia seu meio de transporte dominical? Seu meio de trabalho diário?

São pobres e feios, dirão alguns. As pessoas e seus carros.

Seus NPs, seus “pior seria nada”.

Aqueles que do nosso lixo fazem seu meio de vida.

Chips pra arrecadar mais impostos. Pra combater irregularidades.

E quando alguém perceberá que a irregularidade maior é tanta pobreza?

chip.jpg

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Comments

Cando alguén sepa o que é a pobreza, en vez de pelexar contra os pobres pelexarán en contra dela.

Também penso assim, pior seria nada. Quando a vida tá braba - e como anda braba nos últimos tempos - lembro que possuo um teto, como 3 vezes ao dia e não fico na fila do SUS eu tomo consciência de como, apesar de tudo, sou uma privilegiada.
Quanto ao seu convite, fiquei comovida, sabe? Um dia ainda vamos nos conhecer, aposto. Sem as fantasias idealizadas que comentei, você deve ser uma pessoa pra cima. Beijos.

Me acordé de la canción de Paralamas:
Coche viejo, coche viejo porque/ en el lugar donde vivo/ ni todos pueden comer.
Besos, Maray.

Pelas bandas de cá o governo dá incentivo fiscal a quem quiser substituir os NPs. Na prática, o desconto de 1000 euros não chega a mudar muito o valor do carro novo, mas já é uma ajudinha. Mesmo assim, tem muito carro velho rodando.

...E uma proposta para se instalar chips nos políticos, para saber onde eles andam, controlar os irregulares, essas coisas.

O meu primeiro carro era desse tipo.
E, de facto há ainda muita gente (também por aqui) que não pode ter melhor e que precisa dele.
Por isso, é como dizes: o que é preciso é melhorar o nível de vida das pessoas e não agravar o fosso entre os mais favorecidos e os menos.

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