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limbo

Quando eu era pequena e fiz primeira comunhão, tive antes que fazer um tempão de catecismo. Aí aprendi que limbo era um lugar onde as criancinhas não batizadas deviam ficar até sei lá quando. Uma espécie de sala de espera de não sei o quê. Nunca me preocupei muito com isso, uma vez que eu era batizada e tinha certeza que com o montão de pecados que carregava nas pequenas costas de oito anos, eu iria mesmo é pro inferno.

Depois veio um papa e disse que não era nada daquilo. Bom, eu já era grande e esse tipo de coisas me interessava menos ainda. Eu, adulta, deixei de me preocupar com céu e inferno, passando a ter preocupações mais momentâneas. O aqui e agora ganhou espaço. O depois, bom o depois eu “penso amanhã”, seguindo minha gurua de “e o vento levou”.

Mas limbo é aquilo que eu chamo de transparência real. Por exemplo, eu estou numa idade-limbo.

Ainda não tenho sessenta anos, o que me daria direito a meia entrada em cinemas e teatros, a carteirinha de idoso nos ônibus e a reivindicar sentar nos bancos amarelos.

Poderia me aposentar por idade – que aliás é a única maneira de me aposentar- e ter preferência nas filas de banco e supermercados ( quanta vantagem...).

Mas ainda não tenho sessenta. Então tomo ônibus e venho em pé, carregando um mundão de sacolas. Ninguém me dá lugar.

Enfrento supermercado cheio e quando tento a fila dos velhinhos a moça me olha feio e diz que só com RG provando idade. E fico vendo aquela fila enorme cheia de mocinhos e mocinhas carregando seus velhinhos como quem carrega um salvo-conduto, todos passando na minha frente...

Então sinto na pele o que aquelas criancinhas de antigamente que morriam sem ser batizadas deviam sentir no limbo. Aquela espera interminável por sabe-se lá o quê, um São Jorge vindo resgatar a todas com seu cavalo branco, um São Pedro com uma enorme chave na mão, até mesmo um anjo de baixo escalão mas que tenha uma resposta a dar.

A burocracia emperra o mundo.

E o céu também.

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Comments

Já saí do limbo. Pago meia entrada, viajo de graça no ônibus e no metrô. Fila preferencial? No supermercado ninguém repeita, só no banco. Aposentadoria? Tenho sim, mas 460 merrecas mensais não compensam.

Também já não estou no limbo.
Mas, por aqui, os benefícios são muito poucos.
A minha velhice ainda não é tão visível que mereça reconhecimento social...

Peciscas: feliz de você que mora num país no qual, ao se tornar "visível" a velhice, mereça reconhecimento social...aqui nem isso!

Sônia: e pensar que tem gente com 4 ou 5 aposentadorias integrais com apenas poucos anos de mandato...e depois dizem que o que não compensa é o crime!!

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